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Internacional

Capacetes azuis da ONU acusados de não proteger civis no Sudão do Sul

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PHIL MOORE

Grupo de monitorização dos direitos humanos diz que tropas chinesas e etíopes se recusaram a proteger civis em Juba durante uma insurreição em julho, deixando milhares de mulheres sujeitas a violações em massa por rebeldes que apoiam o ex-vice-presidente Riek Machar

Dois batalhões de capacetes azuis da ONU ficaram dentro das bases militares da organização em vez de cumprirem o seu dever de proteção de civis na capital do Sudão do Sul durante uma insurreição de quatro dias em julho passado, acusa um grupo norte-americano de monitorização dos direitos humanos.

De acordo com o Centro para Civis em Conflito (Civic), com sede em Washington, soldados da paz chineses "abandonaram totalmente os seus postos" numa das áreas criadas para proteger civis, onde dezenas de milhares de pessoas tinham procurado refúgio da violência, deixando as mulheres à mercê de violações em massa.

Apesar de as tropas etíopes da ONU terem aparentemente batido em retirada das suas posições numa outra base, os civis dizem que nessa zona os capacetes azuis ajudaram a retirar os corpos das vítimas e, em pelo menos uma ocasião, trocaram fogo com os rebeldes quando estes atacaram o campo de refugiados internos. No exterior das bases fortificadas, aponta contudo o Civic, a presença de capacetes azuis foi "inexistente" nas duas zonas sob ataque.

O caso remonta a 11 de julho deste ano, quando entre 80 e 100 soldados rebeldes atacaram um campo em Juba, onde violaram dezenas de mulheres sul-sudanesas e pelo menos cinco funcionárias estrangeiras de organizações não-governamentais, aponta o Civic em relatório. No mesmo dia, os rebeldes executaram um jornalista sul-sudanês por alegadamente pertencer à etnia Nuer.

A missão da ONU no Sudão do Sul (Unmiss) deu ordens aos capacetes azuis para intervirem mas nenhum "tentou sequer abandonar as bases" para proteger os civis, aponta o grupo sem fins lucrativos, com as unidades chinesas e etíopes a recusarem-se a sair e a cumprir a sua tarefa primordial.

"A missão de paz da ONU enfrentou um ambiente desafiante durante a violência de julho em Juba, mas não cumpriu o seu dever de proteger os civis dentro e fora das suas bases", refere Federico Borello, diretor-executivo da Civic. "Para garantir que tais problemas não se repetem no futuro, é essencial que a ONU seja transparente sobre o que correu mal e responsabilize quaisquer indivíduos ou unidades que falharam em cumprir o seu mandato de proteção."

No mesmo relatório, a organização pede à ONU que imponha um embargo de armas no Sudão do Sul, o mais jovem país do mundo, que se tornou independente do Sudão em 2011 e que está mergulhado num conflito civil desde dezembro de 2013, quando o Presidente Salva Kiir acusou o seu ex-vice, Riek Machar, de planear um golpe militar contra ele. Um frágil acordo de paz alcançado em agosto de 2015 viu Machar regressar a Juba no início deste ano, mas os seus apoiantes voltaram a entrar em confronto com soldados leais a Kiir há três meses.

Durante os quatro dias de violência e batalhas campais em julho deste ano, entre as forças de Kiir e as forças rebeldes de Machar, duas bases das Nações Unidas foram atingidas por disparos de artilharia e tiros, com dois capacetes azuis de nacionalidade chinesa a perderem a vida. Um número não determinado de civis também perdeu a vida nesses confrontos dentro e fora das bases da ONU; no exterior delas, os rebeldes violaram várias mulheres, muitas vezes à vista de sentinelas da força internacional de paz.

Em fevereiro, a Civic divulgou os resultados de uma investigação a um incidente semelhante, quando capacetes azuis da Etiópia, da Índia e do Ruanda não agiram perante um ataque de soldados do Governo a outra área de proteção de civis na cidade de Malakal, no norte do Sudão do Sul, matando pelo menos 30 civis. Meses depois, a ONU admitiu a "inação, abandono de postos e recusa em agir" face ao ataque, mas não responsabilizou quaisquer comandantes ou soldados.