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“Não é possível imaginar o que vemos aqui todos os dias”, diz uma enfermeira em Alepo

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Ban Ki-moon diz que “até um matadouro é mais humano” do que o leste da cidade de Alepo, atualmente sujeito à pior ofensiva do regime sírio desde o início da guerra em 2011

TAHER MOHAMMED

Os dois maiores hospitais ainda em funcionamento na cidade síria cercada pelo regime ficaram quase totalmente destruídos em novos ataques das forças de Assad, parte da ofensiva que já provocou quase 400 mortos desde sexta-feira, incluindo pelo menos 96 crianças. Medicamentos e equipamentos médicos estão a escassear, bem como comida e água. Médicos que resistem na cidade dizem que a campanha do regime “não tem precedentes na História moderna”

Os dois maiores hospitais ainda em funcionamento no leste da cidade de Alepo, que estavam a garantir serviços mínimos de assistência médica aos quase 300 mil civis sitiados pelas forças do regime de Bashar al-Assad há vários meses, ficaram quase totalmente destruídos em novos ataques aéreos na quarta-feira — parte da ofensiva renovada contra os rebeldes da oposição síria, que os médicos que resistem na cidade dizem ser uma “campanha catastrófica sem precedentes na História moderna”.

Os hospitais M2 e M10, nomes de código para esconder as suas localizações precisas na zona da cidade sob controlo dos rebeldes, foram atingidos pelas 4h da manhã locais de quarta-feira, com o M10 a ser novamente atacado por via aérea pelas 10h da manhã, avança o diário “The Guardian” citando fontes no terreno.

“Não é possível imaginar o que vemos aqui todos os dias”, diz Bara’a, uma enfermeira de um dos hospitais, que sobreviveu aos bombardeamentos, citada pelo jornal britânico. “Vemos crianças a chegar aqui aos bocados. Estamos a reunir as partes dos seus corpos para as envolver em lençois e enterrá-las. Digam ao mundo para acordar, para acordar as suas consciências. Onde estão? Porque é que as crianças da Síria estão a ser esquecidas? Ninguém está a fazer nada para colmatar este sofrimento.”

A maior ofensiva que as forças do regime já lançaram no território sírio desde o início da guerra civil há cinco anos e meio está a ser descrita por organizações não-governamentais no terreno como “sistemática e deliberada”. Ao longo da última semana, desde o colapso do cessar-fogo negociado pelos EUA e pela Rússia aliada de Assad, quase 400 pessoas já morreram e centenas ficaram feridas em bombardeamentos aéreos. O regime está agora prestes a lançar uma ofensiva no terreno para reaver o controlo do leste de Alepo, um dos últimos bastiões dos rebeldes sírios.

Segundo a UNICEF em comunicado, há pelo menos 96 crianças entre os mortos e 223 entre os feridos desde que a campanha militar contra Alepo foi retomada após sete dias de trégua. “As crianças de Alepo estão encurraladas num pesadelo real”, diz Justin Forsyth, vice-diretor da agência da ONU. “Não há palavras para descrever o sofrimento que elas estão a sentir.”

Em Nova Iorque, horas antes de o Conselho de Segurança da ONU voltar a reunir-se para discutir a proteção de funcionários médicos em países em conflito, o secretário-geral da ONU, prestes a abandonar o cargo, proferiu ontem a mais direta acusação de crimes de guerra contra a Rússia e o regime sírio.

“Aqueles que estão a usar armas cada vez mais destrutivas sabem exatamente o que estão a fazer”, declarou Ban Ki-moon, numa referência indireta ao alegado uso de armas químicas e bombas de fragmentação e incendiárias. “Eles sabem que estão a cometer crimes de guerra. Imaginem a destruição. Pessoas que perdem pernas e braços nas explosões, crianças inundadas em dor e sem qualquer alívio... Imaginem um matadouro. Isto é pior. Até um matadouro é mais humano.”

Zaher Sahloul, conselheira da Sociedade Médica Sírio-Americana, a cargo da gestão dos dois hospitais bombardeados, diz que estamos a assistir à limpeza total dos civis que resistem em Alepo. “É o extermínio de uma enorme cidade deixando as suas 85 mil crianças a morrer à fome ou em ataques com recurso a armamento moderno e também da idade média”, acusa a funcionária.

Nos ataques de quarta-feira aos hospitais, morreram dois médicos e um civil cujo coração foi perfurado por estilhaços. A unidade de cuidados intensivos do M2 ficou gravemente danificada, bem como os geradores de energia, o armazém de combustível e os tanques de água que até agora permitiam que o hospital continuasse em funcionamento.