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Marraquexe: À volta de uma praça

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Foto 1

ana baião

Durante o Ramadão as noites junto à mesquita têm um lado mágico e arrepiante

O calor vem de todos os lados e os 40 graus deixam claro que não foi a melhor altura para conhecer Marraquexe. É junho e é véspera do Ramadão. A temperatura é tão alta que na icónica praça Jemaa el-Fna (foto 1), no centro da cidade, se veem as ondas de calor refletidas pelo alcatrão. Quem conhece bem a cidade tinha-me dado o conselho de a ver de manhã, de tarde, quando o sol se põe, e à noite. “À noite é uma maravilha. Vais ver encantadores de serpentes e contadores de histórias, tens de comer uma tagine, beber o maravilhoso sumo de laranja e ver o por do sol no ponto mais alto a que consigas chegar.”

Foto 2

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Ana baião

À chegada, no primeiro dia, foi preciso aprender a reagir aos milhares de motos a apitar que passam em todas as direções (foto 3), em espaços ínfimos e carregados com famílias, televisões, cabras e antenas parabólicas. Depois, a busca por uma sombra encaminha-nos para os labirínticos souks (os mercados tradicionais onde se regateia tudo o que se compra). São muitos dentro da Medina (foto 2), a parte velha da cidade: o souk dos tecidos, dos tapetes, das peles, das tinturarias, das bijuterias, das especiarias ou das babouches (os tradicionais sapatos árabes feitos de couro em todas cores e tamanhos).

Há que desaguar novamente na praça Jemaa el-Fna, de preferência antes que o sol se ponha (dezenas de outros turistas estarão a fazer exatamente o mesmo). O céu fica cor de rosa e a praça muda: de um emaranhado de estruturas metálicas surgem toldos de restaurantes, cada um com a sua banca de comida, mesas e bancos corridos. Nada melhor para entrar na cozinha marroquina do que lamber os dedos depois de uma espetada de frango ou borrego carregada de cominhos.

Foto 3

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ana baião

É então que aparece na praça tudo aquilo de que me falaram: a música, os contadores de histórias, as cobras e os macacos, as mulheres marroquinas a quererem fazer pinturas com hena nas mãos, tudo numa permanente agitação de quem atravessa a praça a pé, de bicicleta, de moto ou de carroça.

O melhor veio no primeiro dia do Ramadão, que altera ligeiramente os horários de funcionamento na cidade e que consegue transformar um colorido souk num lugar deserto e cinzento quando chega a hora da oração. Caminhei em direção à Kutubiya, a maior mesquita da cidade com um minarete de 69 metros de altura, a dois minutos da praça Jemaa el-Fna. Nessa primeira noite, com o tempo já fresco, o trânsito silenciou-se e também na direção da mesquita caminhavam muitos homens vestidos de branco num burburinho muito baixo. É então que se veem milhares de pessoas de branco, impecavelmente alinhadas, ajoelhadas em frente ao minarete. O silêncio, só interrompido pela voz do imã, é arrepiante. Descobriria mais tarde que todas as noites durante o Ramadão se realiza uma oração noturna que junta milhares de pessoas e a que dão o nome de tarawih.

Fora da praça, vale a pena visitar o Museu de Marraquexe, a madrassa Ben Youssef, espreitar as muralhas da cidade e algumas das suas principais portas que datam do século XII. Há muitos outros museus — como o de Arte Islâmica — a visitar na cidade e há diferentes jardins, como o Majorelle, que ajudam a respirar (à sombra) nos dias de maior calor. Apanhar um táxi em Marraquexe, negociando o preço da viagem logo à partida e metendo conversa em francês com os taxistas, é uma experiência com a qual se aprende sempre — por mais vezes que se a repita.

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Café des Épices

É muito conhecido na cidade, aparece em guias turísticos, mas consegue mesmo assim ser um bom momento de paragem — e de passagem — entre as várias horas a caminhar nos labirínticos souks. Fica no largo Rahba Lakdima, não muito longe da praça central. Chegar lá, contudo, não foi pensado, foi uma surpresa. Depois de atravessar vários souks, já à procura de uma saída, fui ter precisamente à entrada do Café des Épices. Foi uma espécie de oásis no meio do calor e do caos. Vale pela simpatia dos funcionários, pela rede de internet, que permite descarregar mais umas dicas para continuar a conhecer a cidade, e pela comida. No último andar do café há um terraço simpático, que permite ter uma visão sobre tudo o que nos rodeia.Café des Épices.

É muito conhecido na cidade, aparece em guias turísticos, mas consegue mesmo assim ser um bom momento de paragem — e de passagem — entre as várias horas a caminhar nos labirínticos souks. Fica no largo Rahba Lakdima, não muito longe da praça central. Chegar lá, contudo, não foi pensado, foi uma surpresa. Depois de atravessar vários souks, já à procura de uma saída, fui ter precisamente à entrada do Café des Épices. Foi uma espécie de oásis no meio do calor e do caos. Vale pela simpatia dos funcionários, pela rede de internet, que permite descarregar mais umas dicas para continuar a conhecer a cidade, e pela comida. No último andar do café há um terraço simpático, que permite ter uma visão sobre tudo o que nos rodeia.

Artigo publicado na edição do Expresso de 24 de setembro de 2016

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