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Internacional

Quem ganhou o primeiro debate presidencial?

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Drew Angerer

Maioria dos eleitores que assistiram ao vivo ao primeiro frente a frente entre Donald Trump e Hillary Clinton — e muitos internautas — dizem que a ex-secretária de Estado saiu vitoriosa do combate verbal

Foi o debate do século, ou assim pareceu nas horas que precederam o frente a frente de Hillary Clinton e Donald Trump, o primeiro de três debates televisivos antes das presidenciais de 8 de novembro. Por cá houve quem organizasse noitadas nas suas casas e quintais para assistir em direto com os amigos ao combate de palavras, que em Portugal continental começou às 2h da manhã.

O site Vox divulgou quatro cartões Bingo para aligeirar o momento que alguns, como o "Huffington Post", anteciparam como "90 minutos que podem mudar o mundo". No instagram, a página humorística Fuck Jerry deixou uma outra sugestão — um jogo de bebida para acompanhar o visionamento. "Se desmaiares antes de Hillary Clinton, perdeste."

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Perder, para os que arriscaram os fígados, era o objetivo desse jogo, numa altura em que se amontoam as piadas sobre a escolha ingrata que os eleitores norte-americanos enfrentam na ida às urnas deste ano. Mas em última instância quem perdeu parece ter sido Donald Trump, o homem que, em teoria, angaria a antipatia e revolta de muitos mas que, na prática, continua a chamar a si uma enorme faixa do eleitorado norte-americano.

Para os espectadores que assistiram ao vivo ao debate na Universidade Hofstra, em Long Island, Nova Iorque, Clinton dominou. De acordo com uma sondagem conduzida pela CNN logo a seguir ao frente a frente entre os presentes, 62% apontaram a democrata como vencedora, contra 27% que defenderam a prestação do magnata do imobiliário tornado candidato republicano.

A margem poderá ser explicada pelo facto de, entre os 521 inquiridos, 41% se identificarem como democratas e 26% como republicanos, com os restantes presentes sem filiação partidária. Ou seja, os eleitores democratas escolheram Clinton com a ajuda de parte dos 33% de indecisos/indefinidos, o que se traduz numa amostra tão dividida como a massa de mais de 300 milhões de eleitores americanos — que, de acordo com as sondagens nacionais mais recentes, continua a pôr os dois candidatos presidenciais num empate virtual.

Terá sido esse empate e a vontade de alterar as previsões que guiaram Clinton na sua noite de ouro, obrigando Trump a mudar de uma estratégia ofensiva (a palavra, aqui, tem mais do que um sentido) para uma defensiva.

Foi acusado pela rival de não ter um temperamento adequado ao cargo de Presidente dos EUA, questionado repetidamente sobre porque é que se recusa a divulgar a sua declaração de rendimentos e confrontado com comentários que proferiu em anos e meses recentes sobre minorias e sobre as mulheres.

A melhor tirada da noite pertenceu igualmente à ex-secretária de Estado, quando respondeu às críticas do rival por ter estado ausente da campanha durante alguns dias após ter desmaiado nas cerimónias do 11 de Setembro por causa de uma pneumonia sem gravidade.

"Penso que Donald acabou de me criticar por me preparar para este debate", sugeriu, sempre a sorrir. "E sim, preparei-me. E sabem para que mais me preparei? Para ser Presidente. E essa é uma coisa boa."

Para a CNN, os cerca de 100 milhões de espectadores do debate poderão ter assistido a um momento crucial da campanha, o momento em que Clinton virou o jogo e assinou o início do fim de Trump. O magnata começou forte, mostrando os seus ases de campanha, as propostas de gerir o Governo federal como uma empresa para gerar crescimento económico e emprego, provavelmente o ponto que mais apoios lhe angaria.

À medida que a noite foi avançando, contudo, a sua queda para a mentira foi tomando conta do aceso debate, deixando-o vulnerável aos ataques da rival e dos colunistas e jornalistas que hoje hão-de dissecar as mentiras proferidas — entre elas voltar a repetir que foi Hillary quem lançou a campanha de difamação de Barack Obama sobre alegadamente não ter nascido nos EUA mas sim no Quénia (foi ele quem mais capitalizou esse movimento racista) e voltar a repetir que não apoiou a invasão do Iraque (apoiou).

Joe Raedle

As mentiras de Trump já tinham marcado passo para o debate ainda antes do frente a frente, a começar pela declaração pública de que Lester Holt, o apresentador da CBS responsável por moderar o debate, é democrata. Os mais informados sabem que, enquanto eleitor, Holt está registado como republicano.

No programa "Morning Joe" da MSNBC, ontem de manhã, a cerca de dez horas do debate, os apresentadores não deixaram escapar essa mentira numa entrevista a Kellyanne Conway, diretora da campanha de Trump, que por várias vezes foi confrontada com esse facto e que por várias vezes se recusou a dar uma resposta válida às acusações.

"Nós estamos a perguntar porque é que ele mentiu sobre Lester Holt", disse a dada altura Mika Brzezinski. "Ele não mentiu", garantiu Conway. "Penso que mentiu", respondeu o apresentador. "Mika, uma mentira quereria dizer que ele sabia o registo partidário do homem", respondeu a gestora de campanha.

Holt escolheu não abordar a questão durante o debate; afinal, estava ali para moderar, não para protagonizar. Mas numa altura em que várias figuras da televisão, como o jornalista Matt Lauer ou o comediante Jimmy Fallon, têm sido acusados de serem demasiado brandos em entrevistas a Trump, era quase incontornável que o repórter da CBS tivesse o seu quinhão de atenção e escrutínio.

A julgar pelas redes sociais, Holt passou o teste. Primeiro negro a moderar um debate presidencial desde 1992, o americano de ascendência jamaicana foi inicialmente criticado pelos espectadores por não estar a tomar as rédeas da discussão mas isso mudou rapidamente, assim que a conversa virou para a Guerra do Iraque. No final, angariou boas críticas de internautas e de colegas de profissão, que em uníssono disseram que fez o seu trabalho de confrontar os dois candidatos sempre que proferiam incongruências mas sem, com isso, tomar partidos.

Até Trump ficou satisfeito, a julgar pelas declarações aos jornalistas no final do debate. "Penso que o Lester fez um excelente trabalho", disse o candidato republicano, acrescentando que acha que o moderador foi "ótimo" quando lhe perguntaram se as perguntas colocadas foram justas.

"Penso que Lester Holt fez um bom trabalho, penso que foi um debate muito informativo", declarou o diretor de campanha de Clinton, Robby Mook. Questionado sobre se gostava que o moderador tivesse feito um trabalho ainda melhor no que toca a fact-checking (comprovação de factos), Mook disse apenas que a campanha democrata ficou "feliz com o debate como foi".

Têm razões para isso. Às primeiras horas desta terça-feira, a tendência no Twitter era de elogio a Holt mas sobretudo a Clinton, que chegou a enfrentar a possibilidade de ter na assistência uma ex-amante do marido e antigo Presidente dos EUA, Bill Clinton, a convite de Trump, e que, apesar de ter sido interrompida dezenas de vezes pelo rival durante os 90 minutos de confronto (51 segundo contas do Vox, 58 segundo o Washington Post) manteve o sorriso, a boa disposição e o vigor que lhe são reconhecidos.

O próximo teste televisivo entre os dois candidatos acontece já a 9 de outubro, em Washington, num debate que será moderado por Anderson Cooper da CNN. Antes disso, será a vez de os aspirantes a vice-presidente — o democrata Tim Kaine e o republicano Mike Pence — se defrontarem em direto na televisão num debate que será moderado por Elaine Quijano e que está marcado para a próxima terça-feira, 4 de outubro.

Até lá, vale a pena assistir ao resumo de 90 minutos de debate em apenas três, cortesia do "Washington Post".