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Marianne, em português

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Um ano antes de ser nomeada comissária, Marianne Thyssen pedalou por Portugal, do Norte a Lisboa. “Foi uma experiência extraordinária”, garante

DR

A comissária europeia do Emprego e dos Assuntos Sociais vem a Portugal na próxima quinta-feira, em visita de trabalho. Em lazer já perdeu a conta às viagens que fez ao país, quase sempre a pedalar. A primeira, em 1977 (de carro) levou-a a aprender português na universidade

Marianne Thyssen aterra quinta-feira em Portugal para um dia de encontros oficiais, nas suas funções de comissária europeia do Emprego, Assuntos Sociais, Competências e Mobilidade Laboral. Será uma visita diferente do habitual. Porque o habitual, para ela, faz-se de bicicleta. A jurista belga, 60 anos, conhece o país de norte a sul, e ilhas, quase sempre a pedalar. “Viana do Castelo, Guimarães, Porto, o magnífico Vale do Douro, Coimbra, Batalha – de onde é o meu motorista -, Nazaré, Évora, Lisboa, Sintra, Estoril, Algarve. E também os Açores, o Pico, Faial, S. Miguel…”. Tudo somado já passou por cá quinze semanas desde 1977.

A experiência da primeira viagem ditou os sucessivos regressos. Tinha 21 anos. O carro em que seguia com o marido avariou-se na zona de Viseu. Nesse dia conheceu a hospitalidade portuguesa: foram ajudados e acolhidos por uma família numa quinta ali perto. “Foi a melhor recordação que trouxe”. Ao longo dos anos juntou outras ao álbum turístico. O bom vinho, sardinhas frescas, o fado, a saudade (dita assim em português), os pastéis de nata e “a visão ampla que têm do mundo”. Ainda se sente, diz, o espírito dos descobridores.

De regresso à Flandres, inscreveu-se em aulas de português, em horário pós-laboral, na Universidade de Lovaina, onde se licenciou em Direito. Os três anos de aprendizagem levaram a novas paixões: Fernando Pessoa e Saramago, apesar de continuar a lê-los na versão traduzida. Não ficou a falar fluentemente mas foi suficiente para agradecer em português a Cavaco Silva um discurso que proferiu. E de terminar no mesmo idioma a entrevista que concedeu ao Expresso, em Bruxelas, no fim de Setembro. “É uma bela língua, a língua de Camões”, disse a sorrir.

Em 2013, um ano antes de se tornar comissária europeia, pedalou mil quilómetros desde o norte do país até Lisboa, por caminhos secundários, pequenas aldeias, pelos altos e baixos do Douro – “as subidas foram duras”. A crise económica estava no auge. Em cada paragem aproveitou para sentir o estado de espírito da população (“calma, faladora”). Sentiu-a cansada, mas resistente, resiliente, combativa. “Os portugueses têm esse espírito de superar tudo. Não consigo explicar como o fazem mas fazem sempre. E agora não vai ser diferente.”

Na quinta-feira as conversas serão outras e com outros intervenientes, os que decidem. Pela manhã, a comissária reúne-se, na Assembleia da República, com os deputados da Comissão de Assuntos Europeus e da Comissão de Trabalho e Segurança Social. Acompanhada pelos Secretários de Estado do Emprego, da Cidadania e Igualdade, do Desenvolvimento e Coesão, e pelo Alto Comissariado para as Migrações, vai depois até à Tapada das Mercês, perto de Sintra – se o dia estiver limpo, vê ao longe o Palácio da Pena – conhecer o Projeto CIAPA, de promoção da inclusão social e do sucesso escolar - apoiado pelo Fundo Social Europeu.

Segue-se um almoço (de trabalho) com o ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e com os parceiros sociais (CIP, CAP, CCP, CTP, CGTP e UGT) e depois duas horas de Conferência de Alto Nível dedicada ao Pilar Europeu dos Direitos Sociais, junto à Gulbenkian. “Infelizmente a comissária não vai tempo para qualquer visita fora do programa oficial”, explica a assessora do gabinete, Natasja Bohez. “Mas o simples facto de estar em Lisboa já a faz feliz”.