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Internacional

Uma quase-trégua e um quase-fracasso. A paz na Síria é cada vez mais uma miragem

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MIKHAEL KLIMENTYEV/KREMLIN POOL/EPA

Russos e oposição síria continuam a acusar-se mutuamente de violações à trégua que deveria ter entrado em vigor na segunda-feira passada. Putin acusa os EUA de continuarem a apoiar grupos terroristas e os EUA acusam o Presidente sírio de continuar a bloquear a distribuição de ajuda humanitária na Síria

Helena Bento

Jornalista

Uma semana depois de ter sido anunciada uma nova trégua para a Síria, a 18.ª desde que a guerra no país começou em 2011, continuam as trocas de acusações entre Rússia e Washington. Numa visita este sábado ao Quirguistão, o presidente russo Vladimir Putin acusou os EUA de não estarem “preparados para deixar de apoiar os grupos terroristas” que combatem Bashar al-Assad no terreno.

Nas mesmas declarações, Putin questionou ainda por que razão é que os Estados Unidos insistem em não divulgar uma documento oficial com os detalhes do acordo a que chegaram os chefes da diplomacia norte-americana e russa, John Kerry e Serguei Lavrov, respetivamente, no sábado passado, 11 de setembro.

Não é que o presidente russo estivesse verdadeiramente à espera de uma resposta. Ele mesmo a deu: “Isto tem que ver com a dificuldade dos EUA de separar os supostos membros bons da oposição dos elementos terroristas que também a integram. Tem que ver com o desejo dos EUA de continuar a apoiar o combate ao governo legítimo de Bashar al-Aassad”, disse Putin, citado pelo britânico “Guardian”.

Não é a primeira vez que o Presidente russo acusa Washington de apoiar forças terroristas na Síria - nomeadamente a Frente Al-Nusra, antigo braço da Al-Qaeda na Síria, agora designada Jabhat Fateh al-Sham, que tem presença nas áreas ocupadas pelos rebeldes - além dos conhecidos grupos moderados que se abertamente apoiados pelos EUA. Mas do lado dos EUA, a tensão não é menor. Barack Obama já disse estar “extremamente preocupado porque Assad continua a bloquear a distribuição de ajuda humanitária indispensável”.

O acordo de cessar-fogo está, desde o início, envolto em grandes suspeitas. Não só porque são muitas as dúvidas de que venha efetivamente a ser respeitado - governo sírio e oposição continuam a acusar-se mutuamente de violações à trégua, com os russos a acusar os rebeldes sírios de terem disparado, na sexta-feira, 55 vezes contra posições do Governo, da sua milícia e de civis, e atingido mortalmente 12 pessoas, incluindo duas crianças - como continuam a haver disputas sobre os alvos passíveis de ser, ou não, atacados, num acordo de cessar-fogo que está dependente da autorização do presidente sírio para a entrada de ajuda em Alepo, uma das maiores cidades da Síria e das mais afetadas pelo conflito civil.

Ainda este sábado, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, numa conversa por telefone com o seu homólogo norte-americano, sublinhou mais uma vez a importância de separar as águas - membros de grupos moderados para um lado, membros de grupos terroristas para outro.

Sob o acordo de cessação de hostilidades, cujo futuro é incerto e, por enquanto, pouco promissor, Washington e Moscovo comprometem-se a trabalhar em conjunto para destronar o autoproclamado Estado Islâmico e a criar uma aliança inédita de ataques coordenados na Síria.

  • White Helmets: “Salvar uma vida é salvar a Humanidade”

    São cerca de 3000 voluntários, sobretudo homens, antigos professores, médicos, padeiros, carpinteiros, farmacêuticos. Também há estudantes. Praticamente todos os dias são chamados a socorrer vítimas de bombardeamentos, que dizem ser, quase na totalidade, da autoria do regime sírio e das forças aliadas russas. Muitos deles foram também já vítimas de ataques aéreos e morreram. São os White Helmets, uma força de socorros não-governamental que atua na Síria. Estão nomeados para o Nobel da Paz, cujo vencedor é anunciado a 7 de outubro