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Grito de revolta: “Não aguentava ter de voltar a retirar uma refeição quente a uma criança”

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Um aluno do 1.º ano de uma escola básica nos EUA foi impedido de comer uma refeição quente por uma empregada, que cumpria uma nova ordem da direção do agrupamento. Se os pais devessem mais de 25 dólares, o aluno teria de almoçar uma sandes. A empregada demitiu-se para não ter de voltar a fazê-lo

Stacy Koltiska jamais esquecerá o olhar da criança do 1.º ano a quem foi obrigada a recusar uma refeição quente. A trabalhar há cerca de dois anos no refeitório de uma escola primária nos arredores de Canonsburg, no estado norte-americano da Pensilvânia, garante que não aguentaria ter de voltar a fazê-lo. E demitiu-se.

Conta o “Washington Post” que os pais do rapaz já estariam a dever mais de 25 dólares em refeições (cada uma custa 2,05 dólares, 1,83 euros) e que a administração do distrito escolar Canon-McMillan, a que pertence esta escola básica com jardim de infância, decidiu que a partir deste ano letivo quem tanto devesse não comia. Ou melhor, em vez da refeição quente teria de se satisfazer ao almoço com uma sandes de queijo, fruta e leite.

E a tal refeição quente, que o aluno do 1.º ano tinha num tabuleiro à sua frente, uns panados de frango e uma espiga de milho, foi, assegurou Koltiska, mandada fora. Contou ainda esta empregada que não só foi obrigada, por outra colega, a retirar a comida à criança bem como a registar na sua conta, já deficitária, mais 2,05 dólares desta refeição para os pais pagarem.

Boas intenções

Matthew Daniels, o superintendente deste agrupamento, explicou a uma televisão local que a nova regra já conseguiu reduzir o número de estudantes com saldos negativos na conta escolar e que não foram afetados todos aqueles que solicitaram, atempadamente, apoio social.

Antes desta medida ter sido aplicada, mais de 300 famílias ficavam a dever todos os anos entre 60 mil e 100 mil dólares. Na sexta-feira passada, apenas 66 deviam cerca de 20 mil dólares.

“Jamais foi nossa intenção que a entrada em vigor de uma regra como esta envergonhasse ou humilhasse uma criança”, disse Matthew Daniels ao canal Action News 4.

Um dos membros da direção deste agrupamento, Joe Zupancic, informou que foram negociados planos de pagamento dos valores em atraso com diversas famílias e que estava consciente de que quem não o fez era porque não tinha mesmo forma de honrar os seus compromissos.

“Deus é amor”

Católica praticante, Stacy Koltiska classifica “tudo isto” como “pecaminoso” e lembra que “Deus é amor”, e que por isso “devemos amar-nos uns aos outros”. “Há riqueza suficiente neste mundo para que uma criança não passe fome, sobretudo numa escola. Para mim, está tudo mal”, afirma já depois de ter apresentado a sua demissão na semana passada, recusando compactuar com a nova regra.

Desde de que se demitiu, a mulher que na infância garante que matou a fome com muitos almoços à borla no refeitório da escola, recebeu diversas mensagens de apoio. Os trabalhadores do refeitório de uma prisão nas proximidades da escola, por exemplo, manifestaram a sua disponibilidade para doarem parte da comida às crianças necessitadas.

Koltiska acredita que a direção do agrupamento cometeu um erro. “Tomam estas decisões sentados numa sala de reuniões. Não têm de enfrentar a criança, olhos os olhos, e tirar-lhe o tabuleiro da frente”.

“Lembro-me bem da vergonha que senti e não tinha culpa nenhuma”, afirma Koltiska, recordando ainda o tempo passado a ‘cantar’ os números sorteados num bingo só para poder comprar uns jeans Gloria Vanderbilt. “Pensava que, se me vestisse como os outros miúdos, não iam reparar que era pobre.”