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Protestos na Etiópia contra o governo resultam em dezenas de mortos

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TIKSA NEGERI/REUTERS

Confrontos entre população e forças de segurança têm sido mais ou menos frequentes nos dois últimos anos na região de Oromia. Governo de Hailemariam Desalegn, primeiro-ministro etíope, é considerado um dos mais repressivos em África

Helena Bento

Jornalista

Pelo menos 50 pessoas morreram este domingo durante um festival religioso na região de Oromia, na Etiópia, depois de as forças de segurança terem usado gás lacrimogénio e disparado tiros de aviso para dispersar um grupo de manifestantes presentes no local.

O número de mortos foi avançado por Merera Gudina, líder do Congresso Federalista Oromo (OFC, na sigla em inglês), um dos partidos na oposição. O governo, pelo contrário, escusou-se a avançar números concretos, admitindo, porém, que morreram pessoas e outras ficaram feridas.

Os manifestantes, alguns deles munidos de bandeiras da Frente de Libertação de Oromo (OLF, na sigla em inglês), grupo de rebeldes considerado terrorista pelo governo, aproveitaram a celebração deste domingo, na cidade de Bishoftu, cerca de 40 km a sul da capital, Adis Abeba, para protestar contra o governo de Hailemariam Desalegn, considerado um dos mais repressivos em África (nas últimas eleições legislativas, por exemplo, a oposição não conseguiu eleger um único deputado). “Queremos liberdade”, “queremos justiça”, gritavam.

Testemunhas contaram à Associated Press que a confusão se instalou quando as forças de segurança começaram a atirar granadas de gás lacrimogéneo contra as pessoas que assistiam à cerimónia religiosa e a disparar tiros de aviso para o ar. Várias pessoas foram vistas a ser transportadas em carrinhas para o hospital. “Devido ao caos que se instalou, morreram pessoas e as que ficaram feridas foram transportadas para o hospital”, conformou o governo etíope em comunicado citado pela AP, acrescentando que “os responsáveis irão enfrentar a justiça”.

Já em agosto, um grupo de manifestantes envolveu-se em confrontos com as autoridades, confrontos esses que se estenderam por toda a região de Oromia, chegando inclusive à capital. 104 pessoas morreram. Na altura, a Amnistia Internacional acusou as forças de segurança etíopes de terem disparado balas verdadeiras sobre os manifestantes, que saíram à rua para “exigir reformas políticas, justiça e a aplicação da lei”.

Mas nada disto é novo. Os confrontos entre a população e as autoridades têm sido mais ou menos frequentes nos dois últimos anos, desde que foi anunciado, em novembro de 2015, um projeto de expansão urbana na capital que previa a expropriação de terras habitadas pela população oromo. Desde então, morreram já dezenas de pessoas, vítimas do conflito.

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