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O comovente romance do casal de doentes terminais que morreu com cinco dias de diferença

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A história que lhe vamos contar parece saída de um filme (infelizmente, estamos a falar de um daqueles com direito a final triste). Katie e Dalton eram dois doentes terminais que batalhavam contra a mesma doença desde o nascimento – encontraram-se em 2009 através de Facebook e nunca mais se separaram. Casados com apenas 20 anos, Katie e Dalton passaram os últimos tempos separados, a lutar contra a doença que os atormentava. Ele partiu neste sábado e ela esta quinta-feira, numa estranha coincidência que está a chamar as atenções para este incrível romance. Partiram em paz, acreditam as famílias e acreditavam eles: “Prefiro viver cinco anos de amor e completa felicidade a viver 20 anos sozinha”, garantia Katie na véspera da sua morte

No final do livro “A Culpa é das Estrelas”, um drama adolescente assinado pelo autor norte-americano John Green, a protagonista, Hazel, disserta sobre os seus sentimentos em relação à morte do namorado, o jovem Augustus. “A única pessoa com quem queria falar da morte de Augustus era Augustus”, lamenta ela. É um drama precoce: o romance surge entre dois jovens com cancro que se encontram num grupo de apoio para doentes oncológicos e o livro relata a história dessa paixão em circunstâncias pouco felizes.

É certamente uma história hollywoodesca – na verdade, o romance de Augustus e Hazel já mereceu saltar das páginas do livro para o grande ecrã -, mas, como sempre, a realidade vem provar que consegue fornecer-nos histórias ainda mais incríveis e emocionantes do que a ficção. Vamos falar-lhe de Dalton, de 25 anos, doente com fibrose cística, e de Katie, de 26 anos, doente também de fibrose cística, que juntos formam o casal real que tem sido comparado ao casal de jovens de “A Culpa é das Estrelas”. Um aviso: tal como no livro, este romance não tem um final feliz.

A história de Dalton e Katie passou esta semana a ser conhecida internacionalmente pelos piores – e esperados – motivos. Todos os que os rodeavam sabiam que o desfecho não poderia ser outro, uma vez que a fibrose cística, uma doença genética que começa por obstruir os pulmões, dificultando a respiração, e depois ataca o resto dos órgãos, dá às suas vítimas uma esperança de vida de 37 anos. Dalton e Katie, numa coincidência que tem comovido o mundo, partiram mais cedo: ele este sábado, com apenas 25 anos, numa cama de hospital; ela cinco dias depois, esta quinta-feira, com apenas 26 anos e um desejo que ficou por cumprir.

Um trágico romance dos tempos modernos

O último desejo de Katie era ver Dalton, o jovem marido que encontrou na internet em 2009, quando ainda contavam 18 anos e a doença não os impedia de viverem as suas vidas normais. Depois de ouvir falar de Dalton através de um amigo comum, Katie percebeu que ambos tinham nascido com a mesma doença, a fibrose cística, e decidiu meter conversa com ele de acordo com os hábitos modernos: no Facebook.

A química foi imediata, com o jovem a revelar depois que ficara fascinado com a abordagem de Katie. “Ela viu que eu estava no hospital e enviou-me uma mensagem para se assegurar de que estava bem. Não há muitas pessoas como ela! Depois dessa mensagem, nunca mais parámos de falar.” Um mês de telefone e redes sociais depois, os jovens decidiram encontrar-se pessoalmente. Daí ao noivado foi um passo: em fevereiro de 2010, os dois começavam a planear o casamento.

“Tenho a certeza de que muitas pessoas acharam que estávamos a avançar demasiado depressa, mas não nos pareceu que essas regras se aplicassem a nós. Viver com uma doença crónica força-te a crescer mais depressa do que deverias, e nós sabíamos que o tempo não estava do nosso lado.” E era verdade. Se nos primeiros tempos de casamento, celebrado em julho de 2011, Katie e Dalton conseguiram comprar casa e viajar, cedo a saúde começou a meter-se no caminho dos dois.

Ambos sabiam que acabariam por precisar de um transplante de pulmão, mas devido a uma infeção naquele órgão comum aos dois a operação tornava-se uma hipótese distante para os hospitais e as seguradoras que os acompanhavam. Desesperado e vendo a saúde da esposa piorar, o jovem Dalton escrevia numa plataforma de crowdfunding em que pedia ajuda financeira para os tratamentos de Katie: “Eles estão a transformar a minha mulher num número, numa estatística. Eu não posso perdê-la! Este não pode ser o fim da nossa história de amor!”.

Uma separação forçada

Infelizmente, a doença que os juntou acabaria mesmo por ditar o afastamento dos jovens. Katie acabou por receber o novo pulmão no ano passado, uma intervenção de que nunca recuperaria e lhe traria múltiplas complicações de saúde. Dalton também conseguiu o transplante, em 2014, mas devido a complicações subsequentes viu-se obrigado a voltar para a cidade de St. Louis, Missouri, onde viviam os seus pais, para receber cuidados a tempo inteiro, enquanto a esposa era internada no estado do Kentucky.

Para mais, nos últimos tempos os dois não podiam encontrar-se devido aos estados de saúde debilitados de ambos e ao perigo de contraírem infeções pulmonares. A última vez que estiveram juntos aconteceu no quarto de hospital de Katie, em julho, por ocasião do quinto aniversário de casamento – o encontro durou apenas dez minutos.

Katie preparava-se para partir – os médicos previam que não sobreviveria até ao final deste ano e a jovem celebrou inclusivamente, já em setembro, um natal antecipado com a família. Nestas preparações, também lançou um pedido de ajuda numa plataforma de crowdfunding relativamente às despesas com as suas próprias cerimónias fúnebres (os 10 mil dólares ou 8900 euros pedidos foram largamente ultrapassados, chegando o valor angariado aos 32 mil dólares – equivalentes a 28600 euros). “As coisas estão a piorar mais rápido do que esperava. Peço-vos que não vejam isto como uma desistência, essa é a última coisa que quero que recordem sobre mim”, pedia a jovem.

Katie não desistiu – na véspera de morrer, a jovem garantia à CNN ter motivos para estar feliz: “Prefiro ter tido cinco anos de amor e total felicidade a viver 20 anos sozinha”. Partiu esta quinta-feira, rodeada de família e amigos, apenas cinco dias depois do falecimento de Dalton – o Dalton que escrevia sobre ela: “Katie é a mulher da minha vida, tem um coração de ouro e ajuda qualquer pessoa, a qualquer preço”. A mãe da jovem esclareceu no Facebook que Katie, mesmo com todos os obstáculos que enfrentou na sua vida demasiado curta, viveu como quis: “Foi-nos dado um grande presente. Nós sabíamos que ela tinha pouco tempo e conseguiu fazer várias das coisas que queria fazer. Os dias que se seguem não serão fáceis, mas sinto-me confortável por saber que a minha menina viveu, ela verdadeiramente viveu”.