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A jangada de pedra

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O ‘Brexit’ separou o Reino Unido da constelação da União Europeia. Terá ficado à deriva no nevoeiro, como a Península Ibérica na história de Saramago? E o que acontece aos portugueses que lá estão? Apesar da surpresa inicial, poucos creem que a separação da Europa seja total ou até que venha a acontecer de todo

Ricardo Nabais

Era uma vez uma ilha. Não era uma ilha qualquer, daquelas explicadas nos manuais, rodeadas de água por todos os lados. Era, na verdade, um ‘continente’. Naquela ilha, dizia-se, o sol nunca se punha, porque a influência dos seus habitantes, dos seus costumes, da sua língua e das suas armas chegavam aos quatro cantos do mundo, de Oriente a Ocidente.

Um poucochinho mais a sul estendia-se a Europa, uma amálgama de nações que passaram a vida a guerrear-se e a querer impor-se umas às outras pela força. Incivilidades que nunca tinham passado pela cabeça aos habitantes da ilha. Afinal, a Europa é que era a pobre terra insular, separada da civilização.

Esta parábola é uma caricatura, como é óbvio. Mas com o resultado surpreendente do referendo de 23 de junho, em que 52% dos habitantes da ilha com idade de votar decidiram separá-la da União Europeia (UE), ganhou força. A quente, a Comissão Europeia vituperou os britânicos que, por sua vez, acordaram com tal surpresa que muitos adeptos do ‘leave’ (o voto pelo abandono da UE) acabaram por confessar-se arrependidos. Para os portugueses que fizeram da Grã-Bretanha a pátria de adoção, a surpresa foi, afinal de contas, relativa. “Era perfeitamente previsível. A campanha do ‘Brexit’ foi muito eficaz, usando tudo, não olhando a meios, e com uma figura tão popular como Boris Johnson declarando-se a seu favor exatamente no momento em que a campanha precisava de um último empurrão”, confessa o artista plástico João Penalva, que, pelos 40 anos que leva de residência em Londres, foi praticamente testemunha de dois referendos pela permanência ou saída britânica da UE.

União. “A população do Reino Unido sempre foi ambivalente em relação à integração na Europa”, admite Hélder Macedo, professor emérito de Português no King’s College de Londres

União. “A população do Reino Unido sempre foi ambivalente em relação à integração na Europa”, admite Hélder Macedo, professor emérito de Português no King’s College de Londres

gonçalo rosa da silva

O primeiro realizou-se em junho de 1975, pouco mais de dois anos após a adesão. É evidente que o ambiente político de então era consideravelmente diferente e os medos eram outros.

A imigração ainda não era tema de debate — os europeus não viam as ilhas britânicas como alternativa para o trabalho, por exemplo —, mas o receio de que a economia fosse ‘diluída’ em decisões europeias adversas e que o modelo britânico fosse posto em causa falava então mais alto.

E os lados da contenda eram precisamente os inversos: os trabalhistas, muito silenciosos na campanha de 2016, eram pelo ‘leave’ em 1975. Os conservadores, com a futura primeira-ministra Margaret Thatcher à cabeça, eram pelo ‘remain’. Hoje todos conhecemos a distribuição de forças: o Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP, na sigla em inglês) foi o pavio desta bomba-relógio. Desde sempre que o seu líder, Nigel Farage — ironicamente, deputado europeu — arquitetou uma campanha para a saída do Reino Unido do que considerava ser o espartilho legislativo de Bruxelas, acenando com os milhares de refugiados em Calais, do outro lado da Mancha mas ali à porta, ansiosos por entrar no país e ‘pôr em perigo’ o modo de vida britânico. Com a vitória política, acabou por retirar-se, bem como Johnson, que acabou ‘reciclado’ para o novo Governo conservador de Theresa May.

Surpresa. “Sempre me senti em casa em Londres. E em qualquer parte do Reino Unido”, garante a pintora Paula Rego, que ficou espantada com o resultado do referendo

Surpresa. “Sempre me senti em casa em Londres. E em qualquer parte do Reino Unido”, garante a pintora Paula Rego, que ficou espantada com o resultado do referendo

josé carlos carvalho

O derrotado, dizem todos os entendidos, é o antecessor da pasta de primeiro-ministro, David Cameron, que fez ponto de honra na realização do referendo para a sua reeleição, em 2015. Esta derrota dá-se, também, pela falta de um plano B, nota Penalva: “Surpreendeu-me antes a leviandade de Cameron, a irresponsabilidade de propor este referendo convencido de que o ‘sim’ ganharia, e sem nenhuma estratégia para o caso de o ‘Brexit’ vencer”. O resto da história já sabemos: Cameron demitiu-se, assumindo a derrota no referendo como uma débâcle pessoal e do seu Governo. Quem passou pelos dois referendos e conhece o país é certamente Hélder Macedo, professor emérito de Português no King’s College de Londres. Chegou à capital em 1960 e foi jornalista da secção portuguesa da BBC durante 11 anos, tendo depois obtido o doutoramento na Universidade de Londres em 1974. Macedo é também poeta e romancista, e privou, entre outras figuras do meio literário britânico, com a Nobel Doris Lessing. Fez um intervalo no exílio londrino após o 25 de Abril, tendo sido nomeado diretor-geral dos Espetáculos em 1975 e secretário de Estado da Cultura no Governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, em 1979.

Macedo partilha a visão londrina — tendencialmente aberta à Europa, como se vê, de resto, pelos resultados do referendo em Londres, onde o ‘remain’ venceu — para comentar o divórcio europeu do país. “A população do Reino Unido sempre foi ambivalente em relação à integração na Europa. E também muitos políticos (tanto à esquerda como à direita) mantiveram uma resistência permanente à ideia”, admite. Será a tal ‘síndroma de ilha’ ou os tempos são outros para explicar a desconfiança em relação ao Continente? “O advento do UKIP contribuiu decisivamente para que essa latente hostilidade se exacerbasse, tornando a endémica xenofobia mais visível e levando a que o governo de Cameron a tornasse mais ‘respeitável’ com o referendo”. A vitória do ‘leave’ tem, assim, desfecho lógico na visão de Macedo: “A ‘Europa’ pôde assim ser transformada no bode expiatório de todos os males do Reino Unido”.

Libra a descer

A veterania na permanência na ilha é partilhada pela pintora Paula Rego, que diz ao Expresso que ostenta, “com muita honra”, o passaporte britânico desde 1959, quando se casou com Victor Willing, também artista plástico. Para ela, no entanto, feitas as contas, “o resultado foi um espanto”, especialmente, mais uma vez, se as coisas forem vistas da perspetiva da capital. “Sempre me senti em casa em Londres. E em qualquer parte do Reino Unido”.

Noutro extremo etário e de ofício, José Fonte, defesa-central recém-campeão europeu pela seleção portuguesa, está no Reino Unido há quase dez anos. Formado no Sporting, era jogador do Benfica quando chegou por empréstimo ao londrino Crystal Palace em 2007. Acabou por fixar-se neste clube até, em 2010, rumar a Southampton, onde ficou até hoje.

O jogador também confessou surpresa pelo resultado, até porque não se encontrava no país, já estava em trabalhos com a seleção em França, no tal Europeu de boa memória. “Até foi o Ricardo Carvalho quem me deu a informação: ‘Já viste? O Reino Unido saiu da União Europeia! E agora?’. Não queria acreditar”. Tal como quase todos os cidadãos que seguiram o referendo até determinada hora (tardia) da noite, era certo que o ‘sim’ à UE estava garantido. Com o volte-face de madrugada, os que não fizeram a direta a acompanhar os resultados acordaram noutro planeta no dia 24. A questão económica foi a primeira preocupação do defesa, cuja angústia terá sido secundada por milhões de outros cidadãos, alguns — atónitos, por certo — na área financeira. “Tinha, inclusive, planeado fazer algumas transferências para Portugal, mas pensei que se esperasse a libra subiria um pouco mais e seria mais benéfico para mim. Para grande surpresa aconteceu precisamente o oposto”. Fonte considera, aliás, que a questão das finanças será a maior preocupação para os tempos que aí vêm: “No restante manter-se-á tudo igual. Estou em Inglaterra há nove anos, sou casado com uma inglesa, tenho dois filhos e se quiser a qualquer momento posso pedir também para mim a cidadania britânica”.

Futuro. “Estou em Inglaterra há nove anos, sou casado com uma inglesa, tenho dois filhos e se quiser a qualquer momento posso pedir também para mim a cidadania britânica”, admite o futebolista José Fonte, defesa-central do Southampton e da seleção portuguesa

Futuro. “Estou em Inglaterra há nove anos, sou casado com uma inglesa, tenho dois filhos e se quiser a qualquer momento posso pedir também para mim a cidadania britânica”, admite o futebolista José Fonte, defesa-central do Southampton e da seleção portuguesa

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Se houve surpresa no desfecho, a verdade é que a capacidade de integração da sociedade britânica acaba por ser louvada por todos os inquiridos pelo Expresso. Até João Magueijo, físico teórico radicado há cerca de duas décadas em Londres — onde leciona e é investigador na sua área no Imperial College — e que se notabilizou por escrever “Mais Rápido Que a Luz” em 2003, pondo em causa um dos pilares da teoria da relatividade, acredita na capacidade negocial dos súbditos de sua majestade.

Magueijo esteve na berlinda mediática novamente em 2014, não por elevadas questões de ciência, mas quando deu à estampa um tratado de amor-ódio à ilha, inspirado por uma espécie de crise matrimonial, ironizava na altura. Quando “Bifes Mal Passados — Passeios e Outras Catástrofes por Terras de Sua Majestade” saiu depois em Inglaterra, chegou a ser ameaçado por várias vias, virtuais e reais.

Para dar ideia do tom do livro, basta citar uma breve passagem que resume as goradas tentativas de um turismo agradável por aquelas paragens cinzentas: “Todas as minhas experiências de férias britânicas foram invariavelmente pavorosas, vomitáveis, aberrantes. Más, mas tão más, que às tantas uma pessoa desata a rir daquilo tudo, com aquelas gargalhadas amargas de quem sabe que está na merda e começa a achar piada à situação. Não admira que haja tantos cómicos ingleses, e que o seu sentido de humor seja lendário: o que é que estes desgraçados hão de fazer?”, queixa-se.

Será que, com a questão do ‘Brexit’ e as notícias de ataques e insultos a estrangeiros nos dias que se seguiram ao referendo, alguém se terá lembrado de ir às prateleiras e usar o livro como forma de o hostilizar? A resposta é pronta: “Não. É verdade que recebi um grande número de ameaças quando a imprensa inglesa, sem ler o livro, se lembrou de armar escândalo. Mas estas coisas são tão efémeras como desonestas, felizmente”. Na verdade, a conclusão da obra de Magueijo é uma reconciliação, um reconhecimento de tudo o que a Grã-Bretanha deu ao mundo (e não foi pouco, lembra o autor).

Brincadeiras à parte, o cenário complica-se quando se sabe que o financiamento para a ciência é hoje matéria sensível e, acima de tudo, muito centrada na UE. As contas para os fundos para a ciência ainda são feitas, na sua maioria, para os 27. Quando o Reino Unido acionar o tal artigo 50º do Tratado Europeu — o que define os termos da saída de um Estado-membro — a conta pode passar a ser feita a 26. Passando a estrangeiros, cientistas britânicos na Europa e de outras nacionalidades no Reino Unido podem vir a ter problemas administrativos e burocráticos súbitos. Sorriem os cientistas do Continente, choram os das ilhas. “Vai ser muito mais complicado, de facto, e talvez por isso tantos académicos eram tão ferozmente contra o ‘Brexit’. E não é só a nível de investigação, mas também de ensino”. No entanto, o investigador português está otimista: “Mas claro que vai ser possível continuar a fazer ciência. Aliás, acho que a ciência inglesa funciona muito melhor em cenários de grande adversidade, como durante o reinado de Mrs. Thatcher”.

Até porque, lembra, e a opinião é partilhada pelos restantes inquiridos, é pouco provável que a separação seja integral ou completamente levada à letra. É como se um dos cônjuges quisesse pôr fim ao casamento mas se recusasse, ao mesmo tempo, a assinar os papéis de divórcio. “Acho que um ‘Brexit’ puro e duro nunca poderá acontecer. Imagino que se tentará seguir o modelo norueguês, ou algo ainda mais aguado. Os ingleses são especialistas em prestar lip service às coisas: montar uma fachada de mudança sem de facto mudar nada”, completa Magueijo. De qualquer modo, o processo não deixará de ser um “pesadelo logístico” para as entidades patronais, “que terão de arranjar vistos onde eles antes não eram precisos”. No caso do Imperial College, a solução deve passar por uma “nacionalização coletiva” de investigadores e docentes estrangeiros. Mas o físico não a deve aceitar, como respondeu ao Expresso.

A naturalização parece ser um antídoto rápido para o que aí vem, sobretudo porque o futuro é tão incerto quanto o clima das ilhas. Maria Manuel Lisboa também se integrou no país pela via académica: ensina literatura portuguesa, brasileira e africana de expressão lusófona em Cambridge. Ainda antes da confusão política gerada pelo referendo, há três anos, pediu a nacionalidade.

Afinal, chegou ao Reino Unido com 15 anos, em 1978, e por lá concluiu os estudos e começou a ensinar. Antes de Cambridge, esteve em Newcastle, no Norte. Em tantos anos de vivência britânica, nunca sentiu animosidade dos autóctones por ser estrangeira. Mas, sublinha, “não, ou ainda não”. “Muito pelo contrário, as pessoas passam a vida a pedir-me desculpa pelo voto dos seus conterrâneos. Eu é que já ordenei, de forma muito pouco amistosa, a um colega meu que votou para sair da UE que nunca mais se atrevesse a dirigir-me a palavra”.

O statement de Maria Manuel Lisboa parece ter surtido efeito: “Dizem-me que ele ficou muito triste, mas paciência, não é? You can’t please them all”. E não parece ter ficado por aqui. A professora universitária tem uma filha nascida em Inglaterra, mas que vai agora pedir a nacionalidade portuguesa como “gesto de protesto” contra o resultado do referendo. “Todos os meus amigos britânicos com duas gotas de sangue irlandês ou de outro país vão também adquirir outra nacionalidade pela mesma razão”. A verdade é que ao enorme “embaraço” e mesmo à “fúria” sentida por muitos britânicos pró-‘remain’ somam-se outras dificuldades no horizonte próximo. E não se trata apenas de questões de nacionalidade. Mas os clichés ‘keep calm’ (mantenha a calma) e ‘life is short’ (a vida é curta), tão britânicos, parecem manter-se entre quem lá está há muito tempo. A banca e as multinacionais, como já foi amplamente noticiado, vislumbram mudanças de sedes para o continente europeu, com a livre circulação e a inexistência de barreiras ao tráfego de capitais. Os mercados responderam nervosamente ao ‘Brexit’, como já seria de esperar. Talvez por isso dois nomes portugueses ligados à banca britânica remeteram-se ao silêncio perante estas questões.

O som do futuro

Noutra escala financeira muito menor está decerto o DJ Rui da Silva, que rumou a Londres em 1999, tendo antes contribuído para deixar a semente da música de dança em Portugal. Projetos como os Underground Sound of Lisbon (com DJ Vibe) ou a editora Kaos Records testemunham-no. Na cena londrina, Rui da Silva alcançou sucesso cedo, logo no início do século, com o single ‘Touch Me’, com a britânica Cassandra Fox. Ao fim de todo este tempo de integração, o veredicto de 23 de junho apanhou-o de surpresa, confessa. Mas não espera que a saída de cena do Reino Unido lhe altere os planos que já tem. “Isso seria mau sinal”.

Seja como for, tem na calha uma banda sonora para um filme de Hollywood e dois álbuns, um em nome próprio e outro de um novo projeto criado recentemente, “Lisbon Kid”. E tudo vai ser feito, ao arrepio do ‘Brexit’: “Não creio que as consequências se sintam substancialmente durante muitos anos. A Inglaterra atrai muitos imigrantes, mas também tem muitos emigrantes a viver noutros países da Europa”.

Mas este pode ser mesmo o sal na ferida, outro dos grandes pontos de interrogação do ‘Brexit’, quem está lá fora. Por isso, Maria Manuel Lisboa fala de uma “alienação intergeracional”, uma vez que serão previsivelmente os jovens, educados na glosa de que nasceram europeus e que viveriam assim, em circulação livre, quase como cidadãos nacionais de 27 países para toda a vida, os mais prejudicados.

 “Vai ser possível continuar a fazer ciência. Aliás, acho que a ciência inglesa funciona muito melhor em cenários de grande adversidade, como durante o reinado de Mrs. Thatcher”, explica o cientista João Magueijo

“Vai ser possível continuar a fazer ciência. Aliás, acho que a ciência inglesa funciona muito melhor em cenários de grande adversidade, como durante o reinado de Mrs. Thatcher”, explica o cientista João Magueijo

joão lima

E isso pode ser visível nos mais diversos campos, dos intercâmbios académicos — como ficarão, por exemplo, os estudantes britânicos ao abrigo do programa Erasmus, e quais serão as instituições britânicas a receber estudantes europeus ao abrigo desse programa? — ao universo das artes. Londres e Brighton são hoje centros acolhedores de criadores de todo o mundo.

A este respeito, João Penalva diz que “apesar de Londres ser uma cidade muito cara e os artistas, e principalmente os jovens, na sua maioria, terem pouco dinheiro, há um número de artistas em Londres muito superior a qualquer outra cidade no mundo”. Ao contrário do que se possa pensar, esse número é “muito superior a Berlim, por exemplo, onde tudo é mais acessível. Se o ‘Brexit’ chegar a acontecer, pode mudar drasticamente este panorama ao dificultar a entrada de artistas estrangeiros com poucos meios financeiros. Por outro lado, a educação artística é uma indústria britânica extremamente rentável e que não será afetada por limitações aos vistos de entrada”.

Penalva conheceu, antes da experiência britânica, outro país e outra realidade artística: dedicou-se à dança contemporânea na Alemanha, onde esteve nas companhias de Pina Bausch e de Gerhard Bohner. Quando chegou a Londres, recorda-se, a capital ainda não era a megalópole cosmopolita onde “o inglês já não é a única língua que se ouve nas ruas”, como acontece hoje. Londres ter-se-á transformado numa ilha dentro da grande ilha, com um grau de abertura ao mundo que está nos antípodas dos argumentos esgrimidos pela campanha do ‘leave’: “Em pleno centro de Londres, em Westminster, mesmo ao lado do meu supermercado libanês, há uma sinagoga. Em frente há pequenas lojas de tintas e materiais de construção. O gerente é árabe, um dos empregados é indiano, o outro romeno. Os insultos xenófobos raramente acontecem em Londres. A violência xenófoba acontece mais nas províncias — isto digo pelo que leio, porque não vivo lá”, conclui João Penalva. Hélder Macedo refere que, nos anos 60, a imigração da Europa ainda era invulgar, e que o alvo da hostilidade local era “sobretudo rácica”, contra os que vinham das Caraíbas. Mas todos os entrevistados são unânimes em dizer que não há propriamente um imaginário totalmente preenchido pelas ideias do isolamento ou da xenofobia. João Magueijo completa: “O país está dividido, como mostrou o resultado, portanto não acho justo dizer que o separatismo radical seja um traço genérico da nação. Digamos que há um movimento. No livro refiro as tendências insulares dos ingleses, mas acho que isso é outra história. É um folclore: os chás, a má comida, o classismo explícito, a mania que isto é uma ilha mais longe do ‘continente’ do que a Islândia... Um folclore importante, mas apenas um folclore”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 17 de setembro de 2016