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Política vence futebol

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Drew Angerer / Getty Images

Um terço dos americanos (100 milhões) estão colados aos ecrãs, numa rara segunda-feira onde a lealdade ao desporto rei em terras do Tio Sam não imperou

Segunda-feira à noite é sinónimo de festa nos “sports bars” americanos com a transmissão do “Monday Night Footbal” (futebol americano), invariavelmente o programa mais visto neste dia da semana e que atrai, em média, dez milhões de americanos.

São duas horas e meia de ruído em ambientes recheados de néon intermitente e ecrãs gigantes, colocados até nas casas de banho, não vá um “touchdown” ocorrer num momento inesperado.

No final escasseia a sobriedade, tal é o consumo de cerveja - bebe-se mais neste período do que em todo o resto da semana, revelava esta sábado o canal desportivo ESPN.

Durante esta noite (madrugada de terça-feira em Portugal), porém, há um esforço de contenção. Os candidatos à presidência dos Estados Unidos enfrentam-se no primeiro debate televisivo e perto de 100 milhões de pessoas não querem perder pitada. O jogo da política começou às 21h locais (2h em Lisboa). O outro, meia hora antes.

O sorteio durante a tarde, com recurso ao sistema de moeda ao ar, estipulou que Hillary se coloque à esquerda no palco e tenha direito à primeira resposta. “A questão central desta eleição é: que país queremos ser no futuro? Uma boa economia para todos e não só para os do topo. Mais emprego e um aumento do ordenado mínimo. Além disso, é tempo de oferecer às mulheres os mesmos ordenados oferecidos aos homens”, disse Hillary, começando imediatamente ao ataque, no primeiro segmento titulado “alcançar a prosperidade”.

Trump respondeu. “Os empregos estão a fugir do nosso país. No México, por exemplo, estão a construir excelentes fábricas, aqui nem por isso. A Ford irá para lá, abandonando o Michigan. Temos de bloquear isto. O meu plano contempla redução de impostos para as empresas o que irá gerar emprego. Temos de renegociar os acordos de comércio”.

Menino rico

Com os Atlanta Falcons e os New Orleans Saints arredados dos títulos há muito tempo e sem estrelas no relvado como Tom Brady, o marido da supermodelo Giselle Bunchen, o ambiente naqueles bares transformou-se numa espécie de sessão do Congresso, mas onde há o direito ao bitaite e ao assobio estridente.

O primeiro burburinho ocorreu quando Hillary recordou a sorte do rival, por ter nascido numa família abastada e pelo empréstimo de 14 milhões de dólares que recebeu para iniciar o seu negócio.

Trump reagiu, acusando Hillary de estar na política há muito anos e de nada ter feito para evitar a destruição do tecido industrial americano.

Hillary lembrou que Trump ficou satisfeito com a crise de 2007-08, porque, assim, compraria propriedades mais baratas. “A isso chama-se negócio”, respondeu o magnata americano.

Até o rato Mickey fazia o mesmo

A Comissão Eleitoral Federal prevê que 60% dos 100 milhões de espectadores se concentre esta noite pela primeira vez na corrida presidencial, uma informação que já tinha sido avançada ao Expresso, no sábado passado, por uma fonte democrata.

Emily Thorson, professora na Boston College e autora de “Belief Echoes: The Persistent Effects of Corrected Misinformation”, um trabalho sobre os efeitos da informação na política, acha interessante que durante esta noite o futebol tenha sucumbido ao poder da política, visto que “os americanos votam nos partidos da mesma forma como apoiam os seus clubes”.

Em conversa com o Expresso, esta especialista explica que “o eleitorado americano é menos flexível do que o europeu. A maioria de republicanos e democratas votam no mesmo partido a vida inteira, seja qual for o candidato. Não há centro, ou pelo menos o centro é muito pequeno. Nem que o candidato seja o rato Mickey. É este partidarismo extremo que explica porque estamos a assistir a uma corrida tão renhida, mais do que a crise económica ou o racismo. Os adeptos dos Falcon ou dos Saints nunca mudam de clube e os republicanos e os democratas têm a mesma fidelidade”.

  • Donald, as mulheres e “ela”

    Os candidatos republicano e democrata à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump e Hillary Clinton, respetivamente, maltrataram-se durante 90 minutos. Um moderador pouco interventivo prejudicou o primeiro debate entre ambos