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Há razões para prestar atenção ao debate presidencial desta noite nos EUA

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O republicano Mike Pence e o democrata Tim Kaine vão estar frente a frente esta noite

MANDEL NGAN, SAUL LOEB / AFP / Getty Images

Esta terça-feira, pelas 2h da manhã em Portugal, tem lugar o único debate televisivo entre os candidatos à vice-presidência antes das eleições de 8 de novembro. O democrata Tim Kaine parte com um avanço sobre o republicano Mike Pence, com base nas mais recentes sondagens nacionais, favoráveis a Hillary Clinton no rescaldo do primeiro frente a frente com Donald Trump há uma semana. Quase metade dos norte-americanos não sabe quem é um ou outro. Mas um deles pode vir a tornar-se o homem mais poderoso e influente do mundo

É improvável que o debate desta noite entre Tim Kaine e Mike Pence atraia o recorde de 84 milhões espectadores registado na semana passada,quando Hillary Clinton e Donald Trump se enfrentaram pela primeira vez em direto na televisão, a um mês e meio das eleições presidenciais de 8 de novembro. Num artigo publicado ontem pela “Slate”, a revista referia que “ninguém antecipa o mesmo nível de interesse” no debate marcado para as 21h locais desta terça-feira (2h da manhã em Lisboa), dizendo que a grande questão é se o frente a frente vai “importar pouco ou nada” para as mais disputadas eleições da história moderna dos Estados Unidos.

No mesmo artigo, era contudo sublinhado que “um dos dois homens em palco vai desempenhar um papel crucial na próxima administração e estar a um batimento cardíaco de distância da presidência num Governo que terá como Presidente um dos dois mais velhos candidatos a primeiro mandato da história”. Clinton terá 69 anos quando os americanos forem às urnas, após celebrar o seu aniversário a 26 de outubro. Trump completou 70 anos em junho. (Para efeitos de comparação, Barack Obama tinha 47 anos quando chegou à presidência há oito anos.)

Esta noite será a primeira e última vez que os norte-americanos terão a oportunidade de ouvir os dois candidatos à vice-presidência, a pouco mais de um mês da ida às urnas e numa altura em que a vasta maioria da população dos EUA não sabe quem eles são. De acordo com uma sondagem da ABC News divulgada há dois dias, 41% dos norte-americanos não sabem que é Pence o candidato do Partido Republicano que acompanha Trump no boletim e 46% deles nunca ouviram falar de Kaine, o homem que Clinton escolheu para o cargo.

Não é só a idade que conta, sobretudo num ano eleitoral em que um dos candidatos à presidência não tem qualquer experiência política, tem levado a cabo uma campanha sustentada em ataques xenófobos, racistas e sexistas e que se apresenta como um empresário de sucesso que quer gerir os EUA como uma das suas empresas, ignorando os factos desenterrados pelos media sobre consecutivos falhanços empresariais e fraudes várias.

“Na verdade vai ser o tipo de debate que eu não teria problemas de deixar os meus filhos ver”, referia ontem John J. Pitney Jr., professor de Política Americana na Faculdade Claremont McKenna, ao “Los Angeles Daily News“. “Teremos dois homens qualificados a discutir diferenças honestas em vários temas. Que conceito incrível”, acrescentou em tom jocoso. “A qualidade dos candidatos à vice-presidência é o único elemento tranquilizador de toda esta eleição.”

Clinton escolheu como parceiro de corrida o senador de 58 anos que foi missionário nas Honduras

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Ethan Miller

O que esperar?

Em última instância, os dois homens têm a singela tarefa de marcar pontos para o candidato à presidência e, nessa corrida, Kaine parte com um avanço. Depois do debate da semana passada que colocou Hillary e Donald frente a frente, a mais recente sondagem nacional divulgada esta terça-feira pela CNN aponta um avanço de cinco pontos percentuais para a ex-secretária de Estado, que no braço-de-ferro com o magnata do imobiliário saiu a ganhar sobretudo entre os independentes.

Neste momento, Clinton angaria um total de 47% das intenções de voto contra 42% para Trump, seguidos pelo libertário Gary Johnson com 7% e da candidata dos Verdes, Jill Stein, com 2%. Entre os eleitores do sexo masculino, tendencialmente mais inclinados a votar em Trump, a democrata passou de um défice de 22 pontos percentuais no início de setembro para apenas 5% a distanciá-la do rival. E entre os eleitores registados como independentes alcançou os ganhos mais estrondosos no rescaldo do primeiro debate, alterando a balança há um mês ligeiramente favorável a Trump para 44% de apoios entre essa faixa do eleitorado contra 37% para o republicano.

A grande questão antes do debate desta noite é até que ponto é que os mandatários Kaine e Pence vão conseguir defender os aspirantes à presidência e escapar ilesos às controvérsias que têm assolado as duas campanhas. Tal reveste-se de redobrada importância considerando que, entre o primeiro debate presidencial e o frente a frente desta noite, o “New York Times” divulgou uma declaração de rendimentos de Trump que parece indicar que o empresário fugiu aos impostos durante mais de duas décadas — o mesmo homem que se tornou no primeiro candidato à presidência dos EUA em 40 anos a recusar-se a divulgar as suas mais recentes declarações de IRS em nome da transparência.

Este, a par da alegada violação do embargo norte-americano a Cuba pela empresa do candidato republicano, deverão ser temas quentes do debate desta noite. Estes são os homens que estarão sob os holofotes na Universidade Longwood, em Farmville, Virginia, durante uma hora e meia sem intervalos.

De um lado Tim Kaine, que vai debater “em casa”, no estado que governou entre 2006 e 2010 e que atualmente representa no Senado — uma escolha que apanhou alguns de surpresa mas que muito apontam como o Ás de Clinton junto do eleitorado latino-americano. Enquanto missionário nas Honduras em 1980, tornou-se fluente em espanhol, o que a candidata democrata viu ser um bom extra na hora de escolher o seu parceiro de corrida. Do outro, Mike Pence, governador do Indiana desde 2013 que, a julgar pela vontade de Trump, poderá vir a ser o verdadeiro homem forte da próxima administração norte-americana se vencerem juntos as eleições.

Mike Pence tem 57 anos e é governador do Indiana desde 2013

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O homem do (potencial) Presidente

Num artigo de finais de junho, sobre “Como Donald Trump escolheu o seu parceiro de corrida”, a revista do “New York Times” avançou informações de bastidores sobre o processo que levou a que Pence esteja esta noite na Virginia a representar o candidato republicano à presidência.

“Num dia de maio passado, o filho mais velho de Donald Trump, Donald Trump Jr., pediu ajuda a um conselheiro de John Kasich, governador do Ohio, que tinha acabado de deixar a corrida presidencial havia poucas semanas”, começa o artigo. “Enquanto candidato, Kaine tinha declarado em março que Trump ‘não está preparado para ser Presidente dos Estados Unidos’ e, no mês seguinte, tinha tomado a inusitada decisão de se coordenar com o senador seu rival Ted Cruz num esforço para negar a Trump a nomeação [republicana]. Mas de acordo com o conselheiro de Kasich (que falou apenas na condição de não ser nomeado), Donald Jr. queria ainda assim fazer-lhe uma oferta: Teria algum interesse em ser o mais poderoso vice-presidente da História? Quando o conselheiro de Kasich perguntou como é que isso iria acontecer, Donald Jr. explicou que o vice-presidente do seu pai estará a cargo de políticas domésticas e das relações externas. ‘Então Trump ficará a cargo de quê?’, questionou o conselheiro. ‘Making America great again’, respondeu casualmente”, recorrendo ao slogan de campanha do pai.

Numa entrevista ao “Huffington Post” em maio, o então chefe de campanha de Trump, Paul Manafort (que se demitiu em agosto), já tinha dado a entender que, se for eleito, o empresário irá transferir muitos dos poderes do Presidente para o seu número dois. “Ele precisa de uma pessoa experiente que faça parte do trabalho que ele não quer fazer. [Trump] vê-se mais como o diretor do conselho de administração, mais até do que como CEO, quanto mais COO.”

Esse número dois é Mike Pence, um republicano de gema que é o candidato mais conservador dos últimos 50 anos — segundo a própria União Conservadora Americana, o mais antigo e maior grupo de lobby conservador dos Estados Unidos. Se Trump vencer em novembro, Pence deverá passar de “celebridade republicana de segunda categoria”, como já se autointitulou, a um dos homens mais poderosos do mundo. “Quem é que quer saber de vice-presidentes, certo?”, perguntava ontem Andrew Malcolm, colunista político do conglomerado de media McClatchy. “Tudo o que eles fazem é ir a funerais estrangeiros que não envolvam israelitas ou sauditas. Mas espera. Desta vez é diferente. E pode mudar a nossa História iminente.”

Pence poderá estar ao leme dessa mudança e só por isso já vale a pena sintonizar um canal ou streaming em direto nas redes sociais para assistir ao frente a frente com Kaine.