Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Alterações climáticas vão deixar projeto nuclear secreto a descoberto

  • 333

Joe Raedle

Cientistas dizem que degelo acelerado na Gronelândia provocado pelo aquecimento global vai deixar exposto o Campo Century, parte do Projeto Iceworm – um programa militar nuclear confidencial desenvolvido pelos EUA durante a Guerra Fria, para testar a viabilidade de ataques diretos contra a URSS a partir de uma plataforma de lançamento subterrânea

É conhecida como "a cidade sob o gelo", mas até há poucos anos apenas alguns sabiam da sua existência. Parte do Projeto Iceworm, desenvolvido pelos Estados Unidos na Gronelândia durante a Guerra Fria, a rede de túneis do Campo Century, como foi batizado, foi escavada por engenheiros do Exército norte-americano em 1959 num condado que pertencia então à Dinamarca, a cerca de 200 quilómetros da costa da Gronelândia, que viria a tornar-se um país autónimo em 1979.

O campo, que incluía laboratórios, uma loja, um hospital, um cinema, uma capela e quartos para cerca de 200 soldados, foi construído a uma profundidade de oito metros, sob uma camada de gelo que os EUA nunca julgaram que viria a desaparecer. Mas por causa das alterações climáticas está mesmo a derreter e, dentro de poucos anos, poderá deixar de existir, deixando a descoberto o megalaboratório nuclear cuja existência Washington nunca quis divulgar.

O alerta é feito por um grupo de cientistas num relatório citado pelo "The Guardian", que tem por base investigações recentes sobre o impacto do degelo cada vez mais rápido das zonas mais frias do nosso planeta. À velocidade a que as calotas populares estão a derreter e a regredir, apontam os especialistas, o Campo Century vai eventualmente ficar a descoberto e isso pode acontecer mais cedo que seria de supor.

William Colgan, cientista especializado em clima e glaciares da Escola de Engenharia Lassonde na Universidade York de Toronto, diz que muitas das experiências e análises do Exército americano no Campo Century na década de 1960 continuam ainda hoje a ser citados. Foram eles que, segundo o líder do estudo, perfuraram as primeiras amostras de gelo que servem de base ao estudo do clima.

Contudo, o objetivo primordial do projeto Iceworm – tão secreto que nem o Governo dinamarquês foi informado dele – não era esse. "Eles pensaram que nunca ficaria exposto", diz Colgan. "Na altura, nos anos 1960, o termo aquecimento global nem sequer existia. Mas o clima está a mudar e a questão, agora, é se o que está ali está enterrado vai continuar enterrado."

Projeto Iceworm

Apresentado pelas chefias militares dos EUA em 1960, o projeto tinha como objetivo testar a viabilidade de ter enterrada no gelo uma enorme plataforma de lançamento de ataques nucleares, próxima o suficiente da Rússia para disparar mísseis diretamente contra a União Soviética durante a Guerra Fria.

No auge dessa guerra, durante o longo e tenso braço de ferro entre os EUA e a URSS por causa do envio de mísseis soviéticos para a ilha cubana, o Exército norte-americano chegou a considerar expandir o Campo Century. Queria aumentar o espaço subterrâneo para cerca de quatro mil quilómetros de túneis, câmaras e antecâmaras, uma área com três vezes o tamanho da Dinamarca, com o objetivo de armazenar 600 mísseis balísticos. Mas os engenheiros responsáveis pelo projeto rapidamente perceberam que o Iceworm não ia funcionar – a natureza instável do gelo em permanente movimento teria deformado ou até levado ao colapso dos túneis.

A partir de 1964, o Campo Century foi usado aqui e ali até ser abandonado três anos depois, com os soldados que restavam a levarem consigo a câmara de reação do gerador nuclear instalada anos antes. O resto da infraestrutura, bem como os resíduos biológicos e tóxicos das suas atividades, ficaram para trás – achavam os norte-americanos que "preservados para toda a eternidade" pela neve e gelo que se acumulariam perpetuamente.

Essa suposição tem-se provado correta – a camada de cerca de 12 metros que cobria o campo à data do seu abandono engrossou para cerca de 35 metros e deverá continuar a aumentar durante algum tempo. Mas segundo a equipa de seis liderada por Colgan, a tendência vai alterar-se por causa das alterações climáticas.

Os resultados do estudo, que envolveu especialistas de universidades europeias, norte-americanas e canadianas, foram publicados há um mês no "Geophysical Research Letters". A investigação tem por base documentos do Exército norte-americano e uma análise aprofundada das alterações climáticas e do seu impacto na Gronelândia.

As temperaturas naquela região do globo bateram recordes esta primavera e verão, atingindo os 24ºC na capital, Nuuk, em junho, um número que chocou os meteorologistas de tal forma que fizeram uma revisão geral das suas medidas e cálculos. A par disso, entre 2003 e 2010, o gelo que cobre grande parte da ilha derreteu duas vezes mais rápido do que em todo o século XX, sendo que este ano o degelo começou um mês mais cedo que o habitual.

Os documentos do Exército dos EUA analisados pela equipa de Colgan apontam para a existência de 200 mil litros de diesel e a mesma quantidade de água tóxica no campo (ainda) subterrâneo, a par de quantidades desconhecidas de refrigerante radioativo e poluentes orgânicos tóxicos como os Bifenilos policlorados (PCBs).

Vittus Qujaukitsoq, ministro dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, diz estar preocupado com o futuro do Campo Century e empenhado em apurar responsabilidades. O seu homólogo dinamarquês Kristian Jensen já garantiu que o caso também está a ser analisado pelo Governo que integra, em estreita parceria com as autoridades da Gronelândia.

A Dinamarca permitiu aos EUA construírem o Campo Century e outras bases na Gronelândia sob um acordo assinado em 1951, mas até hoje não se sabe ao certo se as autoridades do país estavam informadas das investigações ali conduzidas ou dos materiais deixados para trás.

Citado pelo "The Guardian", o Pentágono diz apenas que "reconhece a realidade das alterações climáticas e o risco que representam" para a Gronelândia, acrescentando que a administração norte-americana vai "trabalhar com o Governo dinamarquês e com as autoridades da Gronelândia para resolver questões de segurança mútua".

Imagens de arquivo do Campo Century podem ser vistas aqui