Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Presidente da Colômbia cria grupo de contacto para tentar salvar acordo com as FARC

  • 333

ALEJANDRO ERNESTO/ EPA

Juan Manuel Santos quer alterar os termos do acordo em negociações com a oposição e com os líderes rebeldes para alterar e assim tentar resgatar o processo que vinha pôr fim a 52 anos de conflito e que foi chumbado por uma reduzida maioria dos colombianos no referendo do passado domingo

O Presidente da Colômbia nomeou uma equipa de altos funcionários do seu Governo para negociar com a oposição alterações ao acordo de paz alcançado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que uma curta maioria da população do país chumbou em referendo no domingo.

O anúncio de Juan Manuel Santos foi feito na segunda-feira à noite após um encontro com os líderes dos partidos com assento parlamentar numa derradeira tentativa de salvar o acordo de paz. O seu antecessor, Álvaro Uribe, que liderou a campanha pelo “não” à paz, não esteve presente nessa reunião, fazendo-se representar por três negociadores que irão agora até Havana tentar renegociar os termos do acordo.

O ex-Presidente e líder do novo Partido de Centro Democrático quer que o acordo preveja sentenças de prisão para os rebeldes que cometeram crimes graves e que impeça os líderes das FARC de participarem no processo político colombiano.

O acordo de paz tinha sido ratificado na semana passada pelo Governo de Santos e pelo chefe do grupo rebelde após quase quatro anos de negociações mediadas por Cuba. Para que pudesse ser implementado, era necessário que uma maioria da população colombiana o aprovasse numa consulta popular convocada para o passado domingo.

As sondagens de intenção de voto previam uma forte vitória do acordo entre a população, mas para surpresa de muitos 50,2% da população que foi às urnas rejeitou o documento — uma diferença de cerca de 54 mil eleitores de um total de quase 13 milhões de votos depositados. A participação eleitoral foi reduzida, com menos de 38% dos eleitores registados a mobilizarem-se no país.

Na semana passada, Juan Manuel Santos tinha sublinhado à nação que não havia “Plano B” para pôr fim ao conflito de 52 anos que provocou cerca de 260 mil mortos. Desde o anúncio dos resultados do referendo, tanto o Presidente como a liderança das FARC reafirmaram o seu empenho em manter as negociações vivas para garantir que um acordo de paz é aplicado.

“Não vou desistir, vou continuar a procurar a paz até ao último minuto do meu mandato”, declarou num discurso aos colombianos no domingo à noite. A mesma ideia foi transmitida por Timoelon Jimenez, nome de guerra Timochenko, o líder das FARC, que no mesmo dia disse que os rebeldes vão continuar a respeitar o acordo bilateral de cessar-fogo alcançado com o Governo colombiano.

Os dois homens integram a lista de nomeados para o Prémio Nobel da Paz, que será atribuído na próxima sexta-feira. Também no rescaldo da surpreendente consulta popular, Humberto de la Calle, que lidera a equipa de negociações do Governo, disse estar disposto a renunciar ao cargo assumindo “total responsabilidade pelos erros nas negociações”. Santos rejeitou essa hipótese, informando-o de que deve regressar à capital cubana para retomar o trabalho com os líderes das FARC e renegociar os termos do acordo.

O referendo de domingo deixa a descoberto profundas cisões dentro da Colômbia: em Choco, uma das províncias mais atingidas pelo conflito de décadas, 80% dos eleitores votaram a favor do acordo, a par de 56% dos habitantes de Bogotá, a capital. Pelo contrário, mais de 71% de votos foram depositados contra o processo de paz na província de Casanare, cujos agricultores e proprietários de terras acusam as FARC de extorsão contínua.

A maioria daqueles que chumbaram o acordo defende que o documento isenta os rebeldes de responsabilidade por homicídios e outros crimes. Sob esse acordo chumbado estava prevista a criação de tribunais especiais para julgar aqueles que cometeram crimes durante o conflito civil e penas mais leves para os que confessassem esses crimes. A população chumbou ainda a alínea que previa o pagamento de salários mensais a ex-rebeldes das FARC e ajuda financeira aos que quisessem abrir novas empresas.

A BBC aponta que os colombianos que rejeitaram o acordo veem nisso e na atribuição de dez assentos parlamentares ao grupo rebelde “recompensas” pelo comportamento criminoso dos rebeldes, em contraste com as dificuldades financeiras que os “cidadãos honestos” enfrentam.