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Internacional

Estados Unidos acusam Rússia de “barbárie” em Alepo

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BRYAN R. SMITH

Em encontro de emergência do Conselho de Segurança, embaixadora norte-americana acusa Moscovo de mentir aos parceiros da ONU. Rússia diz que alcançar a paz na Síria é agora “uma tarefa quase impossível”

A embaixadora dos Estados Unidos na ONU acusou este domingo a Rússia de alimentar a "barbárie" na província síria de Alepo, durante uma reunião de emergência do Conselho de Segurança convocada pelos EUA, França e Reino Unido, perante a intensificação dos bombardeamentos naquela zona.

No encontro, Samantha Power acusou a Rússia aliada de Bashar al-Assad de ter mentido aos parceiros do Conselho sobre a sua conduta na Síria, em particular sobre o ataque de há uma semana contra uma equipa do Crescente Vermelho e da ONU numa pequena localidade da província de Alepo. Os dois Governos, acusou a diplomata, estão a "devastar o que resta da icónica cidade do Médio Oriente".

Moscovo garante que a campanha renovada de ataques aéreos pelas forças sírias, depois de um acordo de cessar-fogo falhado que ficou marcado pelo ataque a uma equipa de ajuda humanitária que provocou 20 mortos, tem como objetivo "remover os terroristas de Alepo" causando o mínimo possível de baixas civis.

Vitaly Churkin, o embaixador russo na ONU, não explicou se as forças russas estão envolvidas nessa operação do Governo sírio. Em vez disso, sublinhou que alcançar a paz é "agora uma tarefa quase impossível" e acusou os grupos armados da oposição a Assad de sabotarem a cessação de hostilidades que esteve em vigor até há uma semana, relançando os ataques no leste da província, que nos últimos dias provocaram a morte de mais de 200 civis, pelo menos metade deles menores.

Este domingo, a organização sem fins lucrativos Save the Children citou funcionários e voluntários no terreno dizendo que metade dos corpos já retirados dos escombros no leste de Alepo são crianças. Fontes de um hospital da região disseram ao grupo que 43% dos feridos que deram entrada ali, no sábado, eram crianças e uma equipa de emergência de uma ambulância síria diz que mais de 50% das pessoas resgatadas por ela durante o fim de semana tinham menos de 18 anos.

"Uso sistemático e indiscriminado de bombas incendiárias pode corresponder a crime de guerra", avisa Staffan de Mistura

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AMEER ALHALBI

No encontro do Conselho de Segurança no domingo, Power acusou a Rússia de não fazer o suficiente para travar a matança de civis às mãos do regime sírio seu aliado, dizendo que Moscovo "tem há muito o poder de parar este sofrimento". Em vez da paz, referiu a embaixadora norte-americana, "a Rússia e Assad fazem a guerra. Em vez de fazerem chegar ajuda humanitária aos sírios, a Rússia e Assad estão a bombardear hospitais e equipas de emergência médica."

No mesmo encontro, Power exigiu que o Conselho da ONU "tenha a coragem de dizer quem é responsável" pela situação catastrófica em Alepo e que, "a uma só voz, diga à Rússia para parar".

Nos corredores da ONU, aponta a BBC, vários representantes sugeriram que a Rússia pode ter cometido um crime de guerra ao bombardear a equipa de ajuda humanitária há uma semana, num ataque que matou pelo menos 20 civis e que destruiu 18 dos 31 camiões do Crescente Vermelho Sírio, que transportavam comida, roupa e medicamentos angariados pela ONU para a cidade sitiada de Alepo. Moscovo recusa responsabilidades e diz que o incidente ou foi resultado de fogo rebelde ou causado por um drone (avião não-tripulado) dos EUA.

No encontro deste domingo, o representante das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, sublinhou que pelo menos 213 civis foram mortos desde o início da ofensiva renovada há uma semana, muitos deles mulheres e crianças, no que diz ser um "novo patamar de horror" na guerra civil, atualmente no sexto ano consecutivo.

Mistura sublinhou ainda que informações recentes recolhidas no terreno dão conta de que a Rússia está a usar armas incendiárias contra os cerca de 300 mil civis encurralados ali pelo regime sírio, bombas que "criam bolas de fogo de tal intensidade que iluminam a profunda escuridão de Alepo como se fosse de dia".

O representante diplomático pediu ainda ao Conselho que recomende pausas de 48 horas a cada semana para que as equipas humanitárias possam alcançar o leste de Alepo. Churkin diz que existe um corredor humanitário a ligar à cidade para que os civis possam fugir, mas acusa os rebeldes da oposição a Assad de bloquearam essa passagem.