Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Há consenso na ONU sobre a “maior ameaça à saúde global”

  • 333

Christopher Furlong / Getty Images

Tratam-se de infeções resistentes a antibióticos que, em média, matam mais de 700 mil pessoas por ano, um número que os especialistas dizem que poderá ser bastante superior. Para combater o flagelo, os 193 países das Nações Unidas vão assinar esta quarta-feira uma declaração de compromisso, a quarta relacionada com questões de saúde na história da organização

Os 193 países das Nações Unidas vão assinar esta quarta-feira uma declaração histórica para combater as infeções resistentes a antibóticos, as chamadas “superbactérias” — um documento que está a ser preparado há seis anos para combater um flagelo que os especialistas calculam que provoca, em média, 700 mil mortes por ano.

Esta é a quarta declaração da ONU relacionada com saúde que é aprovada pela comunidade internacional, depois da declaração de combate ao VIH/Sida em 2001, a doenças não tramissíveis em 2011 e ao ébola em 2013.

Os signatários têm dois anos a partir desta semana para apresentarem os seus planos de ação de combate à “maior ameaça à saúde global e à medicina moderna”, provocada pelo uso excessivo de medicamentos antimicrobianos em humanos, animais e no sector da agricultura nas últimas décadas.

“É irónico que uma coisa tão pequena seja tamanha ameaça pública”, diz Jeffrey LeJeune, professor da Universidade do Ohio que dirige o programa de investigação sobre comida animal naquela instituição. “É uma ameaça à saúde global que precisa de respostas globais”, defende, citado pelo “The Guardian”.

O jornal britânico aponta que a declaração foi feita nos mesmos moldes daquela que a comunidade internacional aprovou para combater as alterações climáticas, dando aos países e às agências e grupos da ONU 24 meses para criarem um plano de ação a ser apresentado na Assembleia Geral da ONU.

Mais de 700 mil pessoas morrem por ano em todo o mundo por causa de infeções resistentes aos tratamentos disponíveis, um número que os especialistas dizem que na realidade será bastante superior, pelo facto de não existir um sistema global de monitorização deste tipo de mortes. Só nos EUA, aponta uma investigação recente da Reuters, dezenas de milhares de mortes que terão sido causadas por superbactérias não foram atribuídas a esse tipo de infeções.

Para os investigadores, as superbactérias representam uma das maiores ameaças atuais à humanidade e, sem ação urgente, é possível que infeções simples deixem de poder ser combatidas com os medicamentos existentes. A exposição repetida e prolongada a antibióticos permite que as bactérias e outras infeções, entre elas o VIH e a malária, sofram mutações para contornar os tratamentos disponíveis. Por causa disto, simples operações, como cirurgias à anca ou partos por cesariana, podem tornar-se demasiado perigosos.

Na declaração que será assinada hoje, os 193 países da ONU comprometem-se a desenvolver sistemas de regulação e monitorização do uso e venda de medicamentos antimicrobianos para humanos e animais, a apostar no desenvolvimento inovador de novas formas de antibióticos, melhorar os diagnósticos e educar profissionais de saúde e o público em geral sobre a prevenção de infeções resistentes a antibóticos.

Num relatório apresentado pela Direção-Geral de Saúde em março, os especialistas portugueses já alertavam que “a manter-se a tendência” do uso excessivo deste tipo de medicamentos em humanos e animais, “a medicina avançada que se pratica” será posta em causa. No documento, a DGS dá o exemplo de “cirurgias mais ou menos radicais ou terapêutica oncológica [que] poderão deixar de ser possíveis por se tornarem intratáveis as infeções decorrentes”.