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Donald, as mulheres e “ela”

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Drew Angerer / Getty Images

Os candidatos republicano e democrata à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump e Hillary Clinton, respetivamente, maltrataram-se durante 90 minutos. Um moderador pouco interventivo prejudicou o primeiro debate entre ambos

“Eu olhei para aquela cara feia e gorda”, diz Donald Trump, o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos. Logo a seguir, revela que “alguém com mamas pequenas é muito difícil ser um dez”. E quando questionado se trata as mulheres com respeito, o magnata americano confessa sorridente: “Não posso dizer que sim”.

As declarações são antigas mas preencheram esta segunda-feira, de manhã à noite, os espaços publicitários das televisões americanas no dia do primeiro debate televisivo entre Trump e a rival democrata Hillary Clinton.

O anúncio foi pago pelo Super PAC “Hillary for America”, afeto à antiga primeira-dama, lembrando aos americanos que não só estavam perante a possibilidade de eleger a primeira mulher Presidente, como do outro lado da barricada encontra-se um indivíduo que maltrata o sexo oposto.

Na tarde desta segunda-feira, numa variação sobre o mesmo tema, o chefe de Estado Barack Obama enviou uma nota aos jornalistas sobre as expectativas para o frente a frente. Apelou à participação eleitoral e insistiu no argumento de que o que está em causa é a eleição da pessoa mais preparada da história.

Hillary aproveitou a deixa e no debate desta noite (maqdrugada em Portugal) recordou as declarações do rival, que considerou que ela não teria a “aparência” necessária para o exercício da presidência. “Sobre a minha aparência, Donald, digo apenas o seguinte: você é o homem que apelidou mulheres de porcas e que disse que a gravidez de uma mulher é um empecilho para os empregadores”.

Trump, que passou a noite a tratar Hillary por “ela”, não retorquiu.

“Hillary Obama”

As palavras elogiosas de Obama surgem numa altura em que até na própria Casa Branca há quem sinta que Trump representa muito mais do que uma franja do eleitorado.

“O mesmo país que foi capaz de eleger o primeiro afro-americano é, também, o mesmo país que resiste à reforma do sistema de saúde (conhecida como Obamacare) e à legalização do casamento gay e da venda de canábis. Se calhar são políticas progressistas a mais”, diz ao Expresso um assessor que trabalha com Obama desde o primeiro dia em que ele foi eleito, a 4 de novembro de 2008.

Outra fonte próxima da presidência é Jim Papa, antigo conselheiro para assuntos legislativos. Numa curta conversa, explica-nos que existe a ideia de que “há uma América que recusa liminarmente Obama. Hillary pode pagar por isso”.

Apesar do risco, Hillary colou-se no debate à Administração Obama, quando, por exemplo, recordou que as suas políticas conseguiram baixar a taxa de desemprego de quase 11% para menos de 5%.

Economia

A antiga chefe da diplomacia mantinha-se ao ataque e Trump recusou a ideia de que ele não acredita nas alterações climáticas, optando por acusar Bill Clinton de ter assinado o pior acordo de comércio de todos os tempos: o NAFTA.

Em matéria fiscal, o candidato republicano justificou a descida de impostos como forma de evitar a fuga de empresas dos Estados Unidos. “Traríamos mais de cinco biliões de dólares para o nosso país”, anunciou. Hillary propõe o contrário e defende um aumento de impostos para os mais ricos e, assim, “reconstruir a classe média”.

Quando Trump acusou a adversária de ser o rosto dos políticos que “falam muito e fazem pouco”, o moderador, numa das suas raras intervenções, perguntou por que razão Trump ainda não mostrou a sua declaração de impostos. O republicano prometeu fazer isso “no dia em que Hillary mostrar os seus 33 mil emails”.

“Se calhar ele não é tão rico como diz?”, afirmou Hillary. “Ou então paga zero em impostos federais. Quem sabe? No passado, sabe-se que ele usou as lacunas da lei…” Trump reagiu de imediato: “Isso faz de mim um tipo esperto”.

Calotes e racismo

Trump falou da fortuna pessoal e da sua empresa sólida, explicando que não o faz por uma questão de autoelogio mas porque “é importante ter alguém na Casa Branca que saiba o que é gerir dinheiro”.

Sobre gestão, Hillary lembrou que Donald terá pregado calotes a vários pequenos empresários, ao que ele respondeu: “Se calhar eles não fizeram bom trabalho”.

Quando a conversa mudou da economia para a sociedade, o debate sobre racismo prevaleceu. “Temos de trabalhar com a polícia, mas também com as comunidades afro-americanas, algumas delas afetadas com o problema das armas e da violência dos gangues”.

Desde 1991, o crime violento baixou 50% nos Estados Unidos. Por este facto, Hillary propõe o fim das prisões privadas.

Apoiado pelo NRA, Trump recusa leis mais restritivas no acesso às armas, porque as pessoas precisam de se “defender contra os grupos de criminosos”.

Quando questionado sobre a polémica em redor das origens do Presidente Barack Obama, o candidato republicano recorda que foi ele que forçou a apresentação da certidão de nascimento, acusando Hillary, durante a campanha de 2008, de ter criado o boato de que o líder americano nasceu no Quénia.

“Esse assunto não pode ser enterrado desta maneira. Foi ele, Donald, só ele, que insistiu anos a fio porque sabia que a sua base de apoiantes gostava do tema. Lembrem-se de que este é o homem que foi processado pelo Departamento de Justiça por se recusar aceitar inquilinos negros”, acusou Hillary.

Pela segunda vez na noite, Trump não reagiu.

Daesh e NATO

O candidato republicano lembrou que Obama e Clinton são os responsáveis pelo surgimento do autodenominado Estado Islâmico (Daesh), uma vez que retiraram as forças militares americanas “de forma irresponsável” do Iraque.

A secretária de Estado apontou o dedo à Administração Bush por ter iniciado a guerra contra a ditadura de Saddam Hussein, uma iniciativa que ela apoiou enquanto senadora. Argumentou, ainda, que é necessário uma aliança com os países do Médio Oriente, algo cada vez mais difícil devido aos “ataques constantes de Donald contra a comunidade muçulmana”.

Trump evitou responder à acusação e garantiu que a NATO anunciou uma nova unidade de contraterrorismo depois de ele ter ameaçado retaliar contra “os aliados que não pagam a sua factura aos EUA”.

“A NATO tem um artigo, o artigo 5, Donald. Foi acionado uma vez, depois dos ataques do 11 de Setembro, Donald. Já se esqueceu?”, lembrou a antiga primeira-dama.

O ex-analista do Departamento de Defesa Phillip Lohaus, atual membro do American Enterprise Institute, viu o debate e, numa conversa com o Expresso, considerou que em matéria de política externa ficou muito por dizer. “Se Trump quer rasgar o acordo nuclear com o Irão, que explique como é que o fará? Onde está o plano para derrotar o Daesh? O facto de o moderador não ter sido mais interventivo prejudicou imenso o debate”.