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Morreu Shimon Peres, um dos últimos “pais fundadores” de Israel

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MARCO LONGARI

Nascido em 1923 na atual Bielorrússia, era uma das últimas figuras que restavam da primeira geração do Estado hebraico. Integrou 12 Governos, duas vezes como primeiro-ministro, antes de assumir a presidência do país entre 2007 e 2014. Foi laureado com o Nobel da Paz em 1994. Tinha 93 anos

O "New York Times" lembra um homem que "construiu a defesa de Israel e que procurou a paz". A CBS um político "cuja história de vida espelha a do Estado judaico". Barack Obama, que na sexta-feira estará presente no funeral de Shimon Peres juntamente com outros líderes mundiais, recorda um homem que "mudou o curso da História". Aquele que por 12 vezes integrou Governos hebraicos e que, em 1994, foi laureado com o Nobel da Paz, morreu na madrugada desta quarta-feira em Telavive. Tinha 93 anos.

A sua morte foi anunciada pelo filho, Nehemya Peres, conhecido por Chemi, e pelo seu médico e genro Rafi Walden, à porta do Centro Médico Sheba, na capital de facto de Israel, onde o político estava hospitalizado há duas semanas na sequência de um AVC. Os médicos mantiveram-no em coma induzido e ligado a máquinas na esperança de que o seu cérebro conseguisse recuperar. Mas a saúde do estadista deteriorou-se.

Nascido em 1923 em Vishniev, na então Polónia, atual Bielorrússia, Peres liderou a criação da indústria da Defesa israelita, negociou tratados estratégicos de armas com França e a Alemanha e foi o grande percursor do desenvolvimento de armas nucleares de Israel. Apesar disso, está a ser recordado como um dos políticos que de forma mais consistente procurou a paz com o mundo árabe, laureado com o Nobel da Paz em 1994 enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, juntamente com o então primeiro-ministro israelita, Yitzhak Rabin e o líder palestiniano, Yasser Arafat, um ano depois da assinatura dos Acordos de Oslo, por ele arquitetados.

Integrou doze Governos hebraicos, enquanto ministro dos Transportes, ministro das Finanças, dos Negócios Estrangeiros, da Defesa e duas vezes enquanto primeiro-ministro, sendo em 2007 eleito Presidente de Israel pelos deputados do Knesset (parlamento israelita), um cargo que ocupou até 2014.

Nesses últimos anos de vida política ativa, teve uma relação difícil com o atual primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, desde a sua eleição para o cargo em 2009. Durante décadas alimentou uma reputação de vaidade e negociações secretas de bastidores. É acusado por muitos críticos de ser um criminoso de guerra. No seu artigo sobre a vida de Peres, Robert Fisk sublinha que o ex-Presidente de Israel "não era pacificador nenhum". A sua morte marca o fim de uma era em que a paz acabou por nunca chegar.

Quando abandonou a vida política ativa, há dois anos, tornou-se numa das mais amadas figuras de Israel, pelo seu trabalho de promoção da cultura e avanços tecnológicos do país. "Durante 60 anos, fui a figura mais controversa deste país e de repente sou o homem mais popular desta terra", declarou. "Verdade seja dita, não sei quando fui mais feliz, se antes ou se agora."

Em tempos disse também que os palestinianos são os "vizinhos mais próximos" de Israel que poderiam tornar-se nos seus "amigos mais próximos". Há três anos, pouco antes de abandonar a presidência, voltou a apelar à paz na região. "Não existe alternativa à paz. Não faz sentido ir para a guerra."

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O aperto de mão

Nos seus esforços para que Israel fosse aceite pelos árabes da região após a fundação do Estado hebraico em 1948, Peres delineou um plano de paz em conjunto com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o seu líder, Yasser Arafat, para a criação de um governo autónomo na Faixa de Gaza e o controlo palestiniano de uma parte da Cisjordânia, dois dos territórios à data e ainda hoje sob ocupação de Israel.

Depois de meses de negociações secretas com representantes da OLP, conduzidas por Peres com o apoio de diplomatas e intelectuais noruegueses, o então chefe da diplomacia hebraica convenceu o seu antigo rival e chefe do Executivo Yitzhak Rabin a aceitar o plano de paz, os famigerados Acordos de Oslo, que foram assinados nos jardins da Casa Branca em 1993 numa cerimónia organizada pelo então Presidente norte-americano Bill Clinton.

O aperto de mão entre Peres e Arafat foi um gesto sem precedentes. Até àquele momento, Israel recusara-se sempre a negociar diretamente com ou sequer a reconhecer a OLP e o seu líder. Peres "quebrou o tabu e o impasse", refere o "New York Times" no seu obituário. "O que estamos a fazer aqui hoje é mais do que assinar um acordo; é uma revolução", declarou o político nessa cerimónia, há 23 anos. "Ontem era um sonho, hoje é um compromisso. Estamos a ser sinceros", garantiu aos palestinianos. "Estamos empenhados. Não queremos definir as vossas vidas nem determinar o vosso destino. Que transformemos as balas em urnas e as armas em pás."

Hoje, os Acordos de Oslo que promoveu e que conseguiu ratificar são vistos por muitos analistas e críticos, dentro de Israel e fora, como um falhanço que permitiu a expansão dos colonatos hebraicos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental para lá das fronteiras delimitadas nesse tratado — colonatos esses que continuam atualmente em expansão e que são tidos como ilegais pela comunidade internacional.

O percurso político

Nascido a 2 de agosto de 1923 na cidade polaca de Vishniev, hoje parte da Bielorrússia, Peres mudou-se para a Palestina em 1934, dois anos depois de o pai ter emigrado para o território. Os parentes que não emigraram morreriam no Holocausto. Casou-se em 1945 com Sonya Gelman e com ela ficou até à data da sua morte em 2011. Tiveram três filhos.

Após conhecer casualmente David Ben Gurion, assumiria a liderança das juventudes do Mapai, antecessor do atual Partido Trabalhista, em 1943. Entrou no Knesset (parlamento israelita) pela primeira vez em 1959, sendo pouco depois nomeado vice-ministro da Defesa para continuar a dirigir o programa nuclear a que dera início anos antes.

Fez da França o primeiro aliado de armas de Israel: Paris vendeu-lhe caças e ajudou os hebraicos a construir a central nuclear de Dimona. (Para Ben Gurion, primeiro chefe do Governo de Israel, que muito apreciava Peres, ter armas nucleares era incontornável para garantir a sobrevivência do Estado sionista num mundo árabe hostil.)

Em 1969, sob o Governo de Golda Meir, tornou-se ministro da Integração dos Imigrantes na sequência da ocupação dos territórios palestinianos dois anos antes, depois de Israel vencer a Guerra dos Seis Dias. Durante muito tempo defensor da construção de colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada, nos últimos anos Peres tornou-se uma das principais figuras de topo de Israel a defender a busca de soluções e compromissos com os palestinianos também tendo em conta as exigências territoriais daquele povo.

"O legado do nosso pai", declarou esta madrugada o seu filho Chemir, "foi sempre olhar para amanhã. Fomos privilegiados em fazer parte desta família privada, mas hoje sentimos que toda a nação de Israel e a comunidade global partilham esta grande perda. Partilhamos todos esta dor."

O corpo de Peres estará no átrio do Knesset ao longo de quinta-feira para que os israelitas possam despedir-se do seu antigo líder. Vai a enterrar na sexta-feira no cemitério do Monte Herzl, em Jerusalém, numa cerimónia que deverá contar com a presença de vários chefes de Estado e de Governo, entre eles Barack Obama, que em 2012 concedeu a Peres a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior condecoração civil dos EUA.

Em comunicado, o Presidente dos EUA disse não imaginar "um melhor tributo à vida [de Peres] do que renovar o nosso compromisso com a paz que ele acreditava ser possível" e lamentou a morte de um estadista que representava a "essência" de Israel.

Reagindo à morte do político israelita, o Presidente alemão sublinhou a mesma necessidade de fazer valer a vontade de paz manifestada pelo ex-Presidente israelita. "Shimon Peres marcou Israel como nenhum outro político", disse Joachim Gauck numa carta enderaçada ao seu homólogo israelita, Reuven Rivlin (que já encurtou uma visita oficial à Ucrânia para preparar as cerimónias de homenagem ao antecessor). "Serviu o seu país em diferentes funções — com sólidos princípios como a segurança de Israel e uma vontade forte de fazer avançar os processos de paz com os palestinianos", recorda o líder alemão.