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Guterres: e se o problema não for Georgieva?

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ELE E ELA. Ele, António Guterres, ganhou as cinco votações até agora. Ela, Kristalina Georgieva, só agora entrou na corrida e é tida como a grande rival. Será mesmo?

reuters

Candidata búlgara Kristalina Georgieva entrou de rompante na corrida a secretário-geral da ONU e desde logo se considerou que a candidatura de Guterres estava perdida. Não é porém líquido que seja ela a “escolhida” pela Rússia. Na nova votação que vai ocorrer esta quarta-feira, os membros permanentes do Conselho de Segurança vão mostrar as suas preferências e a situação ficará mais clara

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Desde que a búlgara Kristalina Georgieva apresentou a sua candidatura ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas que foram dados como diminutas as hipóteses de António Guterres, que todavia venceu com larga margem as cinco votações anteriores do Conselho de Segurança. O principal argumento é que Rússia tem repetido que “é a vez de a Europa do Leste fornecer o próximo secretário-geral” e que, além do mais, segundo Vitaly Churkin, embaixador deste país nas Nações Unidas, a Rússia “gostaria muito de ver uma mulher” no cargo.

Todavia, é possível que não seja a vice-presidente da Comissão Europeia de licença sem vencimento a preferida dos russos, mas sim Irina Bokova, a também búlgara e diretora-geral da UNESCO que se mantém candidata ao cargo, apesar de o seu Governo lhe ter retirado o apoio. Esta quarta-feira, a situação ficará mais clara, quando se realizar a sexta votação dos membros do Conselho de Segurança, mas desta vez com a identificação dos votos dos membros permanentes.

CANDIDATAS. Kristalina Georgieva, a comissária, ou Irina Bokova, a diretora-geral: qual delas é a preferida de Moscovo? É uma resposta que interessa a Guterres

CANDIDATAS. Kristalina Georgieva, a comissária, ou Irina Bokova, a diretora-geral: qual delas é a preferida de Moscovo? É uma resposta que interessa a Guterres

GEORGES GOBET / AFP / GETTY

Os P5, os cinco membros do Conselho que têm direito a veto (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França), vão mostrar quem apoiam, embora os moldes da votação sejam os mesmos: encoraja, desencoraja ou sem opinião. Um não encorajamento terá o poder de um veto, mas não é ainda o voto final.

Segundo o embaixador russo afirmou na mesma ocasião, em breve haverá um voto formal para resolver a questão. Fontes diplomáticas garantem que a Rússia gostaria de ser ela a encerrar o dossiê, já que detém neste mês de outubro a presidência rotativa do Conselho. Com a aproximação das eleições presidenciais americanas, no princípio de novembro, também os Estados Unidos não estarão particularmente interessados em adiar durante muito tempo o assunto, tanto mais que, de qualquer modo, a eleição do novo secretário-geral terá que ficar consumada antes do fim do ano.

Pressão indesejada

Foi a Rússia que no princípio de setembro, na cimeira dos G20, na China, denunciou publicamente as alegadas pressões da chanceler alemã Angela Merkel para que o presidente russo Vladimir Putin se manifestasse a favor da nova candidata búlgara, Kristalina Georgieva

NA CORRIDA Kristalina Georgieva, a comissária búlgara

NA CORRIDA Kristalina Georgieva, a comissária búlgara

DOMINICK REUTER /AFP / GETTY

Entre os meandros complexos da interpretação da política russa, não se sabe se a “denúncia” do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo pretendia assinalar uma posição em particular. Mas, ao que se sabe, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, levou a sua vice-presidente à cimeira económica UE-Rússia, em São Petersburgo, e esteve conjuntamente com ele no encontro com Putin. Segundo fonte diplomática, “a resposta do Presidente russo não deve ter sido assim tão entusiasmante para que depois tenha sido a própria Merkel a falar sobre o assunto com Putin”.

Para a Rússia, o grande senão de Georgieva é ter feito parte de uma Comissão (a de Durão Barroso) que decretou as sanções à Rússia por causa da guerra na Ucrânia. E, como escrevia no seu blogue o embaixador Francisco Seixas da Costa, a hesitação da candidata e a “cara desencantada” do embaixador ucraniano que lhe perguntou durante a sua audição em Nova Iorque sobre o assunto “podem dizer tudo”. “Procurar não antagonizar Moscovo (...) é a cartada evidente de Georgieva.”

Nada está pois definido. Mas se é de crer que a comissária não avançaria para tal corrida sem apoios de peso, tanto mais que o fez em condições que em tese lhe podem ser desfavoráveis, dada a pouca transparência que rodeou a sua candidatura, também é razoável pensar que Irina Bokova não retirou a sua por idênticas razões. Segundo algumas fontes, Georgieva seria a preferida dos americanos.

Qual delas será o peão sacrificado nos interesses entre a Rússia e os Estados Unidos, os poderosos “fazedores de secretários-gerais”, é a questão. Mas pode até acontecer que, entre as duas, sobre lugar para um terceiro. É essa a janela de Guterres.