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Governador da Carolina do Norte decreta estado de emergência em Charlotte

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NICHOLAS KAMM

Segunda noite de protestos por causa de abate de negros pela polícia ficou marcada pelo uso de gás lacrimogéneo por agentes antimotim e também por um alegado “confronto entre civis” que deixou um homem em estado grave. Falando “diretamente às pessoas brancas”, Hillary Clinton diz que a epidemia de mortes de negros às mãos das autoridades “tem de se tornar intolerável”

A madrugada desta quinta-feira, na segunda noite de protestos em Charlotte, na Carolina do Norte, contra a brutalidade e racismo policial, ficou marcada por um confronto de "civil para civil" que, segundo as autoridades, deixou um homem em estado grave, ligado às máquinas, avança o "New York Times".

A polícia antimotim usou gás lacrimogéneo contra as centenas de manifestantes nas ruas e o governador da Carolina do Norte, o republicano Pat McCrory, decretou o estado de emergência em Charlotte, destacando a Guarda Nacional para a cidade onde, na terça-feira à noite, um agente da polícia matou a tiro um homem negro de 43 anos, sob o argumento de que representava uma "ameaça iminente".

Familiares e testemunhas dizem que Keith Lamont Scott, pai de sete filhos, estava a ler um livro quando foi abordado pela polícia dentro do seu carro, durante uma operação de buscas por um suspeito criminoso que a polícia assumiu de imediato não se tratar de Scott. As autoridades garantem que lhe foi exigido repetidamente que largasse a arma que teria na mão, antes de pelo menos um agente ter disparado sobre o homem.

Na primeira noite de protestos a seguir ao incidente, de terça para quarta-feira, 16 agentes e pelo menos sete civis ficaram feridos. Esta madrugada, de acordo com McCrory, os manifestantes atacaram jornalistas e outras pessoas, partiram janelas e atearam fogueiras em várias zonas do centro da cidade.

A segunda noite de protestos, organizados pelo movimento Black Lives Matter no rescaldo da morte de Scott e de outros negros às mãos da polícia, estava a ser pacífica até se ouvirem tiros entre a multidão, altura em que um homem ainda não identificado foi baleado. As autoridades dizem que se tratou de um confronto "entre civis", avançando inicialmente que o homem morreu, mais tarde uma informação que mais tarde foi retificada na página de Twitter da polícia de Charlotte-Mecklenburg.

O uso de força letal pela polícia norte-americana contra cidadãos negros, muitas vezes injustificadamente, tem dominado o debate público nos últimos dois anos, gerando manifestações em várias partes do país como as que estão atualmente a ter lugar em Charlotte.

Pelo menos três casos desta natureza marcaram a última semana: o abate de Keith Scott na cidade da Carolina do Norte; a morte de um rapaz de 13 anos às mãos da polícia numa cidade do Ohio por alegadamente ter pegado numa pistola de ar quando estava a ser detido; e o abate de um homem negro desarmado, que ergueu as mãos no ar quando foi abordado por agentes em Tulsa, na sexta-feira.

Candidatos presidenciais reagem

No domingo, a polícia daquela cidade do estado de Oklahoma confirmou que Terence Crutcher não estava armado quando foi baleado por um agente. O caso levou os dois candidatos às eleições presidenciais de novembro a falarem publicamente sobre a violência policial desmesurada que tem motivado protestos de milhares de pessoas em várias partes dos Estados Unidos desde a morte de Michael Brown em 2014.

Num evento de campanha no Ohio, o republicano Donald Trump disse que o abate de Crutcher em Tulsa é "muito preocupante". "Ele parece ter feito tudo aquilo que era suposto fazer e parecia ser um bom homem", disse o magnata do imobiliário, cuja campanha tem sido marcada por discursos de ódio contra muçulmanos, latino-americanos e outras minorias. "Aquela jovem agente da polícia, não sei o que é que ela estava a pensar. Não sei o que ela estava a pensar e fico muito, muito preocupado."

Hillary Clinton foi mais longe, admitindo que há uma epidemia de mortes de negros às mãos das autoridades norte-americanas que tem de ser combatida. "Quantas vezes vamos ter de assistir a isto no nosso país?", questionou a democrata na terça-feira. "Em Tulsa, um homem desarmado com as mãos no ar. Isto é simplesmente insuportável. E tem de se tornar intolerável."

Em entrevista no programa "The Steve Harvey Morning Show", a ex-secretária de Estado tentou uma abordagem diferente para chamar a atenção para o problema da brutalidade e racismo policial. "Talvez possa, ao falar diretamente às pessoas brancas, dizer-lhes 'escutem, isto não é quem nós somos'. Temos de fazer tudo o que for possível para melhorar o policiamento, para darmos respostas diretas a este preconceito implícito."

Esta quarta-feira à noite, antes de a manifestação em Charlotte se tornar violenta, a polícia da cidade defendeu as suas ações no caso da morte de Keith Scott, garantindo que este saiu do carro com uma arma de fogo, que voltou a entrar no veículo quando os agentes lhe disseram para a largar e que foi abatido pelo agente Brentley Vinson quando voltou a sair do carro, depois de ter alegadamente apontado a arma aos agentes.

No Facebook, uma das filhas de Scott publicou um vídeo que diz comprovar que o seu pai não estava armado, mas sim a ler um livro enquanto esperava que o neto chegasse no autocarro da escola. A polícia desmente essa versão e diz que uma arma foi recuperada no local. A desconfiança e descrédito face às versões oficiais destes incidentes têm aumentado entre a população, por causa de casos como o de agentes da polícia apanhados a conspirar para acusar criminalmente manifestantes pacíficos e também da absolvição de agentes que mataram a tiro homens negros desarmados.

A autarca de Charlotte, Jennifer Roberts, diz-se "chocada" com o que se está a passar na cidade, em particular com a violência de alguns manifestantes. "Charlotte é uma cidade que tem trabalhado arduamente para construir boas relações entre a comunidade e a polícia, temos sido um modelo de referência de policiamento comunitário, na verdade temos até treinado outras forças da polícia", declarou à BBC. "Isto não é quem nós somos enquanto habitantes de Charlotte e espero que possamos ultrapassar estes protestos rapidamente e entrar numa fase de manifestações mais pacíficas para retomar o diálogo."

  • Morte de homem negro pela polícia reacende protestos na Carolina do Norte

    Keith Scott, de 43 anos, foi abatido em Charlotte durante uma operação para capturar um suspeito criminoso. Scott não era o homem procurado mas as autoridades dizem que estava armado e que, por isso, representava uma “ameaça iminente”. Testemunhas e familiares da vítima dizem que era um livro, e não uma arma, o que ele tinha na mão