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O início do fim. Uma amante, um moderador, dois candidatos e a (não) importância dos factos

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Jamie Squire

A 40 dias das eleições presidenciais norte-americanas, Hillary Clinton e Donald Trump têm o primeiro frente a frente televisivo esta madrugada – um dos três que terão lugar nas próximas semanas, antes da ida às urnas a 8 de novembro

São, nas palavras de alguns, 90 minutos que podem mudar o mundo. Na próxima madrugada, quando muitos portugueses já estiverem a dormir, 100 milhões de espectadores, dentro e fora dos Estados Unidos, vão sintonizar a NBC para assistirem ao primeiro dos três debates televisivos entre Hillary Clinton e Donald Trump antes das presidenciais de 8 de novembro.

Antecipando o frente a frente, o site "Politico" questionava na sexta-feira até que ponto é que estes debates "realmente precisam de moderadores". O interesse em que não haja moderação é particular de Donald Trump, o magnata de imobiliário e ex-estrela de reality shows, que é acusado de fraudes e de mentiras descaradas e que, para surpresa de muitos, conseguiu a nomeação republicana para disputar a Casa Branca este ano.

"Donald Trump é uma criatura da televisão e enquanto criatura da televisão tem opiniões fortes sobre o que deve acontecer quando aparece em frente às câmaras", sublinhava o jornalista do "Politico" há quatro dias. "Para os debates presidenciais de 2016, [Trump] já fez uma variedade de sugestões de programação: um debate que não entre em conflito com os jogos da NFL [liga de futebol americano]; diferentes moderadores; ou nenhum moderador. 'Penso que talvez não devêssemos ter moderadores', disse no início deste mês. 'Deixem-me e à Hillary ficar ali sentados a debater'."

Quase em resposta a esse artigo, e com base nos debates republicanos durante o período das primárias e no historial de Trump de mentiras e fuga aos factos, que pouco ou nada importam para os seus apoiantes, a campanha da candidata democrata exigiu no sábado que Lester Holt, o jornalista que tem a seu cargo a ingrata tarefa de moderar o primeiro encontro, controle e confronte o candidato republicano sempre que necessário.

"[Clinton] vai responder sempre que ele deturpar o currículo dela, mas dada a natureza histórica das mentiras de Donald Trump, não pode ser só ela" a fazer esse trabalho, sublinhou Jennifer Palmieri, diretora de comunicação da campanha democrata, numa conversa telefónica com vários jornalistas a 72 horas do debate. "Se o moderador não estiver disposto a elevar a fasquia e a fazer frente às mentiras, isso dar-lhe-á [a Trump] uma vantagem muito injusta."

Palmieri e restante equipa temem que o frente a frente da próxima madrugada, noite desta segunda-feira nos EUA, acabe por ser igual ao último evento televisivo que juntou Clinton e Trump no mesmo estúdio, no início de setembro, em que, à vez, cada candidato respondeu a questões de veteranos do exército. Não houve frente a frente e, mesmo assim, o moderador do fórum, Matt Lauer, caiu em desgraça e enfrentou críticas fortíssimas por não ter sido duro o suficiente face às mentiras de Trump.

Matt Lauer, que moderou o fórum televisivo do início do mês, foi criticado por não refutaras mentiras de Trump

Matt Lauer, que moderou o fórum televisivo do início do mês, foi criticado por não refutaras mentiras de Trump

Alex Wong

As mulheres

Diz o "Politico" que, ao contrário dos últimos eventos televisivos em que Trump enfrentou rivais, a campanha do republicano está a preparar-se melhor do que nunca para o que aí vem. Segundo o site, os conselheiros do magnata populista passaram a última semana a delinear "um perfil psicológico" de Hillary Clinton com base numa análise detalhada do comportamento da ex-secretária de Estado em eventos desta natureza, incluindo a sua linguagem corporal e tiques verbais.

"Eles estão a assumir que um perfil psicológico pode prever como é que ela vai responder com base na sua linguagem corporal e outras coisas, e querem que Trump se concentre nisso e reconheça [esses tiques] para os usar como alavancagem", refere umas das fontes citadas pelo site, com a ressalva de que esta técnica pode não ser eficaz. "É uma pseudociência meio doida."

Para se acautelar, a equipa de Trump aproveitou este fim de semana o sururu gerado no Twitter sobre quem é que os candidatos iam convidar para os lugares da frente do debate. No sábado, o republicano escreveu na rede social que se Clinton convidasse o milionário Mark Cuban como estava previsto, ele iria enviar um convite a Gennifer Flowers para que se sente "ao lado dele".

Pouco depois, a campanha de Trump referia que Flowers, até este fim de semana desconhecida da maioria das pessoas fora dos EUA, é um exemplo perfeito dos "falhanços" de Clinton e prova de que a democrata não serve para a presidência. Flowers não é, como alguns poderiam presumir, uma figura da política norte-americana. É, sim, uma mulher com quem Bill Clinton, antigo Presidente e marido da candidata, manteve um caso extramarital durante 12 anos, a par do escândalo que envolveu a, à data, estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky.

Na manhã deste domingo, a campanha de Trump fez questão de sublinhar que nenhum convite formal foi endereçado a Flowers para que esteja presente no debate desta madrugada. No Twitter, contudo, a atriz e modelo tinha referido horas antes que estava pronta para apoiar Trump em direto na televisão.

Até ver, não é certo se Flowers estará ou não na fila da frente para o debate desta segunda à noite. A jogada, carregada do sexismo e misoginia há muito apontados a Trump, serviu para comprovar que o republicano está disposto a tudo para derrotar Clinton – cuja campanha lançou um novo anúncio de televisão no final da semana passada onde refere, precisamente, que o magnata não é homem para representar as "filhas" dos norte-americanos.

Num tom menos sério, até o Dalai Lama entrou na corrida presidencial norte-americana contra Trump a poucos dias do debate de hoje. Em entrevista ao programa televisivo "Good Morning Britain", o líder espiritual budista fez soltar gargalhadas quando imitou o candidato republicano, gozando com o seu cabelo e a sua "boca pequena".

Foi uma personificação digna de nota para Stephen Colbert, o famoso apresentador e comediante britânico responsável pelo programa de humor de maior sucesso nos EUA. "É uma muito boa impressão de Donald Trump", disse no seu "The Late Show" na sexta-feira. "Imaginem ser gozados e criticados pelo Dalai Lama. Fico a pensar: o que é que Trump terá feito ao Dalai Lama numa vida anterior? Partiria do princípio de que Trump teria uma afinidade com os budistas. Assumi que os budistas adorariam Trump porque se ele obtiver os códigos nucleares, será possível que todos nós alcancemos o nada."

As sondagens e os apoios

Trump e Clinton partem para este debate empatados nas mais recentes sondagens nacionais, com o inquérito de opinião conduzido para a ABC News e o "Washington Post" à cabeça, um que foi divulgado na sexta-feira e que mostra que a pequena margem que dava vantagem à democrata sobre o republicano há apenas um mês desapareceu. Neste momento, aponta o inquérito, estão num empate virtual com 41% de votos cada entre os eleitores registados.

Pela complexidade do processo eleitoral norte-americano, as sondagens nacionais por si só não servem, contudo, para antever quem vai ganhar as eleições dentro de 40 dias. Para ter uma hipótese de vencer, Trump precisa de liderar as votações em estados de redobrada importância como o Ohio, o Nevada, o Colorado e a Florida e é aí que o cenário fica mais confuso e difícil de prever. Uma sondagem da Bloomberg Politics divulgada em meados de setembro mostrava que o republicano lidera as intenções de voto em três dos estados, à exceção do Colorado; a confirmarem-se as previsões, são más notícias para Clinton.

Tão más como a divulgação de novos documentos internos da Comissão Nacional Democrata na semana passada pelo hacker Guciffer 2.0, que vêm reforçar as suspeitas de corrupção nos mais altos patamares do partido no poder para impedir uma vitória de Bernie Sanders nas primárias e garantir que seria a antiga chefe de diplomacia de Obama a vencê-las.

Tão más como a declaração de intenções de um democrata em tempos responsável pelos discursos de Robert F. Kennedy que, num artigo publicado na quarta-feira passada, explica porque é que vai votar em Trump e não em Clinton.

Tão más como as previsões de Allan Lichtman, o homem que nos últimos 30 anos nunca falhou em adivinhar os vencedores das eleições presidenciais norte-americanas e que, este ano, está convencido de que Trump será o próximo Presidente dos EUA.

A seu favor, Clinton já tem o "New York Times", que este fim de semana deu o seu apoio formal à candidata democrata, com o conselho editorial do diário a prometer um "artigo à parte" onde irá delinear porque é que Trump não pode ser Presidente. Tem o "NYT" e tem também o trabalho de campo que a sua campanha já está a preparar para angariar o máximo de apoiantes neste mês crucial antes da ida às urnas. Sobre isso e outros pontos onde Clinton poderá ir buscar força e votos, o "Daily Beast" escrevia este fim de semana – "Não entremos em pânico! Porque é que, apesar de tudo, Clinton vai ganhar".

O que vem a seguir

Com os 90 minutos de frente a frente esta madrugada, marca-se o início do fim da corrida presidencial. Na terça-feira os media vão encher-se de análises pormenorizadas da perfomance de cada candidato – e do moderador – para tentar apontar um vencedor e, a partir daí, reforçar uma ou outra teoria sobre quem vai ganhar. Ainda assim, será difícil sabê-lo já, quando desligarmos os televisores.

Até à ida às urnas, Clinton e Trump vão enfrentar-se mais duas vezes e, nos intervalos, estarão em campanha intensiva nos estados onde precisam de angariar mais apoiantes, sobretudo indecisos. Depois do debate desta noite/madrugada, na terça-feira da próxima semana, 4 de outubro, será a vez de os candidatos a vice-presidentes – o democrata Tim Kaine e o republicano Mike Pence – se defrontarem em direto na televisão, também na CBS, num debate moderado por Elaine Quijano.

Os aspirantes à presidência voltam depois a encontrar-se no domingo seguinte, 9 de outubro, em Washington, para um debate moderado por Anderson Cooper na CNN. O terceiro e último frente a frente televisivo entre Clinton e Trump acontece a 19 de outubro, quarta-feira, na Fox News, altura em que faltarão apenas 15 dias para as eleições.