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Donald Trump e o maior dos conflitos de interesses

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Ao longo de meses, o historial de fraudes, dívidas e negócios arriscados e falhados do magnata do imobiliário tem sido dissecado pelos media. Mas há um caso que ainda não ganhou tração e que, dizem especialistas, representa um risco enorme para os contribuintes americanos

Os media norte-americanos podem ter demorado a perceber que Donald Trump ia, contra todas as expectativas, garantir a nomeação republicana e acabar a disputar a Casa Branca com Hillary Clinton. Mas assim que a ficha caiu, o trabalho a sério começou.

Incansáveis, os principais jornais dos EUA têm dedicado tempo e recursos a investigar a teia de negócios do magnata do imobiliário, tornado estrela de reality shows, tornado candidato presidencial, que tem sustentado a sua campanha eleitoral na promessa de gerir o país como uma empresa. A julgar pela forma como tem gerido as suas, não é um bom augúrio para os americanos.

Nessa demanda de comprovar e denunciar o currículo duvidoso do milionário, há uma vénia merecida ao "New York Times". Só em agosto, o diário nova-iorquino publicou três investigações distintas que revelam não apenas os falhanços empresariais do candidato como demonstram que muita da sua campanha tem tido por base mentiras — que Trump parece não querer assumir ao recusar-se a divulgar as suas mais recentes declarações de rendimentos.

A 16 desse mês, num artigo intitulado "Trump Casinos’ Tax Debt Was $30 Million. Then Christie Took Office.", o "NYT" aprofundou os contornos do perdão de dívida concedido a Trump por um governador republicano que tem andado a toque de caixa do candidato presidencial. "Quando Chris Christie se tornou governador de New Jersey, os auditores e advogados do estado batalhavam há vários anos para coletar os impostos há muito devidos pelos casinos fundados pelo seu amigo Donald J. Trump", lançou o jornal.

"O total, com juros, tinha quase atingido os 30 milhões de dólares. O estado tinha-se agarrado ao assunto obstinadamente através de dois casos de falência de casinos, chegando a acusar a empresa liderada por Trump de apresentar falsos relatórios aos reguladores estatais do sector por causa dos impostos pagos [ou não]. Mas anos depois de o governador Christie, um republicano, ter assumido o cargo, o tom da litigação alterou-se. E em dezembro de 2011, após seis anos em tribunal, o estado aceitou ficar-se pelos cinco milhões de dólares [4,45 milhões de euros], cerca de 17 cêntimos de dólar quando comparado com o que as auditorias apuraram ser a dívida dos casinos."

Apenas quatro dias depois deste artigo, o "New York Times" debruçou-se sobre o império de Trump, "um labirinto de ligações opacas e dívidas", lê-se no título. "Na campanha, Donald J. Trump tem-se vendido como um empresário que fez milhares de milhões de dólares e que não tem dívidas com ninguém. Mas uma investigação do "NYT" ao labirinto financeiro de holdings imobiliárias de Trump nos EUA revela que as empresas de que é proprietário detêm, pelo menos, 650 milhões de dólares [578 milhões de euros] em dívidas – o dobro do total de dívida que pode ser descortinado em registos tornados públicos enquanto candidato à Casa Branca."

Na semana seguinte, a 27 de agosto, surgiu um terceiro artigo potencialmente incómodo para o republicano: "Sem vagas para negros. Como Donald Trump começou [no mundo dos negócios] e foi inicialmente acusado de preconceito".

Desde que abriu em setembro, o Hotel Trump International em Washington tem sido palco de manifestações a favor e contra o magnata

Desde que abriu em setembro, o Hotel Trump International em Washington tem sido palco de manifestações a favor e contra o magnata

Chip Somodevilla

O maior dos conflitos

As reações a estas e a outras investigações à forma como o candidato presidencial tem conduzido os seus negócios ao longo de décadas foram de espanto e revolta entre políticos e eleitores democratas e entre os republicanos que se recusam a dar o seu apoio formal ao candidato do partido. Mas aquela que será talvez uma das investigações mais impactantes da corrida presidencial parece não ter ganhado destaque no escrutínio.

"Não sei como é que isto não é um assunto maior, é de loucos", referiu em meados de agosto, à revista "Mother Jones", Jessica Tillipman, professora de Direito da Universidade George Washington, especializada em ética governamental. Por isto, a especialista referia-se ao facto de Trump estar, então, prestes a inaugurar um hotel em Washington num edifício histórico que está a arrendar ao Governo federal.

A inauguração do Hotel Trump International aconteceu a 12 de setembro deste ano, no antigo edifício dos Correios, datado de 1899, que só não foi demolido nos anos 1970 por causa dos esforços de preservação histórica por alguns ativistas e que, em 2010, por custar demasiado dinheiro em manutenção, foi objeto de um concurso público para dinamizar o espaço.

"Se for eleito Presidente, Donald Trump irá trazer com ele para a Casa Branca uma série de conflitos de interesses sem precedentes, graças às suas holdings em expansão e às suas várias dívidas, incluindo os mais de 100 milhões de euros que deve a um banco estrangeiro", escreveu a "Mother Jones", destacando o valor que o magnata deve neste momento ao Deutsche Bank.

"Mas o maior conflito deverá ser o projeto de 200 milhões de dólares [178 milhões de euros] que a empresa de Trump está a desenvolver a poucos quarteirões da Casa Branca, no antigo edifício dos Correios, uma propriedade histórica detida pelo Governo federal e que está arrendada à Organização Trump durante os próximos 60 anos. Parece provável, senão inevitável, que durante uma presidência Trump o Governo federal se encontre forçado a negociar com o comandante em chefia – ou com os seus filhos – sobre questões relacionadas com o novo Hotel Trump International."

Em causa está a disputa pelo espaço há quatro anos entre uma série de grandes empresas do sector hoteleiro e imobiliário. Por causa dos custos excessivos para manter o edifício antigo dos Correios em funcionamento, o Congresso pressionou a Administração de Serviços Gerais (ASG) – o ramo do Governo responsável pela gestão do património imobiliário do Estado –para que abrisse um concurso que revitalizasse o espaço.

Trump derrotou os rivais nessa corrida em 2012, incluindo as cadeias de hotéis Hilton e Hyatt, com uma proposta tão boa que parecia mentira: garantia uma renda três milhões de dólares [2,66 milhões de euros] por ano e a partilha de parte das receitas com o Estado. Na altura, aponta a "Mother Jones", os outros interessados levantaram dúvidas sobre a viabilidade desse acordo, que parecia ter pouca margem para lucro, e "alguns licitadores ficaram igualmente surpreendidos que o Governo tenha aceitado dar o contrato a Trump, que à data estava ativamente envolvido na teoria da conspiração sobre o Presidente Obama não ser um cidadão norte-americano."

Quem fez mais barulho foi o BP-Metropolitan Investors LLC, um consórcio que inclui os hotéis Hilton. Inicialmente o grupo interpôs recurso ao resultado do concurso junto da ASG (que manteve a decisão), dizendo que era impossível Trump conseguir cumprir as promessas do acordo. Matemática pura, disseram: apesar de o magnata prever gastar 200 milhões de dólares em renovações, mais 60 milhões do que a proposta do BPM, promete ainda assim receitas ao Governo federal que ultrapassam em larga escala os lucros calculados pelos rivais.

"Quando as promessas de receita de Trump à ASG se provarem inalcançáveis", sublinhou o consórcio na sua queixa formal, "a ASG e os contribuintes dos EUA ficarão apenas com um modelo económico irrealista e mais uma tentativa falhada de dar uma nova vida ao antigo edifício dos Correios. A ASG e os contribuintes não terão hipótese a não ser 'trocar' o 'grande acordo' irrealista que lhes foi prometido por um resultado muito mais vulgar ou até mesmo desastroso." Junto com a queixa, o BPM entregou mais de 50 páginas a detalhar anteriores falências e acordos falhados de Trump, bem como testemunhos negativos de antigos sócios do agora candidato presidencial.

Ainda o hotel não tinha sido inaugurado e Trump já estava a falhar vários pontos do acordo que lhe garantiu a gestão do edifício histórico até 2072. Quando apresentou o plano a concurso, o magnata disse que teria apoio financeiro da Colony Capital, uma empresa de investimento gerida por um amigo de longa data, que afinal não entrou no negócio – em vez disso, Trump foi pedir emprestados 170 milhões de dólares [151 milhões de euros] ao Deutsche Bank. Entretanto, a Organização Trump informou a ASG em fevereiro de 2013 que afinal não ia usar o arquiteto identificado na proposta inicial, comprometido, como a própria administração, com a proteção do património histórico e a preservação da integridade arquitetónica do edifício (a empresa do candidato presidencial e o ramo do Estado federal estão em disputa sobre este ponto desde então).

Quando Trump ganhou o concurso para ficar com o antigo edifício dos Correios, os rivais disseram que teria de cobrar valores exorbitantes que nem os hóteis mais luxuosos da capital norte-americana cobram, se queria cumprir o prometido. Em agosto, quando a "Mother Jones" investigou o assunto, o hotel ainda não tinha sido inaugurado. Esta terça-feira, uma busca nos sites do Hotel Trump International e do Fours Seasons em Georgetown mostram que ambos estão a cobrar a partir de 870 dólares [773 euros] por noite num dos seus quartos mais básicos.

Todo o enredo de mais este conflito de interesses deixam a descoberto não só a predisposição de Trump para negócios falhados à partida como a sua falta de transparência, e sobretudo de conhecimentos do mundo de negócios, precisamente aquele em que se move há décadas e com base no qual promete gerir os Estados Unidos.

Ao contrário de Hillary Clinton e de anteriores candidatos presidenciais, Trump ainda não publicou grande parte dos seus registos financeiros nem sequer falou em pormenor do que pretende fazer com os seus negócios caso vença as presidenciais. Os Presidentes dos EUA são sujeitos um enorme escrutínio de ética e deontologia e todos costumam pôr as empresas privadas que detêm sob controlo de partes terceiras, para que não haja o mínimo conflito ou interferência no cargo que lhes é confiado por uma maioria dos eleitores.

Sobre este último ponto, Trump disse apenas, algures durante a campanha, que vai "pôr os negócios num fundo gerido pelos filhos ou qualquer coisa assim", sem noção de que esse tipo de fundos cegos não podem ser controlados por indivíduos da família do detentor dos negócios. E com o antigo edifício dos Correios, na Avenida Pensilvânia, no coração de Washington D.C., é possível que venhamos a assistir a um total saque da instituição Estado pelo próprio Presidente se Trump vencer as eleições de 8 de novembro. "Estaríamos a enganar-nos a nós próprios ao pensar que o Presidente dos EUA não tem influência sobre isto", dizia em agosto Jessica Tillipman. "Ele não está a agir para se separar deste conflito de interesses e isso deixa uma porta aberta."

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