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As Filipinas de Rodrigo Duterte, onde os agentes da polícia dizem ser “anjos” vingadores

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Duterte é acusado por ONG de ordenar e liderar matança de alegados criminosos e opositores enquanto governador de Davao durante 22 anos. Desde que tomou posse como Presidente em julho, mais de 3600 pessoas já foram executadas por esquadrões da morte

NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES

“The Guardian” avança em exclusivo que os esquadrões da morte que têm executado a “limpeza” de alegados traficantes e consumidores de droga desde que Duterte chegou ao poder há três meses são, na sua maioria, encabeçados por equipas secretas da polícia. Pelo menos 3600 pessoas já foram mortas no país desde que Duterte tomou posse a 1 de julho

“Não é que sejamos maus polícias ou maus indivíduos. Somos apenas uma ferramenta, somos meros anjos a quem Deus deu talento para mandar estas almas más para o céu e limpá-las.”

Assim declara um agente da polícia nacional filipina (PNP) em entrevista ao diário britânico “The Guardian” explicando o papel que desempenhou no homicídio de 87 pessoas nos últimos três meses. O agente é um de centenas de membros das forças de segurança do arquipélago que estão a participar nas operações de “limpeza” de alegados traficantes e consumidores de droga ordenadas pelo novo Presidente das Filipinas.

Para o homem, as execuções de milhares de pessoas suspeitas de envolvimento em redes de tráfico não surgem pelo mero prazer de matar ou por ele e os seus colegas serem “maníacos homicidas“. “Estamos aqui como anjos. Como São Miguel e São Gabriel”, defende sob anonimato. É a primeira vez que um membro das forças de segurança admite envolvimento direto na matança de civis.

De acordo com o jornal britânico numa reportagem exclusiva publicada esta terça-feira, pelo menos 3600 pessoas já foram assassinadas por esquadrões da morte nas Filipinas desde 1 de julho deste ano, quando Rodrigo Duterte tomou posse como Presidente após uma vitória eleitoral estrondosa, fundada na promessa de acabar com o tráfico e consumo de droga no país. Mais de metade dos homicídios foram realizados por vigilantes não-identificados, mas segundo o jornal britânico até esses estão a ser secretamente liderados por membros da PNP.

TED ALJIBE / AFP / GETTY IMAGES

A matança de civis em execuções extrajudiciais tem concentrado a atenção da comunidade internacional: há duas semanas, a União Europeia veio engrossar a lista de organizações e países que têm manifestado preocupações com o ambiente de total impunidade, sendo por isso alvo de insultos da boca de Duterte. O mesmo já tinha acontecido com Barack Obama, levando-o a cancelar uma reunião com o homólogo filipino na cimeira da ASEAN, no início de setembro, e também com a ONU, gerando uma controvérsia que forçou o ministro filipino dos Negócios Estrangeiros a vir garantir que o país não vai abandonar a organização.

Ao longo dos últimos três meses, várias organizações e Governos têm alertado para o “clima de ilegalidade e medo que tomou conta das Filipinas” desde que Duterte chegou ao poder, incentivando cidadãos comuns a pegarem em armas para cumprirem a missão de acabar com o tráfico de droga no país. Na semana passada, depois de citar Adolf Hitler e o Holocausto, o novo Presidente voltou a prometer matar três milhões de toxicodependentes. “Se a Alemanha tinha Hitler, as Filipinas têm...”, disse apontado para si próprio. “Hitler massacrou três milhões de judeus. Existem três milhões de toxicodependentes [nas Filipinas]. Terei todo o gosto em matá-los a todos.” (De acordo com historiadores dedicados ao estudo do Holocausto, o regime nazi e os seus colaboradores mataram não três mas seis milhões de judeus antes e durante a II Guerra Mundial.)

Dias antes de mais esse discurso incendiário de Duterte, um confesso assassino a soldo declarou a uma comissão de inquérito do Senado que, enquanto governador de Davao durante 22 anos, o novo Presidente filipino ordenou a matança de milhares de criminosos e opositores e que, num caso em particular, foi ele próprio quem “acabou” com um funcionário do Ministério da Justiça com uma metralhadora.

Às rusgas oficiais junta-se a atuação dos esquadrões da morte patrocinados por Duterte

Às rusgas oficiais junta-se a atuação dos esquadrões da morte patrocinados por Duterte

Dondi Tawatao / Getty Images

A descrição do ato macabro veio reforçar as suspeitas de que o líder máximo das Filipinas está a patrocinar a atual onda de homicídios em curso no país. Suspeitas que, avança hoje “The Guardian”, são agora comprovadas pelos relatos do agente da polícia que explicou ao jornal britânico como ele e a sua equipa de “operações especiais” já “neutralizou” dezenas de pessoas nos últimos três meses, a par das outras centenas de indesejados que outras equipas policiais têm estado a “limpar” das ruas.

As suas declarações parecem confirmar que a campanha não só é patrocinada como foi ordenada pelo Governo de Duterte, ainda que secretamente. “Eles criaram-nos”, diz o agente sobre os esquadrões da morte. “O termo é ‘libertar o monstro da jaula’ para neutralizar estes criminosos. Instalámos placards para que os media e aqueles que investigam [as mortes] redirecionem as suas investigações”, explica. “Porque é que devemos investigar este homem, ele é um traficante de droga, ele é um violador, este não interessa, vou só investigar os outros”, acrescenta como exemplo do que a polícia quer que os jornalistas pensem. “É bom que isto lhe tenha acontecido.”