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O homem que quis demasiado

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SUSANA VERA / Reuters

Pedro Sánchez, o miúdo que passava horas a ouvir, fascinado, os discursos do ex-presidente chileno Salvador Allende, num gira-discos que havia lá por casa. O adolescente que começou a interessar-se por política inspirado pelos seus pais, “socialistas de coração”, e avós, “que morreram sem saber ler nem escrever”. E o homem que quis governar Espanha quando não era isso que esperavam dele. Foram dois anos e três meses difíceis. A guerra, a dele contra todos, terminou este fim de semana

Helena Bento

Jornalista

Quando foi eleito, em julho de 2014, Pedro Sánchez deveria desempenhar apenas um papel, o de secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, social-democrata). E desempenhá-lo com gosto, convencido da sua importância. Poucos esperavam dele outra coisa, sobretudo a pessoa graças à qual ele foi nomeado, Susana Díaz, presidente do governo regional da Andaluzia. Mas Sánchez, como em tudo, quis mais. Quis ser candidato à chefia do Governo espanhol. Falhou rotundamente. Falhou como nenhum outro líder do partido falhara. E isso não foi nada bonito de ver.

Num editorial publicado antes da reunião do comité federal do PSOE, no domingo, em Madrid, que terminou com a demissão de Pedro Sánchez, o diário espanhol “El País” acusava o ex-secretário-geral de ser “um insensato sem escrúpulos que, em vez de reconhecer o seu próprio fracasso, não hesita em destruir o partido que tem dirigido de forma tão desastrosa”. Sánchez era aí descrito como um “oportunista”, “oscilando à esquerda e à direita em função dos seus interesses pessoais, não dos seus valores ou ideologia”.

A história da vida política de Pedro Sánchez, ou pelo menos a vida política ativa, começou em 1993, quando se inscreveu no PSOE. Tinha 21 anos. Foi também com essa idade que deixou de jogar basquetebol profissional pelo Club Estudiantes de Baloncesto, na capital espanhola, embora só por graça possamos dizer que trocou o desporto pela política. Até porque a política sempre esteve lá. Numa entrevista ao “El País”, em 2015, Pedro Sánchez Pérez-Castejón, ou “Pedrín”, como lhe chamam os amigos (confessou-o a uma conhecida jornalista e apresentadora espanhola) contava que, em criança, passava horas fascinado a ouvir os discursos de Salvador Allende, no gira-discos dos pais. “Aprendi a amar o socialismo graças a Allende”, dizia. Foi o ex-presidente chileno quem o fez, assim como os seus avós, “que morreram sem saber ler nem escrever”, tomar consciência “da enorme injustiça de que tinham sido alvo gerações e gerações durante o franquismo”. Isso quando tinha apenas 12 anos.

ANDREA COMAS / Reuters

De Salvador Allende recordava, aliás, parte do seu último discurso no Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, em 1973, que sabe de cor: “Trabalhadores da minha pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens superaram estes momentos amargos e cinzentos em que a traição pretende impor-se. Sigam o vosso caminho, sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passa o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Estas são as minhas últimas palavras e tenho a certeza de que o meu sacrifício não será em vão, tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que irá castigar a deslealdade, a cobardia e a traição.”

De Willy Brandt a Manuel Azaña

Os pais de Pedro Sánchez, ele empresário e ela funcionária da Segurança Social, ambos “socialistas de coração” (e de militância, no caso do pai) também tiveram um papel crucial no meio disto tudo. À mesa, falava-se sobre socialismo e sobre as condições em que as pessoas viviam. Mais tarde, a leitura de obras como a autobiografia de Willy Brandt, “gigante do socialismo alemão”, que diz ter “devorado”, e a dedicação ao estudo do percurso de figuras políticas como Manuel Azaña Díaz, ex-presidente de Espanha nos anos 30 (“li todos os seus discursos e diários”), José Joaquín Prieto Prieto, antigo presidente chileno, e Félipe González, ex-líder do PSOE e ex-primeiro-ministro entre 1982 e 1996, foram fundamentais para consolidar ideias e posições. Na mesma entrevista ao “El País”, Sánchez contava que à cabeceira da cama tinha, sobretudo, livros de história e biografias políticas. E acrescentava: “Se tiver que me definir, defino-me como socialista e como felipista”.

Foi em 2014 que decidiu-se candidatar-se à liderança do PSOE. Para trás, ficava uma breve experiência no departamento de Relações Internacionais das Nações Unidas e no gabinete do Alto Representante da ONU na Bósnia, e outra como assessor no Parlamento Europeu, que durou dois anos. Ficava também um mandato como vereador em Madrid (2004-2009) e dois como deputado (2009-2011 e desde 2013). Poucos esperavam que se chegasse à frente para assumir as rédeas do partido e ainda menos acreditavam que ele fosse, efetivamente, capaz de o fazer, apesar do apoio de Susana Díaz, que lhe estendeu a mão apenas com o objetivo de bater o basco Eduardo Madina, tido como mais à esquerda e pouco centrista pelas bases do partido. Poucos o conheciam e foi por isso que o ouvimos dizer muitas vezes durante a corrida ao cargo: “Eu sou um de vocês”.

“Enquanto a direção do partido o ignorava e promovia, na campanha para as europeias, candidatos mais sólidos como aspirantes a liderar o governo, como Carme Chacón, Patxi López ou Eduardo Madina, Sánchez percorreu Espanha de lés a lés, num périplo de 80 mil quilómetros. Visitou aldeias e foi às mais modestas agremiações socialistas, conduzindo o seu automóvel e dormindo em casa de militantes de base, onde tomava banho e pequeno-almoço, forjou uma fama de homem educado, correto, moderado e excelente orador”, lê-se na edição de 19 de julho de 2014 do jornal Expresso.

Pedro Sánchez, que se apresentara como um candidato “humilde”, disfarçando a falta de traquejo político (pelo menos em comparação com os outros dois candidatos) com manifestações de grande preocupação em relação ao futuro do partido e do país e dos jovens, ele que também já fora “afetado pelo desemprego jovem”, ganhou a corrida a secretário-geral do PSOE, com 49% dos votos, sucedendo a Alfredo Pérez Rubalcaba. Foi, aliás, a demissão deste último, e o ambiente de derrota que então reinava no partido, devido ao fracasso nas eleições europeias, que permitiram a Sánchez brilhar, explica o politólogo espanhol Fernando Vallespín, em entrevista ao Expresso.

Um estado de graça efémero

Esse estado de graça haveria, contudo, de durar pouco. Apenas dois meses depois de ser eleito, o ex-secretário-geral foi criticado por dirigentes do PSOE, devido aos seus ataques “ao populismo” do Podemos de Pablo Iglesias, com quem se recusava a negociar. Os primeiros problemas com Susana Díaz também não tardariam muito a surgir. Em outubro de 2014, a presidente andaluza confessava ter algumas “incompatibilidades” com Sánchez. Por exemplo, em relação à proposta de celebração de funerais de Estado para as vítimas de violência doméstica, apresentada pelo ex-secretário-geral. A participação de Sánchez em programas de entretenimento também foi, em momento específicos, alvo de duras críticas por parte de históricos dirigentes do partido.

Mais tarde, os seus bloqueios constantes à investidura de Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP), como presidente do governo espanhol (ficou célebre a sua frase “não é não”, em agosto, já depois de falhadas duas oportunidades para eleger um novo governo), fizeram com que os seus inimigos dentro do partido perdessem a vergonha e lhe declarassem guerra. “Sánchez começou a fazer as coisas à sua maneira, a tentar afastar os seus inimigos e a não dar ouvidos a ninguém”, dando início a uma luta que nada teve de ideológico, uma luta apenas pelo poder, diz Óscar Abou-Kassem, editor da revista espanhola “Cambio16”, também em entrevista ao Expresso.

De derrota em derrota

Na primeira ida dos espanhóis às urnas com Sánchez à frente dos socialistas, a 20 de dezembro de 2015, o PSOE obteve os seus piores resultados de sempre: 22% dos votos e 90 deputados (menos 20 do que tinha). Face à recusa do vencedor das legislativas, Mariano Rajoy, em tentar a investidura (rejeitou mesmo o convite do rei), Sánchez tentou forjar um pacto alternativo com os emergentes Podemos e Cidadãos (centro liberal), terceiro e quarto classificados. Contudo, a incompatibilidade mútua entre estes dois partidos ditou o fracasso da sua investidura.

Pablo Blazquez Dominguez / Getty Images

Sem Governo, em 26 de junho de 2016, os espanhóis voltaram relutantemente às urnas. Os resultados do PSOE foram ainda piores: 22,63%, mas 85 deputados. Rajoy, desta vez, apresentou-se ao Congresso dos Deputados, mas não conseguiu votos suficientes para ser reconduzido como primeiro-ministro. O prazo para formar o novo Executivo corre até 31 de outubro, caso contrário haverá eleições, as terceiras, em dezembro.

Nas regionais de setembro último, os resultados dos socialistas foram igualmente desastrosos. Na Galiza, o PSOE caiu de segundo para terceiro lugar, perdendo quatro dos 18 deputados que tinha no hemiciclo regional. Ficou atrás do PP, que renovou a maioria absoluta, e ainda da lista Em Maré, patrocinada pelo Podemos. Já no País Basco, os socialistas perderam sete de 16 deputados e ficaram em quarto, a par com o PP, atrás do Partido Nacionalista Basco (PNV, nacionalista moderado e conservador), do Euskal Herria Bildu (País Basco Unido, esquerda separatista) e do Podemos. O que é que explica isto, além do rol de razões e pseudo-razões já apresentadas? Para Fernando Vallespín, o politólogo, é tudo muito claro. Na sua opinião, o PSOE de Sánchez “não soube adaptar-se ao redesenho do mapa eleitoral espanhol, tendo tentado definir a sua própria identidade num momento muito difícil para a esquerda no país”.

Este domingo, a reunião do comité federal em Madrid terminou com a demissão de Pedro Sánchez, que tinha prometido afastar-se caso não fossem aceites as suas propostas para convocar eleições primárias para o cargo de secretário-geral, a 23 de outubro, e um congresso extraordinário, a 12 e 13 de novembro. A ideia foi vista como uma manobra para impedir que os adversários internos tivessem tempo de se organizar. “Sempre achei que o PSOE tinha de dar uma alternativa, mas infelizmente não foi possível”, declarou o ex-secretário-geral, pouco tempo depois de conhecido o resultado da votação feita por braço no ar. “Para mim, foi um orgulho e apresento a minha demissão. Foi uma honra”. Pedro Sánchez quis mais, quis ser candidato à chefia do Governo quando dele esperavam que fosse apenas secretário-geral do partido, e perdeu.

Foi nomeada, entretanto, uma comissão gestora do partido, liderada por Javier Fernández, presidente das Astúrias, para dirigir o PSOE até ser convocado uma congresso em que será eleita uma nova direção. A imprensa espanhola não exclui a hipótese de Sánchez concorrer às próximas eleições primárias para líder ou para candidato a primeiro-ministro. Apesar do mau momento atual, tem grandes apoios entre a militância do PSOE. Pelo que, pelo menos por agora, convém não dar a sua morte política por definitiva.

SUSANA VERA / Reuters