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Não se abstém? Então demita-se. Socialistas espanhóis em confusão

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Susana Diaz e Pedro Sanchez

Getty

O PSOE e o seu líder sofrem com a confusão em que os deixou o fim do bipartidarismo no país

Luís M. Faria

em Espanha

Jornalista

Até agora, e durante muitos meses, a questão foi uma: sim ou não a Mariano Rajoy. Agora é outra: sim ou não a Pedro Sanchez. As duas estão ligadas, pois Sanchez está a ser contestado dentro do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), o partido que lidera, justamente por se recusar a permitir que Rajoy, líder do Partido Popular (PP), forme governo em acordo com outro partido. Rajoy não lhe pede um voto favorável, mas apenas a abstenção, que seria suficiente para deixar passar o governo no parlamento. Sanchez recusa. Diz que Rajoy está demasiado associado a escândalos de corrupção e às políticas de austeridade dos últimos anos, e acha preferível haver novas eleições a aceitar essa solução. De outro modo, o PSOE "abriria a porta a uma legislatura de chantagem" e colocar-se-ia "numa posição subalterna ao PP".

Acontece que as eleições gerais, a terem lugar, seriam as terceiras num ano. Houve umas em dezembro e outras em junho. O Partido Popular ganhou ambas sem maioria absoluta, tendo aumentado ligeiramente o seu resultado da segunda vez. Realizar umas terceiras só porque o líder dos socialistas não gosta do resultado parece difícil de justificar. A Espanha já está com um governo de gestão há muito tempo; entre outras matérias urgentes, há que discutir e aprovar o orçamento para o próximo ano. Ao impedir que Rajoy seja reempossado, o PSOE arrisca ficar ele próprio com uma imagem de irresponsável que afete a sua viabilidade como partido de governo.

Cientes do risco, muitos dirigentes e outras figuras de topo defendem que se deve deixar o PP governar. Uma das principais vozes nesse sentido é a de Felipe Gonzalez, o antigo primeiro-ministro. Ele tem incitado repetidamente Sanchez a acabar com o impasse, e esta semana deu uma entrevista onde acusou Sanchez de faltar à palavra, que lhe teria dado há uns meses, de se abster numa segunda votação parlamentar (a tal em que basta a um candidato a primeiro-ministro ter a maioria relativa dos deputados). Uma afirmação que Sanchez não contesta, dizendo apenas que se nega a fazer comentários sobre conversas privadas.

Gonzalez afirma que se sente traído, e a sua entrevista, com ou sem intenção ("Gonzalez apontou e os outros dispararam", notou um responsável de outro partido), acompanhou o lançamento de uma ofensiva interna contra Sanchez. Metade dos membros do Comité Federal do partido demitiram-se ontem em protesto contra Sanchez, e os apelos à sua demissão ouvem-se constantemente. Mas o secretário-geral reagiu propondo um congresso em dezembro e a convocação de umas primárias já em outubro; ou seja, dizendo que serão os militantes a resolver o diferendo, não os barões do partido.

Pedro Sanchez

Pedro Sanchez

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O pior resultado de sempre

Neste momento, entre questões sobre legitimidade - pode um órgão sem metade dos seus membros tomar decisões? - e exigências de convocação da comissão de ética e garantias, vão aparecendo indicações de candidatos alternativos estarão prestes a avançar; entre eles, a atual presidente da Junta da Andaluzia, Susana Díaz, uma figura popular no partido.

No meio da confusão, dois líderes partidários devem estar a esfregar as mãos de contentes. Um é Rajoy. Embora ele só tenha conseguido eleger 137 deputados, o PSOE teve muitos menos - 85, o pior resultado da sua história - e só com muita ilusão julgará que consegue gerar uma solução viável de governo mediante acordos com outros partidos. O exemplo português é invocado de vez em quando - no nosso país também houve eleições no final do ano passado, quando estava no governo um partido de direita - mas não serve realmente de guia. Em Portugal não existem divergências fundamentais sobre a unidade do Estado, com partidos a exigir a independência desta ou daquela região. Para os socialistas espanhóis serem governo, teriam de se entender com forças políticas extremamente problemáticas, das quais ficariam reféns. Não se vê que tipo de programa de governo estável seria possível elaborar ou cumprir nessas condições.

O outro líder partidário que deve estar satisfeito é Pablo Iglésias, do Podemos. Nascido do chamado Movimento dos Indignados, ou 15-M, que protestava contra reformas nas leis laborais e no sistema público de pensões, o Podemos roubou muito espaço ao PSOE, e gostava sem dúvida de roubar mais. Consta que a principal motivação de Sanchez ao preferir umas terceiras eleições terá a ver com a sua esperança de recuperar terreno à esquerda, com uma redução de votos do Podemos. Mas essa estratégia, que faz do eleitorado espanhol um mero instrumento da estratégia de poder de Sanchez, terá ficado definitivamente condenada ao fracasso após os desenvolvimentos desta semana.

Susana Diaz

Susana Diaz

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O partido também é dos votantes, afirma Díaz

Uma coisa é certa: o PSOE atravessa uma das maiores crises da sua história. A qual é demasiado longa para consentir leviandades. Fundado em 1879 para representar os operários espanhóis, o PSOE é o hoje segundo partido socialista mais velho da Europa, após o alemão. Em 137 anos de existência, atravessou muitas vicissitudes, incluindo décadas na clandestinidade durante a ditadura de Franco.

Com o advento da democracia, tornou-se um dos esteios fundamentais do regime. Ao vencer as eleições gerais em 1982, Gonzalez inaugurou um longo reinado (salvo seja, que em Espanha há um rei propriamente dito). Foi até 1996: catorze anos, sempre com o mesmo primeiro-ministro, e com um programa de modernização que transformou a Espanha em aspetos fundamentais. Quando em 1996 Gonzalez foi finalmente derrotado por José Maria Aznar, do Partido Popular, o seu lugar na História estava mais do que conquistado.

Embora esse lugar tenha algumas zonas negras, em especial as relacionadas com a guerra suja contra a ETA, pode dizer-se que o antigo primeiro-ministro manteve até hoje um considerável prestígio, nacional e internacional. Quando ele fala, as suas palavras continuam a ter peso. Resta saber se chegarão para impor uma estratégia diferente no seu partido. Afinal, não é só o bipartidarismo que hoje se encontra diminuído em muitos países europeus. É também o respeito pelos barões partidários. Basta ver o que aconteceu recentemente no Partido Trabalhista britânico, onde o esquerdista Jeremy Corbyn foi eleito líder contra a vontade expressa da larga maioria dos seus deputados.

Tal como no Reino Unido, o grande receio dos barões é que o voluntarismo do líder esteja a conduzir o partido a uma marginalização eleitoral sem retorno. Maus resultados obtidos em eleições regionais na Galiza e no País Basco reforçam essa ideia. A presumível candidata a líder da revolta interna (e talvez mais), Susana Díaz, já apareceu a dizer que "o PSOE não é património só dos seus militantes (...) Também o é de centenas de milhares de homens e mulheres que nos deram os seus votos".