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Ataque a equipa de ajuda humanitária faz 12 mortos em Alepo

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AMER ALMOHIBANY

Estados Unidos dizem-se "ultrajados" com ataque que ativistas no terreno atribuem às forças leais ao Presidente sírio e sublinham que vão "reavaliar futuras perspetivas de cooperação" com a Rússia

Um ataque atribuído por ativistas às forças leais ao regime de Bashar al-Assad contra uma equipa humanitária na província síria de Alepo provocou pelo menos 12 mortos na madrugada desta terça-feira. A ONU já confirmou que os camiões que transportavam ajuda humanitária da organização foram atingidos a partir do ar enquanto descarregavam comida e medicamentos num armazém do Crescente Vermelho Sírio perto da cidade de Urem al-Kubra, sem avançar mais detalhes

Ativistas no terreno dizem que o bombardeamento aéreo atingiu um conjunto de camiões de ajuda humanitária poucas horas depois de o Exército sírio ter declarado o fim do cessar-fogo de sete dias negociado entre os EUA e a Rússia, implementado ao início de terça-feira da semana passada e que terminava esta madrugada.

Os Estados Unidos dizem-se "ultrajados" com o ataque e garantem que vão "reavaliar futuras perspetivas de cooperação" com a Rússia, pondo em causa o acordo de cessação de hostilidades alcançado em Genebra e sob o qual Washington e Moscovo iriam lançar ações conjuntas inéditas para combater o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e outros jiadistas na Síria caso a trégua fosse respeitada.

"O destino desta coluna [de ajuda humanitária] era conhecido do regime sírio e da Federação russa e ainda assim os trabalhadores foram mortos enquanto tentavam distribuir ajuda pelo povo sírio", acusou John Kirby, porta-voz do Departamento de Estado norte-americano. "Os Estados Unidos vão abordar este assunto diretamente com a Rússia. Dada a violação egrégia da cessação de hostilidades iremos reavaliar as perspetivas futuras de cooperação com a Rússia."

"Não sabemos se podemos salvar" o acordo, acrescentou fonte sénior das forças americanas na Síria sob anonimato, sugerindo que os EUA responsabilizam diretamente Moscovo pelo ataque desta madrugada. "Nesta altura os russos têm de demonstrar rapidamente a seriedade do seu propósito, porque de outra forma não haverá nada para alargar nem nada para salvar."

Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, um grupo de observação da guerra da Síria com sede em Londres, o ataque foi executado ou pelas forças sírias ou pela aviação russa que está a apoiar Assad e entre os mortos incluem-se voluntários do Crescente Vermelho Sírio Árabe e motoristas dos camiões. Damasco ainda não comentou o acontecimento.

A partir de Nova Iorque, onde os líderes mundiais estão reunidos esta semana para a assembleia-geral da ONU, Stephen O'Brien condenou o "ataque insensível" e sugeriu que pode corresponder a um crime de guerra. "Deixem-me ser claro: se for apurado que este ataque insensível foi deliberado e que tinha como alvo os humanitários, corresponde a um crime de guerra", sublinhou o responsável da organização pela ajuda humanitária. "Peço uma investigação imediata, imparcial e independente a este incidente fatal. Os perpetradores devem saber que um dia serão responsabilizados por violações da lei internacional de direitos humanos."

Pelo menos 18 dos 31 camiões da equipa, que iam distribuir ajudar humanitária a cerca de 78 mil sírios, foram atingidos, disse um outro porta-voz da ONU. Uma testemunha no terreno disse à Reuters pelo telefone que foram disparados cinco mísseis contra os camiões, na altura em que se encontravam estacionados num centro gerido pelo Crescente Vermelho Sírio, ligado à Cruz Vermelha Internacional.

O ataque acontece depois de um fim-de-semana de alta tensão entre a coligação internacional liderada pelos Estados Unidos e a Rússia aliada de Bashar al-Assad por causa de um ataque que provocou a morte de 62 soldados sírios. Esse bombardeamento em Deir ez-Zor foi assumido pelo Pentágono, que disse lamentar a perda de vidas e explicou que a posição das tropas sírias foi confundida com um alvo do Daesh naquela cidade.

Ativistas em Alepo dizem que, assim que as forças sírias declararam o fim do cessar-fogo, a província foi atingida por uma série de outros ataques, uma informação confirmada pelo correspondente da AFP dentro da cidade de Alepo, que fala em bombardeamentos sem descanso ao longo da madrugada. No domingo já tinham sido avançadas informações de ataques com mísseis a bairros do leste da cidade de Alepo sob controlo dos rebeldes.

Esta terça-feira, de acordo com informações do Departamento de Estado norte-americano, as autoridades dos EUA e da Rússia vão voltar a reunir-se em Nova Iorque para discutir a situação na Síria, numa altura em que o colapso do acordo de cessar-fogo parece cada vez mais certo.

A entrega de ajuda humanitária às áreas sitiadas da Síria, em particular a Alepo, era uma parte essencial da trégua alcançada no sábado da semana passada. O Crescente Vermelho diz que conseguiu entregar ajuda na cidade de Talbiseh, na província de Homs, mas sublinha que a maior parte dos carregamentos continuam por distribuir.

Por sua vez, a ONU confirmou já ter recebido luz verde do Governo sírio para distribuir ajuda em zonas sitiadas de difícil acesso mas fontes da organização no terreno dizem que a missão continua difícil de executar por causa dos combates, da insegurança e dos atrasos administrativos.