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Internacional

Sudão está a usar armas químicas contra civis no Darfur

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ASHRAF SHAZLY / AFP / GETTY IMAGES

Acusação é feita pela Amnistia Internacional num relatório divulgado esta quinta-feira, onde a organização sublinha que há várias crianças entre as mais de 200 pessoas que já foram mortas pelas tropas sudanesas a mando do Governo desde janeiro com recurso a armas proibidas

Mais de 200 habitantes do Darfur, incluindo dezenas de crianças, morreram desde janeiro na sequência de ataques com armas químicas proibidas executados pelas tropas do Sudão a mando do Governo contra civis daquela região. A acusação é feita num novo relatório divulgado esta quinta-feira pela Amnistia Internacional.

Com base em entrevistas a mais de 200 testemunhas e na análise por especialistas de dezenas de imagens de satélite e fotografias, a organização não-governamental diz ter documentado a ocorrência de pelo menos 30 ataques com alegado recurso a armas químicas só na região de Jebel Marra entre janeiro e setembro deste ano, com os que sobrevivem aos ataques e que entram em contacto com o “fumo venenoso” a revelarem sintomas como vomitar sangue, dificuldades em respirar e a pele a apodrecer e a cair.

Numa investigação levada a cabo nos últimos oito meses, o grupo de direitos humanos apurou que Jebel Marra, uma região remota do Darfur, tem sido a mais castigada pelas forças do Sudão com “terras queimadas, violações em massa, homicídios e bombas”. Os investigadores falaram com 56 testemunhas, que citam o alegado recurso a armas químicas em pelo menos 30 ataques distintos pelas forças leais ao Presidente do Sudão, que em meados de janeiro lançou uma ofensiva contra o Exército de Libertação do Sudão.

“A escala e a brutalidade destes ataques é difícil de descrever em palavras”, diz Tirana Hassan, diretora de respostas a crises da AI. “As imagens e os vídeos que vimos no decurso da nossa investigação são verdadeiramente chocantes. Num [vídeo], uma pequena criança grita de dor antes de morrer. Muitas fotos mostram crianças pequenas cobertas de lesões e bolhas. Algumas não conseguem respirar e estão a vomitar sangue.”

Sobreviventes descreveram à Amnistia Internacional que, na sequência de bombas largadas pela Força Aérea sudanesa na região, a zona fica coberta de um fumo com cheiro pútrido e “fora do normal”. Imediatamente, os que ficam expostos a esse fumo começam a vomitar e a ter diarreias com sangue. Os olhos de alguns sobreviventes também mudaram de cor logo a seguir aos ataques, tal como a sua urina e pele, que em poucos dias pode endurecer e cair.

O Governo sudanês está em guerra contra os rebeldes do Darfur há 13 anos, um conflito que durante algum tempo angariou muita atenção mediática mas que parece ter saído dos radares após 2004, quando a comunidade internacional foi forçada a intervir na região, enviando capacetes azuis para o território, após acusações de genocídio contra o Presidente sudanês, Omar al-Bashir — que está no poder desde 1989. Hassan sublinha que os ataques que continua a ordenar contra civis revelam que “nada mudou” desde então.

“O facto de o Governo do Sudão estar agora a usar repetidamente estas armas [químicas] contra o seu próprio povo não pode simplesmente ser ignorado, exige ações”, sublinha a investigadora. “O uso suspeito de armas químicas representa não só um novo nível baixo no catálogo de crimes à luz do direito internacional pelo Exército sudanês contra civis no Darfur, mas também um novo nível de arrogância do Governo em relação à comunidade internacional.”

A Amnistia enviou ao regime de Bashir uma cópia do relatório antes da sua divulgação pública e não obteve qualquer resposta ou reação oficial.