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Washington ameaça Moscovo com suspensão total das negociações para a Síria

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KARAM AL-MASRI / AFP / GETTY IMAGES

John Kerry diz a Sergei Lavrov que a cooperação para a paz na Síria vai acabar se a Rússia não suspender o apoio às forças de Bashar al-Assad na sangrenta ofensiva contra o leste de Alepo, onde novos ataques aéreos destruíram ontem os dois maiores hospitais ainda em funcionamento

Os Estados Unidos estão a ameaçar suspender toda a cooperação com a Rússia e as conversações de paz para a Síria se Moscovo continuar a apoiar a ofensiva do regime de Bashar al-Assad contra a população do leste de Alepo.

O aviso foi feito pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry, numa reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU na quarta-feira à noite, horas depois de dois hospitais ainda em funcionamento na cidade do leste da Síria terem sido bombardeados pelas forças leais a Assad com o apoio aéreo de Moscovo.

“Os Estados Unidos estão a preparar-se para suspender todos os compromissos bilaterais EUA-Rússia para a Síria a menos que a Rússia dê imediatamente passos no sentido de parar a ofensiva contra Alepo e restaurar a cessação de hostilidades”, disse Kerry ao homólogo russo, Sergei Lavrov. Em causa estão não só as negociações de paz para a Síria, atualmente na sua 18.ª iniciativa, mas também o pacto militar alcançado entre os arquirrivais para destronar grupos jiadistas como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e a Jabhat Fateh al-Sham, antiga Frente al-Nusra.

Na reunião com os representantes dos Estados com assento permanente no Conselho de Segurança e com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, Kerry responsabilizou a Rússia pelo uso de bombas incendiárias e bombas anti-bunker contra os civis de Alepo.

Desde a retomada da ofensiva contra o leste de Alepo, que está sob controlo dos rebeldes opositores a Assad desde 2012, quase 400 civis já foram mortos, entre eles pelo menos 96 crianças segundo contas da UNICEF — numa campanha que testemunhas no terreno descrevem como a mais intensa em cinco anos e meio de guerra e “sem precedentes na História moderna”.

Neste momento, o regime sírio está a preparar-se para lançar uma ofensiva terrestre no leste de Alepo para reaver o controlo da cidade e forçar a rendição dos rebeldes. Desde a passada sexta-feira que as forças sírias estão a levar a cabo uma campanha de bombardeamentos com apoio aéreo da Rússia e de milícias libanesas e iranianas no terreno.

Quase 300 mil civis estão encurralados naquela zona de Alepo, que tem estado sob ataques quase sem trégua desde meados de julho, o que já levou à escassez de água, comida, combustível e medicamentos. Há duas semanas, entrou em vigor um cessar-fogo negociado entre os EUA e a Rússia para permitir a entrega de ajuda humanitária à população de Alepo.

Um ataque a uma equipa do Crescente Vermelho e da ONU na província com o mesmo nome levou ao colapso dessa trégua na semana passada, ao qual se seguiu a atual ofensiva das forças sírias. Mais de dois milhões de civis estão neste momento sem acesso a água canalizada e os bombardeamentos de ontem aos dois maiores hospitais do leste de Alepo reduziram ainda mais as já frágeis capacidades de assistência médica às centenas de feridos, metade deles crianças.

Depois da reunião de ontem, o Ministério da Defesa russo disse que, “sob ordens do Presidente [Vladimir Putin]”, Moscovo está “preparado para manter o trabalho conjunto com os parceiros americanos quanto à questão da Síria” bem como para “enviar especialistas para Genebra a fim de relançar as conversações [de paz]”.

Reagindo a isso, Muwaffaq Nyrabia, alto cargo da Coligação Nacional Síria, um dos movimentos de oposição a Bashar al-Assad que integram as reuniões internacionais, disse que a escalada de violência em Alepo faz com que uma potencial solução política “já não seja viável”. Os rebeldes, sublinhou ainda, “estão a considerar todas as opções para defender o povo sírio das agressões russas na Síria”.