Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Ataques aéreos atingem rebeldes em Alepo no último dia de cessar-fogo

  • 333

GEORGE OURFALIAN/GETTY IMAGES

Pelo menos quatro mísseis foram disparados no domingo contra bairros do leste da cidade sob controlo dos rebeldes que combatem Bashar al-Assad há mais de cinco anos. Presidente sírio confirmou entretanto o abate de um dos seus aviões de guerra em Deir ez-Zor, perto da zona onde os EUA mataram 62 soldados do regime “por engano” no sábado

O leste da cidade síria de Alepo, que está sob controlo de grupos rebeldes, foi alvo de quatro ataques aéreos este domingo à noite, os primeiros contra a cidade desde que o cessar-fogo negociado pelos EUA e pela Rússia começou a ser implementado na segunda-feira da semana passada.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, que monitoriza a guerra civil na Síria a partir de Londres, foi quem avançou a notícia, dizendo que dezenas de pessoas ficaram feridas, sem apontar responsabilidades pelos bombardeamentos contra posições dos rebeldes que combatem o regime de Bashar al-Assad desde 2011.

A notícia surge depois de um fim-de-semana de alta tensão por causa da guerra na Síria, após as forças da coligação internacional lideradas pelos EUA terem matado 62 soldados sírios num ataque aéreo em Deir ez-Zor no sábado. O Pentágono já assumiu que pode ter atingido os soldados leais a Assad inadvertidamente, achando tratar-se de uma posição do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Uma conselheira política síria defendeu à BBC que o bombardeamento aéreo dos EUA não pode ter sido um engano. Esta é a primeira vez nos quase seis anos de guerra civil na Síria que as forças norte-americanas atacam diretamente as tropas do regime sírio.

A cessação de hostilidades negociada por Washington e Moscovo há uma semana, com a duração de sete dias, não exclui ataques ao Daesh e a outros grupos jiadistas na região. Sob esse acordo de paz, os EUA e a Rússia comprometem-se a criar uma aliança inédita para derrotar estes grupos na Síria caso o cessar-fogo seja respeitado por todas as partes até à noite desta segunda-feira.

O caso dos soldados sírios abatidos pelas forças norte-americanas veio pôr esse plano em risco, com o Governo de Vladimir Putin, aliado de Assad, a declarar no domingo que o ataque "coloca um grande ponto de interrogação" no futuro da trégua, nas palavras do embaixador russo na ONU, Vitaly Churkin.

Em declarações à BBC, a conselheira de media do Presidente Assad, Bouthaina Shaaban, disse não acreditar que o ataque tenha sido um egano. "Os Estados Unidos, o superpoder, o maior país do mundo comete erros ao atingir o Exército [sírio]? Não faz sentido nem perguntar isto", disse à televisão britânica. "A outra explicação é que haja nos EUA uma autoridade que conduziu isto e outra que não queria fazê-lo. E é por isso que estão a ter dificuldades em implementar o acordo que alcançaram com os russos."

De acordo com o mesmo canal, um ativista em Alepo já confirmou os ataques aéreos da noite passada contra dois bairros do leste da cidade, Karam al-Jabal e Al-Shaar. O Centro de Media de Alepo fala em três feridos no bombardeamento contra o bairro de al-Sakhour.

No domingo, depois de uma tensa reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU convocada pela Rússia, o Governo sírio confirmou que perdeu um avião de guerra horas depois de a Amaq, a agência de propaganda do Daesh, ter avançado que o grupo abateu um avião de guerra das forças sírias também em Deir ez-Zor, na mesma área onde se deu o ataque da coligação internacional.

A partir do Líbano, a correspondente da BBC disse que é raro o Governo de Assad reconhecer baixas provocadas pelo Daesh, pelo que este anúncio pode ter como objetivo chamar a atenção para as consequências do ataque aéreo dos EUA contra os soldados sírios, que Damasco e Moscovo dizem ter contribuído para ganhos territoriais do Daesh.

Sob o acordo de cessar-fogo alcançado no sábado da semana passada, implementado na segunda-feira seguinte e cujo prazo termina esta noite, os EUA e a Rússia comprometem-se a coordenar ações contra o Daesh e também contra a Jabhat Fateh al-Sham — um grupo anteriormente conhecido como Frente al-Nusra, que há pouco tempo anunciou o corte de relações com a Al-Qaeda — caso todas as partes envolvidas respeitem as condições da trégua.

Esse mesmo acordo tinha previsto facilitar a distribuição de ajuda humanitária urgente às zonas sitiadas da Síria, em particular a Alepo, onde há cerca de 300 mil pessoas cercadas pelas forças sírias há vários meses. A ONU tem, desde o início da trégua, 20 camiões carregados de alimentos, água potável, medicamentos e outros bens essenciais na fronteira da Turquia com a Síria, a postos para partir para o leste de Alepo, mas ainda não recebeu autorização para avançar.