Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

País Basco. A independência segue dentro de momentos

  • 333

NACIONALISMO. Arnaldo Otegi, líder EHBildu (esquerda independentista) num comício em Gexto, perto de Bilbau prometeu “a primeira República basca e de esquerda

Questões económicas e sociais suplantam o separatismo na campanha. Isso vê-se até no discurso do Partido Nacionalista Basco e do separatista Euskal Herria Bildu, os mais cotados nas sondagens para as eleições regionais de domingo.

Pedro Cordeiro

Pedro Cordeiro

texto e fotos, enviado ao País Basco

Íñigo Urkullu chega à Praça de Santo Domingo, em Vitoria, capital do País Basco, à hora marcada. Não há muita gente a assistir, mas o lehendakari (chefe do governo regional) nem por isso perde a compostura. Em basco e, depois, em castelhano, fala da aposta nas smart cities, cidades inteligentes. Promete reduzir o desemprego para valores abaixo dos 10% e destaca a necessidade de apoiar as pequenas e médias empresas. Em dez minutos de discurso, sem querer responder a jornalistas, o candidato do Partido Nacionalista Basco (PNV) não profere expressões como “independência”, “direito a decidir” ou autodeterminação. Atende, porém, os cidadãos que se lhe dirigem, dando palavras de alento a uma mulher que se queixa da dificuldade em encontrar emprego.

Urkullu governa a região desde 2012, ano em que pôs cobro ao único intervalo (que durava desde 2009) em que o seu partido não esteve no poder, sozinho ou coligado. Discreto e sereno, é acima de tudo um homem pragmático. Sem maioria no parlamento basco, tem conseguido aprovar os orçamentos anuais através de pactos com os socialistas. E se há cerca de uma década, sob Juan José Ibarretxe, o PNV queria promover um referendo de autodeterminação, agora quem manda é Urkullu, que não imita os colegas catalães e disse até, recentemente, que “É impossível, hoje, um Estado declarar-se independente”. O possibilismo sempre foi típico do PNV, cujo fundador no século XIX, Sabino Arana, embora partidário de um nacionalismo racista e purista, admitia concessões ao inimigo espanhol se tal favorecesse o interesse basco.

Íñigo Urkullu, candidato do Partido Nacionalista Basco, governa a região desde 2012 e deverá vencer as eleições, mas sem maioria

O governante, a quem as sondagens auguram nova vitória sem maioria (37%), adotou o lema “olhar para o futuro”, como quem diz que criar novos Estados soberanos é coisa do século XIX ou XX. Sem descurar o apego do PNV ao autogoverno basco, pede “soberania partilhada”. E dá prioridade às questões económicas e sociais, ele que começou a governar no País Basco um ano depois de Rajoy o fazer em Espanha e, por isso, já sob a batuta da austeridade.

Uma república de esquerda… e feminista

Completamente diferente é o tom de Arnaldo Otegi, líder do partido Euskal Herria Bildu (EHB, Reunir o País Basco) e histórico do extinto Batasuna, que foi braço político do terrorismo da ETA. O currículo impede-o se ser candidato, por ordem judicial, mas é ele a estrela da campanha da esquerda abertzale (independentista), é com ele que os militantes e adeptos do EHB querem tirar fotografias, é ele que diz ao Expresso – após encerrar um comício em Getxo, perto de Bilbau, que a campanha está a ser “fantástica, cheia de carinho popular e em crescendo”. Personagem quase mítica do universo “batasuno”, Otegi, ex-membro da ETA (mas que já rejeitou a sua violência) esteve preso várias vezes nos últimos 15 anos, a última desde 2011 até março passado.

Confiante no êxito nas urnas, Otegi garante que o seu partido vai ser “decisivo” na formação do próximo Governo basco, embora pressinta que a maioria nacionalista que as sondagens anunciam voltará, tal como desde 2012, a não funcionar unida no poder. Os estudos de opinião prevêem para o EHB o segundo lugar, com 20%, mas os seus votos podem ser dispensáveis se o PNV reeditar as coligações com o PSOE que lhe permitiram governar em duas legislaturas dos anos 80 e 90 ou os acordos que mantiveram na atual.

Otegi e o EHB são independentistas. O líder confessa ao Expresso a sua desilusão com Urkullu e diz que gostaria “sem dúvida” de ver o presidente regional enveredar pela senda de Artur Mas, que desafiou a legalidade espanhola na Catalunha, ao convocar um referendo em 2014 (anulado pelo Tribunal Constitucional), e lançou um processo separatista hoje liderado pelo seu sucessor, Carles Puigdemont. Otegi frisa, no entanto, que “a ideia da independência basca e a exigência de justiça social e económica são igualmente importantes”.

Do púlpito, o dirigente promete a “a primeira República basca e de esquerda”. “Feminista”, acrescentará, minutos mais tarde, a sua camarada Laura Mintegi, fazendo apelo às mulheres bascas, “nascidas aqui, em Cáceres, na Bolívia ou no Senegal”. Nos materiais de campanha do EHB, o partido mais abertamente separatista, o “regate social” vem antes da “soberania” e mesmo esta vem acompanhada de termos como “acordo de país” e “novo estatuto”, sem proclamações unilateralistas.

O EHB é de extrema-esquerda, o PNV católico e conservador (o nome do partido em basco, Euzko Alderdi Jeltzalea, significa Partido Basco de Deus e das Leis Velhas), mas ambos lutam pela supremacia num contexto em que o fim da violência etarra e a crise global levam a uma perda de relevância da questão territorial, perante preocupações mais prementes, como pagar contas ou encontrar emprego. A região sofreu os efeitos da recessão, ainda que em menor grau do que o resto de Espanha, por ser das zonas mais ricas e empresarialmente dinâmicas (o desemprego afeta 12,6%, contra 19,6% no total do país).

Longe vão os tempos da Transição

Otegi insiste que “o fim da luta armada [jamais reconhecerá que o que a ETA fazia era terrorismo] e a crise fazem parte de um novo cenário político que rebentou com os pressupostos da Transição Democrática”. Isso está à vista no País Basco, onde as principais forças políticas espanholas – Partido Popular (direita) e Partido Socialista Operário Espanhol (social-democrata) – disputam o quarto lugar, atrás do PNV, EHB e do emergente Podemos, que assume uma postura intermédia, disputando as causas sociais ao EHB, não assumindo qualquer separatismo mas defendendo o direito a decidir.

A candidata do Podemos é Pili Zabala, irmã de um membro da ETA assassinado pelos GAL (terrorismo de Estado) nos anos 80, que se diz “basca e cidadã do mundo”. Em junho, nas legislativas espanholas, o Podemos foi o mais votado no País Basco. Outro partido que aspira a ter, pela primeira vez, representação parlamentar no País Basco é o também recente Cidadãos (centro liberal).

Por motivos que não apenas os indicados por Otegi, parecem remotos, de facto, os tempos da Transição Democrática. Nessa altura faziam-se acordos em Espanha: um parlamento herdado do ditador Franco aprovou a sua própria dissolução e o fim do regime; a UCD (antecessora do PP) legalizou o Partido Comunista; todas as forças democráticas participaram na redação da Constituição e na defesa da democracia após a intentona fascista de 1981. O mesmo sucedeu nas décadas seguintes, com apoios regionais a governos minoritários, pactos em várias comunidades autónomas e municípios e união face ao terrorismo.

Agora as coisas são diferentes. O país está há um ano sem governo e, mesmo tendo ido duas vezes a votos, a formação do próximo Executivo não parece iminente. Há quem espere das eleições bascas uma solução: se o PNV precisar dos votos do PP para empossar Urkullu em Vitoria, poderá emprestar os seus cinco deputados nacionais a Mariano Rajoy em Madrid. Mas não é certo que a aritmética parlamentar bata certo e, mesmo que bata, o primeiro-ministro em gestão ainda precisaria, mesmo com o apoio do PNV, de mais um deputado, a juntar aos do PP e do Cidadãos, já disposto a viabilizar a sua investidura.

Esse é um quebra-cabeças que os bascos ajudarão a resolver no próximo domingo e que os espanhóis terão, todos eles, de aguentar pelo menos mais umas semanas, isto se não forem chamados a novas legislativas em dezembro. Até lá, a campanha vai queimar os últimos cartuchos, num discurso em que a Terra Basca independente cede o protagonismo a valores como os da canção de Sérgio Godinho: “A paz, o pão, habitação, saúde, educação”.