Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Muitas acusações, alguns apartes, nenhuma simpatia

  • 333

Joe Raedle / Getty Images

Hillary apresentou-se como a candidata experiente e responsável que conhece os assuntos e não vai assustar os aliados dos EUA, Trump como o outsider que trará a mudança necessária a uma América farta de decadência. O primeiro debate entre os candidatos presidenciais nos EUA não trouxe nada de imprevisível, inesperado ou incontrolado, antes confirmou aquilo que os americanos sabem deles

Luís M. Faria

Jornalista

Hillary Clinton e Donald Trump já mantiveram uma relação cordial. Ao ponto de ele a convidar para o seu terceiro casamento (explicou mais tarde que, para um homem de negócios, era rentável dar-se com políticos) e ela ter ido. Esses tempos vão longe. Durante os últimos meses, Trump não parou de chamar à candidata democrata "crooked Hillary", ou seja, Hillary vigarista.

Ela, por sua vez, descreve-o como alguém que não possui nem o conhecimento nem o temperamento necessários para ser Presidente dos Estados Unidos. Com as sondagens inesperadamente apertadas – Hillary perdeu os sete ou oito pontos de vantagem que tinha em agosto – a eleição está no fio da navalha, para usar uma expressão agora muito ouvida. Quando os dois candidatos chegaram esta segunda-feira à noite (madrugada de terça em Portugal) ao primeiro de três debates televisivos que vão fazer, não se esperava grande simpatia entre os dois, e assim foi.

Ela apareceu vestida de vermelho, ele num fato com gravata azul – trocando as cores normalmente associadas aos respetivos partidos. Cumprimentaram-se, ela perguntou-lhe como estava, ele respondeu que bem, obrigado. O moderador introduziu o tema da prosperidade (o que fazer para a restaurar) e a conversa não tardou a ir parar aos acordos internacionais de comércio, que Trump rejeita. Dirigindo-se à rival, que foi secretária de Estado no primeiro governo Obama, afirmou: "Para ser justo com a secretária Clinton... está bem assim (o modo de tratamento)? Ótimo. Quero que esteja muito contente. É muito importante para mim".

Dificil não notar o sarcasmo. Numa linha de ataque a que foi regressando ao longo do debate, Trump acusou Hillary de fazer parte de uma classe política que não consegue resolver problemas importantes para o país, ou até os agrava. Outro exemplo foi quando se estava a discutir política fiscal. Trump defendeu que se devem baixar os impostos para os muito ricos, entre outros motivos, para os incentivar a voltar a pôr nos EUA o dinheiro que guardam no estrangeiro. "2,5 milhões de milhões de dólares. Por acaso, penso que é o dobro disso. Com um pouco de liderança, pode-se trazer isso rapidamente. E podia-se aplicar no interior das cidades e numa data de outras coisas, e seria lindo. Mas não temos liderança. E, honestamente, isso começa com a secretária Clinton".

"Tenho a sensação de que, no final desta noite, vou ser culpada por tudo o que alguma vez aconteceu", respondeu ela.

"Porque não?", disse ele.

"Porque não? Sim, porque não? (risos) Participe no debate dizendo mais maluquices".

Pool / Getty Images

Noutra altura, quando ela o acusou de ter desejado publicamente em 2006 o colapso no preço das habitações (um fator essencial na crise de 2008, a pior desde os anos 1930) para poder comprar umas tantas e lucrar, ele não negou. Só fez um aparte – "a isso chama-se negócio, a propósito" – e ela continuou a falar dos nove milhões que perderam o emprego e dos cinco milhões que ficaram sem as suas casas.

Trump interrompeu Hillary bastante mais do que ela o interrompeu a ele. Isso liga com a imagem contrastante que os dois têm: ela supercontrolada, ele indisciplinado. Cada um tentou, mais uma vez, transformar isso numa vantagem. Ele acusando-a de ser uma política como as outras ("só conversa, ação nenhuma. Soa bem, não funciona. Nunca vai acontecer"), ela procurando dar uma imagem de responsabilidade, oposta à dele ("o Donald criticou-me por eu me preparar para o debate. Sim, preparei-me. E sabem para o que mais me preparei? Para ser Presidente. E acho que é uma coisa boa").

O contraste entre aquilo que um e outra se chamavam, "Donald" vs. "secretária", significa menos do que parece. Nos EUA, é normal designar um político que ocupou um cargo importante pelo título desse cargo. Se Trump tivesse tratado Hillary simplesmente pelo nome próprio, corria o risco de soar grosseiro. Além do mais, chamar-lhe "secretária" permitiu associá-la direta ou indiretamente a um grande número de decisões desastrosas tomadas pela classe política, desde os acordos comerciais às guerras do Iraque e da Líbia, o aparecimento do autodenominado Estado Islâmico (Daesh)...

Trump retratou-se a si mesmo como a alternativa desejável: um homem de negócios importante, que sabe como o mundo realmente funciona. E ela atacou-o justamente aí. "Se o seu principal argumento para ser Presidente dos Estados Unidos é a sua empresa, então acho que devíamos falar disso". Mencionou as seis bancarrotas de Trump e o facto de ele ter o hábito de não pagar a fornecedores – alegando que o trabalho não ficou perfeito, mas continuando a usar o produto. Falou em "lavadores de pratos, pintores, arquitetos, vidraceiros, instaladores de cortinas, como o meu pai era...". E disse que ali na sala, entre a audiência, se encontrava uma dessas vítimas.

"Se calhar o trabalho não era bom e eu não fiquei satisfeito", respondeu Trump.

"Bem...".

"O que o nosso país também devia fazer".

Hillary perguntou se as pessoas a quem ele tinha ficado a dever não mereciam um pedido de desculpas, e disse que se sentia aliviada por o seu falecido pai nunca ter trabalhado para ele. "Há muitos grandes homens de negócios que nunca entraram em bancarrota", acrescentou. "Você descreve-se como o rei da dívida. Fala em alavancagem. Chegou mesmo a sugerir que tentaria negociar para reduzir o nível de dívida dos Estados Unidos".

"Errado, errado", reagiu Donald.

"Bem, às vezes não há uma transferência direta de capacidades dos negócios para o governo", concluiu Hillary. "O que aconteceu nos negócios seria realmente mau para o governo".

Pool / Getty Images

O tom geral foi este. Hillary apresentando-se como a candidata experiente e responsável que conhece os assuntos e não vai assustar os aliados dos EUA, Trump como o outsider que trará a mudança necessária a uma América farta de decadência. O apelo de Trump depende de se considerar a situação atual como muito má, e por isso ele desenhou um retrato quase apocalíptico de cidades entregues ao crime, uma economia de rastos perante a China e o México (que "ficam com os nossos bons empregos", como ele diz sempre), um mundo que deixou de respeitar os EUA porque não respeita o seu atual Presidente.

Hillary fez um retrato muito mais nuanceado, lembrando, por exemplo, que os acordos comerciais têm efeitos bons e maus. Em relação a Obama, foi o próprio moderador que não deixou passar a alegação feita por Trump de que se limitou a acabar com as dúvidas sobre o local de nascimento do Presidente, que teriam sido originalmente levantadas por Hillary.

Afinal, como esta notou, Trump foi o grande promotor da "mentira racista de que o nosso primeiro Presidente negro não era um cidadão americano", uma teoria sobre a qual construiu a sua base de apoio, e que continuou a promover mesmo após o Presidente ter publicado a tão reclamada certidão de nascimento. "Pessoas que ele estava a tentar atrair acreditavam nisso, ou queriam acreditar", disse Hillary.

A certa altura, ela repetiu uma frase usada no seu discurso de aceitação em julho: "Um homem que pode ser provocado com um tweet não deve ter os seus dedos próximos dos códigos nucleares".

"Essa frase está a ficar um pouco gasta", disse Trump.

"Mas é boa. Descreve bem o problema".

Ele respondeu que concordava que a maior das ameaças era de facto o nuclear. Não o aquecimento global, ao contrário do que pensam Hillary e "o seu Presidente".

Drew Angerer / Getty Images

  • Quem ganhou o primeiro debate presidencial?

    Maioria dos eleitores que assistiram ao vivo ao primeiro frente a frente entre Donald Trump e Hillary Clinton — e muitos internautas — dizem que a ex-secretária de Estado saiu vitoriosa do combate verbal

  • Donald, as mulheres e “ela”

    Os candidatos republicano e democrata à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump e Hillary Clinton, respetivamente, maltrataram-se durante 90 minutos. Um moderador pouco interventivo prejudicou o primeiro debate entre ambos

  • Donald Trump e o maior dos conflitos de interesses

    Ao longo de meses, o historial de fraudes, dívidas e negócios arriscados e falhados do magnata do imobiliário tem sido dissecado pelos media. Mas há um caso que ainda não ganhou tração e que, dizem especialistas, representa um risco enorme para os contribuintes americanos