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País Basco. Íñigo Urkullu: a vitória do nacionalista sereno

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Iñigo Urkullu comemora a vitória do seu partido nas eleições regionais no País Basco, este domingo

VINCENT WEST / REUTERS

Discreto e moderado, o presidente do governo regional basco venceu as eleições com um discurso tranquilo, focado nos problemas reais da população e metendo o independentismo na gaveta. Poderá ser decisivo para desbloquear o impasse do poder central, que dura há um ano

Na noite de sexta-feira, último dia da campanha para as eleições regionais do País Basco, o Expresso cruzou-se em Bilbau com Íñigo Urkullu. Com a serenidade que o caracteriza, o lehendakari (chefe do governo regional) interessou-se pelo trabalho do enviado – “que tal lhe correu?” – e, sem grande euforia, expressou confiança no resultado de hoje. Contados os votos, prova-se que tinha razão. O seu Partido Nacionalista Basco (PNV, conservador e nacionalista moderado) venceu a contenda com 37,7% dos votos, um resultado que, embora aquém da maioria absoluta, deve bastar para mantê-lo no cargo, que ocupa desde 2012.

O panorama político pouco mudou na região. Urkullu manteve o tom discreto e tranquilo de há quatro anos, afastando-se do independentismo mais histriónico e apostando em temas sociais e económicos. Fazendo valer o currículo desta legislatura (em que a região recuperou da crise mais depressa do que Espanha no seu todo), conseguiu que o PNV ganhasse um deputado, passando de 28 para 29 no parlamento regional, que tem 75 assentos. É altamente provável, pois, que permaneça no poder, embora necessite de pactuar com outras forças. As suas primeiras palavras após o anúncio do triunfo foram: “Agradeço a todos o clima da campanha e convido-os a continuar a dialogar para construir o futuro”.

Em segundo lugar ficou a esquerda separatista, encarnada pelo partido Euskal Herria Bildu )EH, País Basco Unido), com 21,2% dos sufrágios e 17 deputados. Seria suficiente para formar uma maioria com o PNV, mas é improvável, hoje como em 2012, que tal maioria aritmética se traduza em ação política. A postura do EHB (herdeiro do Batasuna, antigo braço político da organização terrorista ETA) é mais radical no independentismo, face ao pragmatismo dialogante do PNV.

Embora tenha apresentado como candidato Arnaldo Otegi, figura mítica com anos de cadeia por associação à ETA (que a justiça desqualificou por esse motivo), o partido perdeu quatro deputados. Ainda assim, Otegi considerou a noite de hoje “o começo de um caminho rumo ao céu”. Palavras algo enigmáticas da parte de quem não é indispensável para Urkullu governar. Este deve preferir aliar-se ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, social-democrata), que ficou em quarto lugar com 11,9% dos votos e 9 deputados (perdeu 7). Igual representação teve o Partido Popular (PP, direita, no poder em Espanha), com 10,2% dos sufrágios (tinha 10 deputados).

Chave basca para a crise espanhola?

PSOE e PP foram ultrapassados pelo Podemos (esquerda populista), força emergente que nas últimas legislativas fora a mais votada na região. Desta vez obteve 14,8% dos votos e 11 assentos no parlamento regional, o que só confirma o desgaste dos dois maiores partidos espanhóis (PP e PSOE) em terras bascas. Outra força recente a nível nacional, o centrista Cidadãos, não elegeu qualquer deputado na região.

Os resultados bascos podem ter influência na resolução da longa crise política espanhola. Tendo realizado eleições legislativas em dezembro de 2015 e junho de 2016, o país ainda não tem um Governo empossado, pelo que o primeiro-ministro Mariano Rajoy (PP) se mantém em funções de gestão, impedido de tomar decisões relevantes (por exemplo, está impossibilitado de aprovar o orçamento para 2017).

Se o PNV recorrer ao apoio do PSOE ou do PP, a nível regional, para reconduzir Urkullu, os cinco deputados que os nacionalistas bascos têm no Congresso dos Deputados podem associar-se a um dos partidos nacionais para investir o próximo Executivo. Rajoy já tentou uma vez ser entronado como líder do Governo. Apoiado pelo seu PP (137 deputados), pelo Cidadãos (32) e pela Coligação Canária (1), faltaram-lhe seis votos para alcançar o limiar para ser empossado.

Se o PNV apoiar Rajoy, passa a faltar ao primeiro-ministro apenas um voto. Se, pelo contrário, os bascos optarem pelo PSOE, somarão porventura os seus cinco parlamentares aos 85 dos socialistas, cujo líder, Pedro Sánchez, aspira a formar Governo com o Podemos (71 deputados) e outras forças, possivelmente PNV e nacionalistas catalães. Em todo o caso, o mau desempenho do PSOE no País Basco e na Galiza, este domingo, reduz as hipóteses de Sánchez vir a ser primeiro-ministro, até porque sofre intensa contestação interna. Muitos dirigentes do PSOE consideram a sua proposta de Governo inviável e preferem que o partido deixe governar Rajoy, o mais votado em dezembro e junho, abstendo-se na sessão de investidura.

Sánchez muito contestado

A alternativa, se não houve resolução até 31 de outubro, são novas legislativas, as terceiras num ano. Todos os partidos dizem querer evitar esse cenário, mas ele não pode, seriamente, ser posto de parte. Rajoy já se declarou pronto para ir à luta, prevendo que o PP até crescerá (como aconteceu entre a primeira e a segunda ida às urnas).

O PSOE, que em dezembro tivera o seu pior resultado de sempre, desceu mais ainda passados seis meses. As eleições de hoje nada fizeram para paliar essa sangria de votos. No País Basco o partido, que governou entre 2009 e 2012, é hoje a quarta força política. Na Galiza, viu o PP repetir a maioria absoluta com que governa desde há sete anos. Dificilmente estes números darão argumentos a Sánchez para construir uma “geringonça” alternativa a Mariano Rajoy.