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A política internacional nunca foi transparente: Miguel Monjardino escreve sobre Guterres vs. Georgieva

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ENTRADA EM CENA Kristalina Georgieva é a nova candidata à ONU apoiada pelo Governo búlgaro FOTO GETTY

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A súbita entrada em cena de Kristalina Georgieva na corrida à eleição do próximo secretário-geral da ONU vem levantar dúvidas sobre o processo decorrido até agora. Miguel Monjardino analisa e opina

A política internacional está cheia de curvas. O Governo da Bulgária anunciou esta quarta-feira que tinha mudado de ideias em relação à sua candidata ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas. Kristalina Georgieva, a comissária europeia para o Orçamento e Recursos Humanos, é agora a candidata preferida por Sófia.

“Foi uma decisão difícil, mas é necessária para que o grupo da Europa de Leste possa ter o seu secretário-geral”, justificou Daniel Mitov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Bulgária. Tendo em conta a hora a que a notícia foi divulgada esta quarta-feira de de manhã, o mais provável é que a decisão final do Executivo búlgaro e dos seus aliados tenha sido tomada durante a última noite. Se foi, está de acordo com uma longa tradição europeia.

A primeira cena diplomática da literatura europeia é noturna. “Como os portões do Hades me é odioso aquele homem / que esconde uma coisa na mente, mas diz outra,” vocifera Aquiles para Ulisses numa noite dramática para os Aqueus em Troia.

O primeiro representa a transparência e a honra pessoal. O segundo é o mestre da ambiguidade, da manipulação e da negociação na defesa dos interesses políticos de Agamémnon, o líder da coligação dos Aqueus. Aquiles é um guerreiro. Ulisses é o primeiro embaixador. São aliados mas querem coisas completamente diferentes um do outro. Aquiles diz a verdade. Ulisses tem uma relação económica com a verdade. Omite coisas cruciais na sua conversa diplomática.

CONSELHO DE SEGURANÇA. Os chamados P-5 é que têm a palavra final

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ANDREW KELLY / REUTERS

Como a “Ilíada” nos mostra no Canto IX, a política internacional nunca foi uma coisa particularmente transparente. É por isso que sempre existiram diplomatas discretos, competentes, experientes e hábeis. Não é de certeza por acaso que os ministros de Negócios Estrangeiros tendem a ser monótonos. Tal como aconteceu na praia em Troia, as verdadeiras negociações nunca são públicas. Só muito raramente são transparentes.

A disputa política pelo cargo de secretário-geral da ONU mostra-nos a tensão entre o desejo de transparência por parte das opiniões públicas euro-atlânticas e a necessidade de os governos mais influentes gerirem os seus interesses. Que ONU querem realmente estes governos? Que tipo de secretário-geral lhes interessa mais? As respostas das capitais a estas perguntas são normalmente muito diferentes das que são partilhadas pelos funcionários da ONU, pessoas ou grupos das sociedades civis que se interessam pela política internacional.

António Guterres venceu de forma expressiva todas as votações realizadas até agora no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Na segunda-feira, recebeu 12 votos a favor, 2 contra e 1 sem opinião. Vuk Jeremik, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Sérvia, ficou em segundo lugar com 8 votos a favor, 6 contra e 1 sem opinião. Susana Malcorra, a mulher mais votada, ficou em 4º lugar. A diferença ao nível dos apoios entre Guterres e os outros candidatos tem sido clara e consistente ao longo de muitos meses.

E AGORA? António Guterres venceu até agora de forma expressiva

E AGORA? António Guterres venceu até agora de forma expressiva

DENIS BALISOUSE / REUTERS

A aritmética, todavia, pode não ser decisiva para o resultado final de um processo de seleção na ONU. No final de 1996, por exemplo, Boutros Ghali viu a sua recandidatura ao cargo de secretário-geral ser apoiada por 14 dos 15 membros do Conselho de Segurança. 14 contra 1. Resultado? Madeleine Albright vetou o nome de Boutros Ghali e uma Washington isolada prevaleceu. Kofi Annan foi então rapidamente escolhido para o cargo.

O que interessa à candidatura de António Guterres e aos seus apoiantes é um impasse entre as capitais mais poderosas a nível internacional. Numa daquelas ironias em que a diplomacia é fértil, Guterres até pode acabar por ser beneficiado pela tradicional falta de transparência na política internacional. Essa seria a curva final no processo de escolha do próximo secretário-geral da ONU.