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Washington suspende conversações com Moscovo sobre futuro da Síria

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ABDALRHMAN ISMAIL/ Reuters

Em comunicado, Departamento de Estado norte-americano acusa as forças russas de “falharem em cumprir os seus compromissos” no âmbito do acordo de cessar-fogo que colapsou há duas semanas, ao qual se seguiu uma campanha militar intensificada e sem trégua pelo regime sírio e as tropas russas que o apoiam contra o leste de Alepo, que já conduziu à morte de centenas de civis

Os Estados Unidos suspenderam as negociações de paz para a Síria por causa do bombardeamento contínuo de civis no leste de Alepo pelas forças russas desde que terminou o cessar-fogo de sete dias que os dois países anunciaram a 12 de setembro.

Num comunicado divulgado na segunda-feira à noite, o Departamento de Estado norte-americano acusa a Rússia de ter “falhado em cumprir” os seus compromissos sob esse acordo de cessação de hostilidades, efetivando a ameaça feita na semana passada de que iria suspender as conversações se Moscovo não parasse de participar na campanha intensificada do regime contra a parte da cidade estratégica que está sob controlo dos rebeldes que combatem Bashar al-Assad.

Em resposta a isto, as autoridades russas disseram lamentar a decisão, acusando os Estados Unidos de levarem a cabo um jogo de culpas que conduziu ao colapso da trégua no final de setembro. O anúncio norte-americano surge no rescaldo de mais um ataque a um dos maiores hospitais ainda em funcionamento em Alepo, o terceiro contra o chamado M10. De acordo com o diário “The Guardian”, horas antes do anúncio Moscovo tinha declarado que ia suspender os contactos militares com os EUA, e o Presidente russo, Vladimir Putin, anunciou a suspensão de um acordo de seis anos com Washington que tinha como objetivo reduzir o tamanho do seu arsenal militar nuclear, em particular as quantidades de plutónio que tem armazenadas, por causa dos contínuos desentendimentos sobre a Síria e também sobre a Ucrânia.

Alepo, a maior cidade da Síria, no nordeste do país, está sob fogo contínuo desde o final da trégua de sete dias há duas semanas, com ativistas no terreno a denunciarem a morte de centenas de pessoas, quase metade delas crianças, desde que as forças do Governo Assad relançaram a ofensiva para reaver o controlo do leste de Alepo, onde há quase 300 mil civis encurralados e sem acesso a bens de primeira necessidade.

No comunicado, o porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, disse ontem que “os Estados Unidos vão suspender a participação nos canais bilaterais com a Rússia que foram criados para sustentar a cessação de hostilidades”, sublinhando que “infelizmente a Rússia falhou em cumprir os seus próprios compromissos e foi igualmente relutante ou incapaz de garantir a adesão do regime sírio aos acordos com os quais Moscovo se comprometeu”. Em vez disso, acusam os EUA no mesmo documento, “a Rússia e o regime sírio escolheram seguir um curso militar”, o que justifica a decisão “que não foi tomada de ânimo leve”.

Kirby acusa as tropas de Moscovo e do Presidente sírio, Bashar al-Assad, de estarem “a atacar infraestruturas críticas como hospitais e de impedirem a chegada de ajuda humanitária aos civis em necessidade dela, incluindo através do ataque contra uma equipa de ajuda a 19 de setembro”.

Washington continua a responsabilizar os dois Governos pelo ataque desse dia contra uma equipa do Crescente Vermelho Sírio que, em parceria com a ONU, se preparava para distribuir comida, medicamentos e roupa de inverno no leste de Alepo. A Rússia continua a desmentir qualquer envolvimento nesse ataque, dizendo que o incidente foi causado por um incêndio no terreno e não por um bombardeamento aéreo.

“Lamentamos a decisão de Washington, que simplesmente não cumpriu a condição-chave do acordo para melhorar as condições humanitárias ao redor de Alepo”, respondeu Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo. “Após falhar em cumprir o acordo que eles próprios delinearam, [os norte-americanos] estão a tentar pôr a responsabilidade sobre outros”, acrescentou a representante, sublinhando que os EUA falharam em distinguir os grupos de oposição moderada a apoiar dos movimentos jiadistas instalados na Síria e que Washington e Moscovo iam combater em conjunto se o cessar-fogo fosse respeitado.

Era esperado que as delegações dos dois países se encontrassem esta semana em Genebra para começar a coordenar a campanha aérea conjunta e inédita contra grupos como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e a antiga Frente al-Nusra, mas de acordo com a BBC a equipa norte-americana já recebeu instruções para regressar a casa. Segundo Kirby, será ainda retirado do terreno o pessoal que “tinha sido destacado [para a Síria] em antecipação da possível ativação do Centro Conjunto de Implementação” da estratégia de combate aos jiadistas. De acordo com o canal britânico, os dois lados vão manter-se em contacto sobre operações anti-terrorismo na Síria para “evitar confrontos desnecessários”.