Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O fator X das eleições americanas

  • 333

Polícias à procura de provas no local do atentado bombista de Chelsea (Manhattan), que fez pelo menos 29 feridos no dia 18

FOTO JUSTIN LAN/epa

A ameaça terrorista pode baralhar a corrida à Casa Branca e beneficiar um dos candidatos. Qual? Respondem peritos em segurança ouvidos pelo Expresso. Um artigo obrigatório em dia de debate Trump / Hillary (é já esta madrugada)

Por natureza, os zombies têm dificuldade em praticar ioga, usar ecrãs táteis e brincar com ioiôs, como se constata ao ler a banda desenhada “Zombies Have Issues”, de Greg Stones.

“Se Donald Trump fosse um morto-vivo, o seu maior problema seria permanecer em silêncio”, ironizou o autor esta semana, criticando a “reação extemporânea” do candidato republicano à Casa Branca aos atentados do passado fim de semana em Nova Jérsia e Nova Iorque. Stones não foi o único.

“Temos sido fracos”, escrevera Trump no Twitter, garantindo que o problema do terrorismo nos Estados Unidos está relacionado com a “imigração descontrolada”.

Mal as autoridades identificaram o suspeito, Ahmad Rahami, cidadão americano de 28 anos nascido no Afeganistão, acusado de uso de armas de destruição em massa e tentativa de assassínio de dois polícias, Trump concluiu: “Vai piorar. Temos de impedir que entrem no país.”

A tese surge quando Hillary desce um pouco nas sondagens e a atividade terrorista ameaça baralhar as previsões das presidenciais de 8 de novembro, dizem peritos ao Expresso. Segunda-feira realiza-se o primeiro de quatro debates entre os candidatos já depois da meia-noite, hora de Lisboa.

Peter Krause, professor de Ciência Política no Massachusetts Institute of Technology (MIT), explica-nos que “o terrorismo, enquanto ameaça real, e a mais credível de todas, tem o poder de mudar mentalidades”. É uma espécie de “fator x da campanha”.

Segundo ele, o fenómeno tornou-se um “facto deprimente” na sociedade americana. “Embora nenhum ataque se tenha aproximado da destruição do 11 de setembro, entre 2001 e 2011 sofremos 45 atentados e só no último ano tivemos perdas irreparáveis em San Bernardino e Orlando.”

Dado o impacto deste tipo de violência nas corridas eleitorais (o caso espanhol em 2004 é o mais conhecido, quando o PSOE ultrapassou o PP nos últimos três dias de campanha, marcados pelos atentados de Madrid), a candidata democrata, Hillary Clinton, optou pela cautela, falando de “uma luta geracional”. Trump recordou a promessa de proibir a entrada de muçulmanos no país.

Quem é beneficiado?

O candidato republicano insistia em bater na mesma tecla e a rival criticou-o pelo uso de um “tipo de linguagem que só ajuda a fortalecer a mensagem do Daesh”.

Numa entrevista ao Expresso Diário em junho, o general Michael Hayden, antigo diretor da CIA e da NSA, usou este mesmo argumento, explicando que os discursos de Trump tornaram, por si só, a América menos segura. “Encaixam na narrativa deles de que o Islão está a ser perseguido pelo Ocidente e, também, porque quebra laços essenciais entre uma das maiores religiões e a América. Trump é um excelente instrumento de propaganda para o Daesh.”

Perante estas duas reações distintas aos ataques de Nova Jérsia e Nova Iorque, pergunta-se qual delas convence o eleitorado americano. O ex-analista do Departamento de Defesa Phillip Lohaus, atual membro do American Enterprise Institute, garante-nos que, “se ocorrerem mais ataques, Trump entra na Casa Branca”, mas dos peritos ouvidos pelo Expresso é o único que pensa assim.

“Sondagens e estudos académicos indicam que os americanos preferem a consistência de Hillary aos discursos inflamados de Trump. Noutras matérias, como economia, passa-se o contrário, com grande parte dos inquiridos a preferir Trump por ele ser um empresário de sucesso e muito rico. A política do medo não favorece o candidato de direita nestas eleições”, explica Emily Thorson, professora no Boston College e autora de “Belief Echoes: The Persistent Effects of Corrected Misinformation”, um trabalho sobre os efeitos da desinformação na política.

No entanto, a autora avisa que Trump pode alterar a imagem e surpreender a campanha adversária. “Tem vindo a corrigir o tom no último mês, com o objetivo de apelar ao eleitorado mais moderado, embora, aqui e ali, ele, ou alguém perto dele, continue a cometer gafes.”

Foi o caso esta semana, quando o seu filho mais velho, Trump Júnior, comparou imigrantes a doces envenenados. “Se vos der uma taça cheia de Skittles e vos disser que três são mortais, vocês esvaziariam a taça à mesma? Eis o nosso problema com os refugiados.” O fabricante das guloseimas, a Mars Inc., respondeu igualmente via Twitter: “Os Skittles são doces e os refugiados são pessoas.”

Por entre risos, Thorson reflete no que acabou de dizer e reconhece que episódios deste género dificultam os tais esforços de mudança de perfil. De resto, Hillary insistiu, na segunda-feira, que o magnata nova-iorquino é “doido varrido”.

Ela, a predadora

Elizabeth Zechmeister e Jennifer Merola, professoras nas Universidades Vanderbilt e da Califórnia, respetivamente, descobriram também que, perante a ameaça terrorista, os eleitores tendem a apoiar o candidato que apresente soluções em vez daquele que usa adjetivos e hipérboles.

As autoras do livro “Democracy at Risk: How Terrorists Threats Affect the Public”, garantem ao Expresso que a experiência da antiga secretária de Estado e senadora de Nova Iorque pesa bastante. “Entre os dois, Hillary é claramente vista como ‘o predador’, o que lhe dá vantagem”, esclarece Merola.

Mais uma vez, Lohaus contra-argumenta: “O problema é que o eleitorado pode reagir de forma diferente caso a violência atinja patamares parecidos com os da Europa. Não me admirava nada que, perante novos ataques, as pessoas começassem a olhar para o muro na fronteira com o México e para o bloqueio à entrada de muçulmanos como boas ideias.”

Esta relação de causa/efeito não é clara para Emily Thorson. “Uma mensagem positiva, como a de Barack Obama em 2008 e 2012, tem maior poder mobilizador do que uma negativa. Esta última, baseada no medo, cria ansiedade, leva as pessoas a afastarem-se e a não participar. Trump continuará a mobilizar a base, a mesma que bateu recordes de votação durante as primárias republicanas, mas isso não chega numas eleições nacionais.”