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Abrahim é 99% filho dos seus pais

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ESPERANÇA. John Zhang, chefe da equipa do Centro de Fertilidade New Hope, sediado em Nova Iorque, segurando Abrahim, que nasceu no México e tem hoje cinco meses

d.r.

O material genético da terceira pessoa que participou no nascimento do bebé está nele presente em menos de 1%. Tratá-lo como filho de três progenitores é, segundo o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, desviar a questão do essencial

O tema não é novo mas voltou à ordem do dia esta semana quando a revista “New Scientist” contou a história de Abrahim, o bebé de cinco meses que possui material genético de três pessoas: o casal que o gerou e uma dadora. Nascido em abril, no México, foi a este país que os pais, de origem jordana, se dirigiram para que a equipa encabeçada por John Zhang, do Centro de Fertilidade New Hope, de Nova Iorque, aplicasse uma técnica inovadora de Fertilização in Vitro que os ajudaria a conceber um filho.

Há 20 anos que tentavam consegui-lo, sem sucesso, pois a mãe é portadora dos genes da síndrome de Leigh, que afeta o sistema nervoso central e que já tinha sido causa de quatro abortos e da perda de dois bebés.

Se Abrahim não é o primeiro bebé com ADN de três pessoas — recorde-se o caso da norte-americana Alana Saarinen, divulgado pela BBC, onde se afirmava a existência de 30 a 50 pessoas na mesma situação —, é pelo menos o primeiro a quem foi aplicada a técnica aperfeiçoada por Zhang. Nesta, o núcleo do ovócito da mãe é introduzido num ovócito dador de mitocôndrias saudáveis ao qual foi retirado o núcleo. Segue-se a fertilização com o esperma do marido e a recolocação do óvulo no útero da mulher. Neste caso, de cinco embriões fertilizados, só um se desenvolveu.

Bebé com três pais? Nem por isso

O facto de o material genético ter três proveniências levou inevitavelmente a que se falasse de um bebé com “três progenitores”. Ainda que, como explica Eurico Reis, do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CVPMA), esta extrapolação seja no mínimo exagerada. “99% do ADN desta criança pertence à mãe que forneceu o núcleo do ovócito e ao pai que forneceu o esperma. E menos de 1% provém da dadora. Por esta razão, utilizar a expressão 'três pais' é distorcer o problema, introduzindo um elemento de perturbação emocional e irracional que distrai e afasta as pessoas do que é essencial.”

E o essencial, para Eurico Reis, é estarmos perante um nascimento “que não se afasta do padrão de um pai e de uma mãe, tendo sim a contribuição de uma terceira pessoa” — o que atenua os problemas éticos que se possam levantar. “Não estamos, de todo, perante um monstro de sete cabeças ou perante a criação de um híbrido, como acontece com as plantas transgénicas”, explicita.

Inovação sem risco não existe

A opinião de Alexandre Quintanilha vai na mesma direção. “A contribuição genética do ADN contido nas mitocôndrias é de pouco mais de 0,05% para o genoma humano. Pode dizer-se que é pequeníssima”, afirma o fundador do Instituto de Biologia Molecular e Celular. Porém, essa pequeníssima fração pode ser transmissora de doenças graves, que afetam “uma em cada 6.500 crianças”. A técnica utilizada nestes casos “consiste em conseguir que as mitocôndrias 'doentes', que transportam ADN responsável pela doença grave sejam substituídas por mitocôndrias 'saudáveis', que provêm sempre de uma segunda mulher”, explica o médico, para quem, dada a gravidade de algumas destas doenças, “faz todo o sentido procurar e encontrar terapias inovadoras que possam vir a ter sucesso”.

“Muitos procedimentos médicos atuais não seriam prática comum se, a certa altura, não fossem testados em voluntários humanos”, reconhece, recordando que “nenhum procedimento médico tem risco zero”. Mesmo assim, este tipo de intervenção clínica foi aprovada há um ano em Inglaterra por ampla maioria.

“Considero que o nascimento desta criança deve ser motivo de celebração, mesmo que cautelosa”, remata Alexandre Quintanilha. E tanto a euforia quando a cautela são partilhadas por Eurico Reis: “Nesta situação não estamos apenas perante a eliminação de uma ou várias doenças. Estamos a permitir um nascimento, pois o normal nestes casos é acontecerem abortos ou mortes prematuras dos bebés. Por isso, considerando ser sempre necessário analisar as circunstâncias, estou de acordo com esta intervenção, pois os poucos aspetos menos positivos ou discutíveis são suplantados largamente pelo bem que daí veio.”

Em Portugal, acrescenta Eurico Reis, o CNPMA “nunca foi solicitado a pronunciar-se sobre esta matéria”. Porém, a legislação contém uma exceção que a enquadra legalmente e permite que técnicas como as que foram aplicadas a Abrahim sejam utilizadas.

O Expresso contactou o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, mas este não conseguiu responder às nossas perguntas até ao fecho desta edição.

  • O bebé nasceu no México com recurso a uma nova técnica que permite que pais que possuam mutações ao nível dos genes tenham filhos saudáveis, recorrendo a um segmento de ADN de uma dadora. Desta forma, foi possível que esta mãe, que possui síndrome de Leigh, uma doença fatal que afeta o desenvolvimento do sistema nervoso, tivesse um bebé