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O horror em Alepo. “Os mísseis atingem até caves e abrigos”

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AMEER ALHALBI

Barack Obama diz-se “profundamente preocupado” com a situação na cidade do leste da Síria, cuja parte oriental está sob controlo dos rebeldes desde 2012 e sitiada pelas forças do regime de Assad há vários meses. “A Força Aérea vai continuar a bombardear quaisquer movimentos terroristas, esta é uma decisão irreversível”, garante fonte das forças armadas sírias

Aquela que, em tempos, foi a maior cidade da Síria e centro de trocas comerciais e industriais, está dividida em dois desde 2012. De um lado o regime de Bashar al-Assad, que continua a usar da força militar para controlar os que se lhe opõem. Do outro as forças rebeldes, que controlam o leste e estão sitiadas pelas tropas sírias há vários meses.

Na semana passada, esteve em vigor um cessar-fogo negociado pelos Estados Unidos e pela Rússia que tinha como objetivo fulcral fazer chegar ajuda humanitária urgente aos cerca de 300 mil civis encurralados em Alepo. Mas uma série de violações da trégua, em particular o ataque a uma equipa de ajuda humanitária da ONU e do Crescente Vermelho na província com o mesmo nome (que os EUA dizem ter sido executado pelas forças russas aliadas de Assad) trouxe uma escalada de violência que está a traduzir-se numa das piores ofensivas de Assad desde o início da guerra em 2011. A pior dos últimos cinco anos e meio, aponta o “New York Times”.

Médicos que resistem na cidade, citados pela BBC, dizem que não há gente suficiente para lidar com o elevado número de vítimas causadas pela intensa campanha de bombardeamentos aéreos. Os poucos medicamentos e o reduzido banco de sangue estão prestes a acabar, numa altura em que se assinalam três semanas do cerco apertado das forças sírias. Um ataque aéreo contra uma bomba de gasolina deixou várias áreas de Alepo sem água.

“Os aviões não estão a abandonar os céus”, diz à Reuters Brita Hagi Hassan, presidente do conselho rebelde da cidade. “A vida na cidade está paralisada. Toda a gente está enfiada nas suas casas, sentada em caves. Mas os mísseis atingem até essas caves e os abrigos que criámos para proteger as pessoas.”

Testemunhas no terreno dizem que o regime está a reforçar ataques contra hospitais, ambulâncias e carros de bombeiros

Testemunhas no terreno dizem que o regime está a reforçar ataques contra hospitais, ambulâncias e carros de bombeiros

AFP

No último ano, as tropas de Assad têm conseguido, gradualmente, furar a barricada rebelde com a ajuda de milícias apoiadas pelo Irão e por uma campanha aérea da Rússia. No início de setembro, as forças leais ao Presidente sírio conseguiram cortar os acessos na última rota usada pelos rebeldes no leste, cercando os quase 300 mil civis que ainda resistem em Alepo.

Metade deles são crianças, muitas com mais ou menos a mesma idade da guerra civil, cinco anos e meio. Segundo a ONU, dois milhões de pessoas estão sem acesso a água potável desde então. “Alepo está a morrer lentamente e o mundo está a assistir”, disse um responsável da UNICEF à BBC no domingo.

O cessar-fogo alcançado pelos EUA e pela Rússia era uma espécie de último reduto para ajudar estas pessoas e conseguir uma pausa nos ataques, mas essa trégua colapsou na segunda-feira, depois de o Exército sírio ter anunciado o fim dos sete dias de cessação de hostilidades e relançado a ofensiva pelo controlo da cidade. Desde então, aponta o Observatório Sírio de Direitos Humanos, pelo menos 248 mortes já foram documentadas na parte de Alepo controlada pelos rebeldes.

Dezenas de ataques aéreos executados durante esta madrugada mataram mais doze pessoas, incluindo três crianças. O aparato aéreo do regime, aponta hoje Bebars Mishal, que integra as equipas de resgate da Defesa Civil Síria, inclui “todo o tipo de armas — fósforo, napalm e bombas de fragmentação”.

Os EUA, Reino Unido e França, que apoiam os rebeldes anti-Assad e que convocaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU no domingo, acusam ainda o regime sírio e as forças russas de usarem bombas desenhadas para destruir bunkers e abrigos subterrâneos e também bombas incendiárias “de forma indiscriminada” em áreas civis.

Geradores dos hospitais chegam para 20 dias

“Não temos como trazer nada para cá”, denuncia Aref al-Aref, médico de cuidados intensivos que explica que os hospitais na zona de Alepo sob controlo dos rebeldes estão “sobrelotados com feridos” e que “as coisas estão a começar a escassear”. “Não conseguimos trazer equipamento nem mais pessoal médico. Alguns médicos estão na província, sem possibilidades de chegar aqui por causa do cerco”, diz à Reuters. Abd Arrahman Alomar, pediatra da Sociedade Médica Sírio-Americana, avisa que neste momento só há 30 médicos no leste de Alepo e que o combustível que resta para alimentar os geradores dos hospitais só vai durar 20 dias.

A organização Save the Children avançou entretanto que um dos principais hospitais ainda em funcionamento foi atingido por uma bomba-barril na segunda-feira. Na última semana, pelo menos duas ambulâncias e três carros de bombeiros foram igualmente destruídos nos bombardeamentos sírios e russos. O correspondente da AFP diz que, após o encerramento de várias cozinhas de caridade no leste de Alepo, os preços da pouca comida que resta dispararam.

“O que estamos a ver da parte do regime Assad e dos russos é uma campanha concertada para atacar alvos civis, bombardear os civis até à sua submissão”, declarou ontem à noite Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca, dizendo que o Presidente norte-americano, Barack Obama, está “profundamente preocupado” com a matança “repugnante” que está a ter lugar em Alepo.

Fonte do Exército sírio, citada pela AFP, garantiu que não há planos para alterar a atual estratégia contra o que o regime classifica desde sempre como grupos “terroristas” — os rebeldes e não movimentos jiadistas como o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). “A Força Aérea vai bombardear quaisquer movimentações de terroristas, essa é uma decisão irreversível.” Ontem, o ministro sírio dos Negócios Estrangeiros garantiu que a trégua negociada em Genebra ainda é viável. Sem referir a ofensiva em Alepo, Walid al-Moallem disse à televisão libanesa que “o Governo sírio continua preparado para integrar um governo de unidade que incorpore elementos da oposição”.