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Internacional

Metade das armas de fogo nos EUA estão nas mãos de apenas 3% dos americanos

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"Escolha do atirador", o nome de uma das milhares de lojas de venda de armas de fogo nos Estados Unidos

Joe Raedle

Estudo de especialistas das Universidades de Harvard e Northeastern, ainda não apresentado oficialmente mas que o "The Guardian" revela em exclusivo esta terça-feira, aponta para a existência de 265 milhões de armas de fogo em circulação nos EUA — o correspondente a mais de uma arma por cada habitante adulto

Há cerca de 265 milhões de armas de fogo nas mãos de norte-americanos comuns, o correspondente a mais de uma arma por cada adulto dos Estados Unidos, mas 133 milhões delas estão na posse de apenas 3% do total de habitantes, um grupo de "super detentores" em que cada indivíduo tem, em média, 17 armas de fogo.

A conclusão é de um estudo conjunto das Universidades de Harvard e Northeastern que ainda não foi oficialmente apresentado mas que o jornal britânico "The Guardian" avança em exclusivo esta terça-feira, a par do "The Trace", uma organização de media sem fins lucrativos dedicada à cobertura da posse de armas de fogo nos Estados Unidos.

O mais exaustivo inquérito sobre o tema das últimas duas décadas calcula que a posse de armas por norte-americanos aumentou em 70 milhões desde 1994, data do último grande estudo sobre o assunto, apesar de a percentagem de detentores de armas ter caído ligeiramente ao longo do mesmo período, de 25% para 22%.

Na investigação, conduzida em 2015, especialistas de saúde pública das duas universidades norte-americanas apuraram igualmente que a detenção de armas de fogo por mulheres aumentou e que, entre elas, a probabilidade de compra de armas por motivos de autodefesa é maior do que entre os homens, uma tendência alargada que contraria a queda das taxas de violência relacionada com este tipo de armas.

"Existe uma incoerência entre o desejo de ter uma arma para proteção e as taxas decrescentes de violência letal [com armas de fogo] neste país", admite Matthew Miller, professor da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard e um dos autores do estudo.

Os dados compilados sugerem que a posse de armas entre os norte-americanos é guiada por um "crescente temor", nas palavras de Deborah Azrael, a chefe da equipa de investigação. "Se queremos reduzir a taxa de suicídios com armas de fogo, se queremos reduzir outros perigos potenciais das armas, temos de dar atenção a esse medo", argumenta a professora de Harvard.

Phil Cook, investigador da Universidade de Duke que foi um dos autores do último grande inquérito ao tema, publicado em 1994, fala de um novo "inquérito de muita qualidade", que "vai além das perguntas sobre porque é que existem armas de fogo nas casas norte-americanas, questionando quantas armas de fogo existem em cada casa", explica citado pelo "The Guardian".

"Sem saber a resposta a esta segunda pergunta, não é possível calcular o total de armas de fogo armazenadas nos EUA", defende, com a ressalva de que as estimativas totais da nova equipa "são mais baixas" do que alguns estariam à espera. "Tornou-se comum dizer que existem 300 milhões de armas em circulação", refere o especialista.

Apesar disto, o novo inquérito está alinhado com anteriores estudos da mesma natureza, menos abrangentes, que apontam que apesar de a compra de armas ter aumentado nos EUA desde que Barack Obama chegou ao poder em 2008, a proporção total de americanos que dizem ter armas de fogo caiu ligeiramente. Isto traduz-se no número avançado à cabeça do inquérito, sobre quase metade das armas em circulação nos EUA estarem nas mãos de um grupo reduzido de pessoas.

Cada um dos cerca de 55 milhões de americanos que detêm armas tem, em média, três, e quase metade desses têm apenas uma ou duas. A este grupo acrescem os "super detentores" de armas de fogo — cerca de 7,7 milhões de habitantes que têm entre oito e 140 armas cada um. Esta concentração da posse de armas coincide com dados de especialistas de marketing, que referem que os mais devotos consumidores, cerca de 20% do total de compradores, têm em sua posse 80% do total de armas vendidas.

Azrael diz que a investigação não abordou "se deter um elevado número de armas representa um maior fator de risco" do que ter apenas uma ou duas armas. "Não sabemos nada sobre isso", admite a chefe da equipa de autores, sob o argumento de que, no imediato, a equipa preferiu concentrar-se nos dados relativos aos quase 50% de americanos que têm apenas uma ou duas armas cada, para "alterar o seu comportamento relativamente às armas e o seu processo decisório". Tal, defende a autora, poderá permitir aos investigadores "vir a ter um grande impacto [na tendência] de suicídio" nos EUA. Cerca de 20 mil das mais de 30 mil mortes por armas de fogo registadas anualmente no país são suicídios.

"Não conheço ninguém que pense ou fale seriamente sobre o confisco de armas", sublinha a responsável pelo inquérito, fazendo uma analogia com o consumo de tabaco. "De uma perspetiva de saúde pública não se confiscam cigarros mas, ainda assim, tentamos disponibilizar os bons resultados e descobertas científicos. Tentamos ajudar as pessoas a pensar sobre os riscos e os benefícios do comportamento que escolhem."