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Shimon Peres: dormindo com o inimigo

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Em 1993, a redação do Expresso elegeu Shimon Peres como Figura Internacional do Ano pelo papel então desempenhado nos acordos de Paz assinados em a 13 de setembro por Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat, líder da Organização de Libertação da Palestina, nos jardins da Casa Branca, em Washington. No dia da morte de Peres, o Expresso republica um artigo do jornalista José Cardoso na Revista do Expresso de 24 de dezembro desse ano, que revelou os meandros das negociações e traçou o perfil do, à época, chefe da diplomacia israelita

José Cardoso

José Cardoso

Editor Adjunto

Os inimigos também são para as ocasiões. Quando, no passado dia 13 de setembro, israelitas e palestinianos assinaram o documento histórico em que renunciam à força para resolver uma disputa de quase 100 anos pelas terras da antiga Palestina, foram os inimigos-mores dos dois campos — Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel, e Yasser Arafat, líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP) — que, abençoados pelo Presidente Clinton, concelebraram pública e formalmente, nos relvados da Casa Branca, a grande missa pela paz no Médio Oriente.

Com o papel de atores secundários ficaram homens sem os quais Rabin e Arafat não teriam protagonizado o aperto de mão mais mediático das últimas décadas. Shimon Peres, chefe da diplomacia israelita, o seu interlocutor da OLP na construção do acordo, Mahmud Abbas, o “ministro” da Economia da OLP, Abu Alaa, o “outsider” Johann Joersen Holst, MNE norueguês. Peres terá sido porém o principal artesão do acordo. O seu mérito foi, mais do que o trabalho de formiga, o de convencer o seu correligionário-adversário de partido Rabin a negociar com uma organização que tem no seu nome as palavras “Libertação da Palestina”.

Como diz Peres no seu livro “Médio Oriente: Ano Zero”, prestes a ser publicado, — “cada vez era mais evidente que a última instância era Yasser Arafat (...), um símbolo nacional, uma lenda no seu próprio tempo, um mito aos olhos dos palestinianos (...). Eu sabia que, se não estabelecêssemos contacto direto com Arafat, as negociações continuariam paralisadas. Mas fazê-lo era um anátema para os cidadãos israelitas”.

E era-o também para Rabin, o protótipo do soldado transformado em político, nascido há 70 anos em Jerusalém de um casal de imigrantes russos — e único “sabra” (natural de Israel) a chegar a primeiro-ministro.

Militar calejado, herói da guerra dos Seis Dias, embaixador nos EUA e já chefe do Governo (74-77), foi enquanto ministro da Defesa, nos primeiros tempos da Intifada (a revolta civil palestiniana lançada há seis anos), o promotor da política do “punho de ferro” nos territórios ocupados.

Com um passado de “falcão” — “se houver uma forte 'aliya' [ida de judeus para Israel] nunca abandonaremos os territórios ocupados”, disse um dia — não foi fácil a Peres transformá-lo em “pomba”, como prova a pose crispada com que, cumprimentou Arafat em Washington.

Para ambas as partes, um acordo — este ou outro — era cada vez mais vital: Israel para não ter de falar amanhã com os fundamentalistas do Hamas, a OLP porque precisa(va) de dar algo a palestinianos desesperados e seduzidos pelos cantos da sereia do fundamentalismo.

No livro, Peres explica porque funcionou o canal norueguês: “Conseguimos manter as conversações em andamento durante meses precisamente porque, ao contrário das de Washington, se realizaram longe dos olhos e ouvidos da Imprensa.”

Na Noruega, houve mais de 15 reuniões em vários locais. A última foi às primeiras horas da madrugada de 20 de agosto, para rubricar o documento final. Peres, que nesse dia fazia 70 anos, acabava de receber um presente “único e inesperado”.

Para este homem discreto, de voz cavernosa e ar antipático, era a coroação de uma carreira política iniciada antes do nascimento de Israel pela mão do futuro pai do Estado judaico, David Ben Gurion. Nascido na Bielorússia (ou na localidade polaca de Vishneva, como referem outras biografias), ocupou todos os postos-chave da Administração (Defesa, Finanças, Estrangeiros, primeiro-ministro) e consagrou-se, nos últimos 40 anos, ao Partido Trabalhista, membro da Internacional Socialista.

Regressado a ministro dos Estrangeiros em Junho de 1992, após a vitória do seu partido — cuja liderança Rabin lhe arrebatara quatro meses antes —, foi assim o maior arquiteto de um acordo que impediu Clinton de dormir na madrugada de 13 de setembro. Um acordo que, a vingar, fará com que o Médio Oriente deixe de ser a região do Globo onde a teoria do caos do matemático francês Benoit Mandelbrot, segundo a qual o esvoaçar de uma borboleta em Pequim pode provocar um furacão em Nova Iorque, mais se tem aplicado à política.

A paz global israelo-árabe poderá contudo, quando (e se) chegar, ter efeitos perversos. Alguns regimes da região, que durante décadas fizeram da “luta contra o inimigo sionista” o “leitmotiv” da sua existência, perderão a razão de ser, o que poderá gerar instabilidade, agravada pela sucessão de velhos dinossauros da política regional.

Para já, porém, a “joint-venture” entre Rabin e Arafat não deve suscitar ilusões: os seus povos irão viver ainda por muitos anos uma paz fria como aquela a que o escritor israelita David Grossman se refere ao transcrever o que um egípcio lhe disse um dia perto das Pirâmides: “Assinaremos um acordo de paz convosco; iremos comprar-vos coisas e vocês vir-nos-ão vender a nós. Mas vocês nunca entrarão nos nossos corações.”

Quanto a Abu Ammar, o nome de guerra do homem do “keffieh”, nascido há 63 anos em Jerusalém (ou no Cairo), que desde 1969 lidera a OLP, terá de fazer mais e melhor para ganhar — sobretudo junto dos seus, onde é cada vez mais contestado — a maior batalha da sua vida — se não a própria vida.

E tudo o que mundo espera é que comece a ser erguida a grande Casa Comum do Médio Oriente — o velho sonho de Peres.

Artigo publicado na edição do Expresso de 24 de dezembro de 1993