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Tropas sírias lançam ofensiva terrestre contra rebeldes de Alepo

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GEORGE OURFALIAN

É a “guerra total” na província do leste da Síria, cuja parte oriental está sob controlo dos rebeldes opositores a Bashar al-Assad desde 2012. Sitiada há vários meses pelo regime, com cerca de 300 mil civis sem acesso a bens de primeira necessidade, a cidade está a ser bombardeada sem trégua pelas forças sírias há quase uma semana

O exército sírio e as forças que o apoiam lançaram na madrugada desta quarta-feira uma ofensiva terrestre de larga escala para acabar com os rebeldes que, desde 2012, controlam o leste de Alepo. Maior cidade da província com o mesmo nome, no leste da Síria, nos últimos dias Alepo tem sido alvo de uma intensa campanha de bombardeamentos aéreos "punitivos" pelas forças leais a Bashar al-Assad.

Esses ataques aéreos têm atingido sobretudo civis, com um saldo de mortos já superior a 240 em menos de uma semana, numa altura em que os cerca de 300 mil residentes da área continuam sitiados e sem acesso a comida, medicamentos, roupa e água, além de cuidados médicos.

As forças leais a Assad, que incluem soldados sírios mas também milícias libanesas e iranianas, para além do apoio aéreo da Rússia, abriram entretanto uma série de frentes de guerra no terreno para pressionarem as forças rebeldes a renderem-se.

Esta terça-feira, as forças sírias avançaram pela cidade velha de Alepo – um antigo campo de refugiados que, no fim de semana, foi capturado e rapidamente perdido pelos rebeldes – bem como em outros dois distritos da província, segundo informações da televisão estatal e dos próprios rebeldes. Fonte dos rebeldes diz, citada pela Associated Press, que o espírito de resistência e combate ainda não foi quebrado.

"O regime sírio e os seus aliados ameaçaram e prometeram obter o controlo da zona rebelde de Alepo dezenas de vezes nos últimos anos", disse um comandante do Exército de Libertação da Síria, um dos grupos da oposição armada a Assad. "As forças do regime vão perder a sua vantagem dentro da cidade sitiada de Alepo e o poderio aéreo russo vai perder eficácia nas batalhas urbanas."

A derradeira luta?

Em tempos a maior e uma das mais importantes cidades da Síria, Alepo é um dos últimos bastiões rebeldes no país, após uma série de outras ofensivas aéreas e terrestres ordenadas por Assad para reaver o controlo do território ao longo destes cinco anos e meio de guerra civil. A campanha de bombardeamentos incessantes que está a ter lugar desde o falhanço de um novo cessar-fogo para a Síria esta segunda-feira é uma das piores desde o início do conflito em 2011.

O fogo de barragem sem tréguas contra zonas civis do leste de Alepo nos últimos dias – bem como o alegado uso de bombas de fragmentação contra abrigos, hospitais, ambulâncias e carros de bombeiros pelas forças sírias e russas – veio tornar uma situação já catastrófica num "cenário de guerra total". Entretanto, a Rússia aliada de Assad foi diretamente acusada pelos parceiros do Conselho de Segurança da ONU de cometer crimes de guerra na Síria ao usar munições contra alvos civis.

Há relatos de feridos deixados a morrer nos corredores de hospitais e a serem operados sem anestesia

Há relatos de feridos deixados a morrer nos corredores de hospitais e a serem operados sem anestesia

KARAM AL-MASRI

Imagens raras de drones [aviões não-tripulados] obtidas pela Reuters mostram uma cidade totalmente devastada, com esqueletos de edifícios alinhados ao longo de vastas avenidas cobertas de crateras e sem pessoas à vista. Esta terça-feira, uma só bomba disparada contra um desses prédios de habitação soterrou quatro famílias sob os escombros no bairro de al-Shar, onde os edifícios de construção antiga caem facilmente com disparos das munições mais comuns.

Uma das fotografias captadas durante a operação de resgate das famílias mostra uma mão, sozinha, a surgir por entre as ruínas; locais dizem que a mão pertence a uma criança, mais uma perdida na guerra. "Hasan está com cinco andares em cima. Tem dez anos", disse o ativista Abdulkafi Alhamdo. Quase metade das vítimas da campanha contra o leste de Alepo são crianças, avançou a organização Save the Children esta segunda-feira. Algumas das mais jovens vítimas nasceram e morreram na guerra.

Pela falta de pessoal médico para tanta gente, há feridos deixados a morrer nos corredores dos hospitais, numa altura em que aumenta a cada dia o número de pessoas a precisar de cuidados de emergência nos poucos centros de assistência médica que restam em Alepo. De acordo com Zaher Sahloul, um médico sírio-americano que esteve a trabalhar como voluntário em hospitais de Alepo, diz citado pelo "The Guardian" que só restam cerca de 30 médicos na área da cidade que está sitiada pelas forças sírias, o correspondente a um especialista por cada dez mil residentes.

Na terça-feira, a Organização Mundial de Saúde e o Comité Internacional da Cruz Vermelha pediram que sejam abertos corredores humanitários a ligar o leste de Alepo ao exterior, para que possa ser distribuída ajuda humanitária urgente e para que os feridos possam ser retirados para receberem tratamento.

Na televisão estatal, o Governo sírio diz que as suas tropas já conseguiram reobter o controlo de vários bairros, embora um comandante a orientar tropas na área tenha dito ao "The Guardian" que os rebeldes conseguiram forçá-los a recuar de alguns desses bairros, matando vários soldados — uma informação que o jornal britânico não conseguiu verificar de forma independente.

À Associated Press, uma fonte do Exército sírio garantiu que a campanha de bombardeamentos por terra e ar vai continuar até que os rebeldes sejam dizimados. Fonte dos grupos armados que combatem Assad diz que estão a conseguir obrigar as forças sírias a retirarem do campo de refugiados de Handarat, atualmente deserto, que tem redobrada importância pela sua posição elevada, com vista para a cidade.

"Os rebeldes prepararam-se bem para o cerco, apesar de as nossas tropas e munições estarem a esgotar-se", diz o comandante de um grupo da oposição. "Os bombardeiros russos estão dependentes de uma política [de ofensiva] terrestre. Achamos que eles têm pouca margem de precisão no bombardeamento de alvos, porque não conseguiram atingir as nossas tropas perto da linha de combate para onde foram enviados. Por isso estão a vingar-se nos civis."