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O crepúsculo do “califado”

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Veículo suicida acabado de explodir

Ricardo García Vilanova

A ofensiva do exército líbio sobre os últimos redutos do Daesh na cidade costeira de Sirte progride milímetro a milímetro entre ruínas e emboscadas. É uma batalha entre uma força militar sem experiência e um inimigo que só quer morrer a matar. Aviões dos EUA têm sido decisivos

Karlos Zurutuza (textro), Ricardo García Vilanova (fotos), em Sirte

Pode ser vermelha, amarela ou azul. A luta em Sirte trava-se casa a casa. Por isso, os soldados líbios colam nos uniformes fita adesiva colorida, mudada todos os dias para se distinguir do inimigo. No quartel-general, o miliciano Ali Mangush assegura que todo o cuidado é pouco.

“O problema não são os terroristas. É o que deixam pelo caminho quando retiram”, explica o jovem, enquanto estampa novo adesivo colorido no colete balístico que lhe protege o peito. Hoje é dia de azul. Mangush garante que Sirte está transformada num monte de escombros, cheio de armadilhas mortais. “Um caixote do lixo, uma porta ou um armário meio fechado... tudo pode esconder uma bomba”, explica este jovem de 22 anos que já combateu em duas guerras: nesta contra os ultrajiadistas e na de 2011 para derrubar Kadhafi.

Mangush é mais um nas fileiras da “Estrutura Sólida”, operação militar lançada no passado mês de maio pelas forças líbias do governo reconhecido pela ONU, com o objetivo de expulsar o Daesh da estratégica cidade costeira de Sirte de que se haviam assenhoreado em junho de 2015.

As tropas terrestres só conseguiram voltar a avançar graças a apoio aéreo dos EUA. Os bombardeamentos começaram a 2 de agosto e prosseguem. Os islamitas radicais estão cercados no equivalente a um quilómetro quadrado.

Ao lado da estrada que conduz à zona dos combates ainda se veem os restos carbonizados do automóvel em que viajava Muammar Kadhafi, o líder derrubado há cinco anos. Após quatro décadas no poder, foi linchado a poucos metros dali, em outubro de 2011. O desenvolvimento atual dos combates evoca os dias da queda da última praça leal a Kadhafi.

Mangush constata semelhanças nas duas ofensivas, mas também uma diferença substancial. “Naquele tempo lutávamos contra compatriotas e pessoas como nós. Hoje os do Daesh vêm de toda a parte e comportam-se como animais”, diz o jovem, empoleirado na traseira de uma pick-up 4x4.

“Deus é o maior!”

Os mastros nus à entrada do bairro de Zafaran, a oeste de Sirte, elevam-se como testemunhas mudas da barbárie. Meia centena de desgraçados foi crucificada ali, durante os meses em que Sirte foi a réplica líbia de Raqqa, a “capital” do Daesh na Síria. Ouvir música, sintonizar canais de televisão estrangeiros, fumar... quase tudo era punível no caso dos homens. Quanto às mulheres, bastava fazerem-se invisíveis para evitar problemas.

Ainda que menos dantescas do que as da praça das execuções, as cenas no hospital em frente não deixam de ser de pesadelo. “Allahuakbar!” (Deus é o maior), repete, entre estertores de dor, um miliciano coberto de sangue, enquanto é tirado da ambulância. O último carro-bomba do dia levou-lhe a perna direita.

Milicianos líbios junto aos cadáveres de elementos do Daesh, aparentemente estrangeiros

Milicianos líbios junto aos cadáveres de elementos do Daesh, aparentemente estrangeiros

Ricardo garcía vilanova

“São a arma mais terrível deles”, assegura Abdu Mohamed, médico, e voluntário como todos aqui em Sirte. “Não é só a força da explosão. São as esferas de rolamentos e todo o tipo de escória com que carregam os carros-bomba. Muitos feridos chegam aqui sem perceberam a que ponto ficaram mutilados”, acrescenta o clínico, visivelmente com demasiadas horas de trabalho e poucas de sono.

Embora os carros-bomba suicidas tenham causado mais de meio milhar de vítimas entre as forças líbias, os francoatiradores não lhes ficam muito atrás. Hassan Onbes, traumatologista em Tripoli e hoje médico de campanha em Sirte, diz que os snipers do Daesh apontam sempre à nuca. “Sabem que um tiro no peito ou na cabeça não é necessariamente mortal. Mas um tetraplégico nunca mais voltará a lutar”.

Morrer a matar

Os hospitais de campanha trabalham convenientemente oleados, graças à labuta de pessoal qualificado. Na frente de guerra, porém, o improviso parece ser a norma. Não se trata de um exército regular, mas de um conjunto de brigadas, na maioria oriundas de Misrata (235 km a oeste) e com diferentes níveis de preparação.

“Carro-bomba!”, grita um miliciano numa das principais artérias de Sirte. As reações não podiam ser mais diversas: viaturas fogem em marcha-atrás pela estrada principal, enquanto os condutores de outras arriscam a vida, virando para becos onde pode haver bombas ocultas no meio do lixo. Alguns combatentes correm para se abrigar, enquanto outros não parecem dispostos a deixar meio cachimbo de água por fumar. Desta vez era falso alarme.

Media internacionais referiram a presença de tropas especiais britânicas e americanas. No Centro de Operações de Misrata, o general Mohamed al-Ghasri desmente isso ao Expresso. Reafirma que só há tropas líbias no terreno, “apesar de o inimigo ter gente da Tunísia, Egito ou Sudão”.

Walid, outro miliciano que encontramos nas ruas de Sirte, afirma ter reconhecido sotaques estrangeiros em conversas intercetadas nos walkie-talkies. Jamais se atreveria a deixá-los aproximarem-se, “nem que venham de mãos no ar”. “Muitos trazem coletes explosivos, é muito perigoso”, explica Walid, enquanto se esforça por encontrar cadáveres de kamikazes para corroborar o que diz. Não teve sorte imediata, mas tais restos aparecem quase todos os dias, à medida que os sitiantes avançam.

Fontes militares líbias estimam em menos de uma centena o número de ultrajiadistas entrincheirados no Bairro 3, mas a violência dos combates parece aumentar à medida que o inimigo se vê encurralado. Trata-se de um autêntico balde de água fria, porque, durante as últimas semanas, repetia-se com insistência a ideia de que a queda de Sirte era uma “questão de dias”.

Na passada segunda-feira, teve início a Eid al-Adha (Celebração do Sacrifício), a festividade mais relevante dos muçulmanos. Os líbios esperavam um festejo ainda maior, com a derrota definitiva do Daesh em Sirte. No entanto, quanto se combate contra um adversário invisível e fanatizado, o andamento da batalha é sempre imprevisível.

Artigo publicado na edição do Expresso de 17 de setembro de 2016

  • Cameron acusado de abrir caminho ao Daesh na Líbia

    Comissão de inquérito de Westminster acusa o ex-primeiro-ministro britânico de não ter assumido responsabilidade moral quando decidiu bombardear a Líbia, apoiado por França, com o alegado objetivo de proteger os civis de Bengazi das tropas de Muammar Kadhafi