Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Porque Guterres chegou ao topo. Por Ricardo Costa

  • 333

FABRICE COFFRINI/GETTY IMAGES

No dia em que António Guterres foi indicado como favorito para o cargo de secretário-geral das Nações Unidas, ao ter vencido a sexta votação do Conselho de Segurança, republicamos um artigo de opinião sobre o antigo primeiro-ministro português que Ricardo Costa escreveu na semana passada, quando a vitória de Guterres era ainda apenas uma hipótese

Ricardo Costa

Ricardo Costa

Diretor de Informação da SIC

Quando António Guterres anunciou a demissão, em 2001, não era propriamente um primeiro-ministro popular. Ao fim de sete anos no poder, estava acossado no Parlamento, preso na máquina partidária, capturado pela política dos consensos, visivelmente desencantado e sem forças para mais dois anos de governo sem maioria no Parlamento.

À esquerda, muitos não lhe perdoaram a saída, que abriu caminho ao governo de Durão Barroso, como já não lhe tinham perdoado o referendo ao aborto, o seu profundo catolicismo ou as ótimas relações com a Igreja e os grandes empresários. À direita, sublinharam-lhe a hesitação dos últimos tempos, as dificuldades em controlar a despesa, a imagem de “picareta falante”. Mas Guterres nunca deixou de ser um político incrivelmente culto e com uma rara capacidade de raciocínio e comunicação. Basta recordar a forma com os dois mais brilhantes parlamentares das últimas décadas — Francisco Louçã e Paulo Portas — eram vencidos por Guterres no Parlamento.

O seu à vontade em televisão era tal que, em 1999, contrapropôs à SIC que os debates das legislativas se fizessem em sucessivos frente a frente, num modelo que nunca existira até então e que depois se generalizou. Nesse ano, Guterres debateu a dois com Durão Barroso, Carlos Carvalhas e Paulo Portas e venceu os debates com à vontade. Mas esse “à vontade” tinha um perigo evidente: polarizava muito pouco e não mobilizava indecisos e abstencionistas. Nesse ano, falhou a maioria absoluta por um deputado.

A partir dessas eleições, António Guterres nunca mais foi o mesmo, dando um poder desmesurado a Pina Moura e um destaque excessivo a José Sócrates ou Armando Vara, perdendo o apoio fundamental de Jorge Coelho depois da tragédia de Entre-os-Rios, uma perda fatal para quem já não tinha António Vitorino por perto. A indecisão tomou conta dele.

Perdido internamente, Guterres refugiu-se na presidência portuguesa da UE, onde colheu louros de todos os quadrantes e mostrou aquilo que melhor sabe fazer: diplomacia. Qualquer jornalista que já o tenha acompanhado ao estrangeiro sabe exatamente do que estou a falar: a capacidade oratória, a cultura geral e a segurança retórica são difíceis de igualar. Mas nem tudo isso é inato: António Guterres é o clássico estudante aplicado e enciclopédico, que devora dossiês e lê tudo o que apanha à frente.

Além disso, teve aulas de dicção e colocação de voz — daí nunca ficar rouco em longas campanhas eleitorais —, decora e sublinha as frases que sabe que os jornalistas vão usar e quando discursa num palco fixa dois ou três espectadores e modela o discurso em função das suas reações.

Nada disto é incomum em políticos muito profissionais ou aplicados. Mas Guterres é o mais profissional e aplicado dos políticos portugueses do pós-25 de Abril. Não é o que mais mudou o país, nem o que provocou mais paixões ou ódios, muito menos o que mais animou uma área política. Não chegou à liderança do PS numa onda de glória, mas numa luta fratricida com Sampaio, nem abandonou o poder pela porta grande, longe disso. Mas era e é o mais dotado de todos.