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Internacional

Referendo na Hungria: 58% ficaram em casa, mas Orbán não vacila

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Viktor Orban realçou a importância do “não”, minimizando a importância dos valores da participação no referendo

LASZLO BALOGH / Reuters

O eleitorado húngaro chumbou, em referendo, as quotas de refugiados, mas foi considerado inválido. Apesar de 98,3% dos votantes terem votado a favor da posição do Governo, apenas 42% dos eleitores foram às urnas, tornando o referendo inválido. O primeiro-ministro promete, contudo, agir em consonância com o eleitorado

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, não conseguiu convencer a maioria da população a votar. Apenas 42% do eleitorado húngaro se dirigiu às urnas no passado domingo, mas uma maioria estrondosa daqueles que o fizeram (98,3%) votou a favor de fechar as portas do país aos milhares de refugiados que ali têm vindo a procurar abrigo. O governante e o seu partido Fidesz (centro-direita) consideram o resultado do referendo “excecional”, graças ao alto número de votos em seu favor.

Vários Estados da Europa de Leste opõem-se às leis da União Europeia, que ditam quotas de refugiados para todos os países membros. Orbán procurou, com o referendo, criar na Europa uma revolta cultural contra o acolhimento aos refugiados. A entrada de centenas de milhares de pessoas tem abalado o continente no último ano.

De modo a impedir a entrada dos imigrantes que fogem da guerra e da devastação no Médio Oriente e procuram asilo no seu país, Orbán montou nas suas fronteiras uma cerca de arame farpado, guardada por militares e membros da polícia húngara. Justificou estas medidas dizendo que o alto número de muçulmanos seria um risco para a Hungria e as suas raízes cristãs e que as políticas de imigração deveriam ser um assunto doméstico.

O referendo e as suas consequências

“A Europa deve ditar a instalação obrigatória de cidadãos não-húngaros na Hungria mesmo sem acordo da Assembleia Nacional?” foi a pergunta levada a referendo, e à qual 98,3% dos votantes responderam “não”. Para a consulta ser legalmente vinculativa, no entanto, era necessário que pelo menos 50% dos eleitores votassem. Assim, o referendo foi inválido, com apenas 42% de adesão.

Depois de ele próprio ter votado, o primeiro-ministro realçou a importância do “não”, minimizando a importância dos valores da participação. Orbán afirma que os resultados legitimam a sua ida a Bruxelas na próxima semana, para “garantir que não podemos ser forçados a aceitar na Hungria pessoas com quem não queremos viver”. Orbán expressa orgulho em ter sido o primeiro governante a realizar tal referendo.

Partidos da oposição interpretam a alta abstenção como um fiasco, uma afirmação do povo contra o Fidesz e as suas medidas, que os adversários de Orbán consideram ser de extrema-direita. Apelam, por isso, à demissão do primeiro-ministro. O líder húngaro afirmou que iria promover uma revisão da Constituição para incluir o resultado do plebiscito na lei.

A tentativa de Budapeste de fazer frente a Bruxelas e às suas políticas de imigração foi enfraquecida pelos resultados do referendo, pensa Csaba Tóth, diretor de estratégia do Republikon Institute em Budapeste, “Foi uma desilusão para ele [Orbán], mas não faz com que não considere os resultados uma vitória. Há mais de três milhões de pessoas a votar em seu favor. Mas as expectativas eram mais elevadas. O distorcido cenário dos media e toda a sua publicidade só foram capazes de mobilizar os votantes do Fidesz e do Jobbik”, um partido de oposição de extrema-direita.

Internacionalmente o referendo húngaro é visto como um questionar do futuro da democracia liberal na União Europeia e do papel do Estado-nação, não apenas das quotas de imigração.