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O que é que esta mulher quer?

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vcg/getty

É difícil responder à pergunta do título – Arianna Huffington já foi republicana e liberal, mas tentou entrar na política como candidata independente; passou de comentadora a protagonista, de empresária milionária a guru do bem-estar; agora, depois de “mudar a forma como consumimos media”, quer mudar a forma como “vivemos e trabalhamos”. Bem-vindos à história da fundadora do “Huffington Post”, que alguém já descreveu como “bonita mas maléfica” e sedenta por fama – o que é certo é que ela tem um novo projeto em mãos e não tem intenção de abrandar

Há quem diga que uma história em particular diz tudo aquilo que precisamos de saber sobre Arianna Huffington, a fundadora do já célebre site noticioso “Huffington Post”. Corria o ano de 2003 e Arianna era candidata independente ao cargo de governadora da Califórnia, uma corrida que acabaria por perder. Num dos eventos da campanha, a empresária viu ao longe Arnold Schwarzenegger e a mulher, Maria Shriver, e não hesitou em correr para os alcançar e até abalroar uma mesa cheia de microfones dos jornalistas, conseguindo uma fotografia com o famoso casal que no dia a seguir ilustraria as capas dos jornais.

Passaram 13 anos, o “Huffington Post” tornou-se um meio de comunicação digital de sucesso – com direito inclusivamente a um prémio Pulitzer – e Arianna passou a ser uma conhecida empresária liberal da área dos media. Agora, ela volta aos holofotes porque acaba de anunciar uma nova aventura: o lançamento de um novo projeto, o “Thrive Global”, que promove hábitos de saúde e bem-estar – e consequentemente a saída da liderança do “Huffington Post”, que apanhou muita gente de surpresa.

A filosofia do “Thrive”, que promete materializar-se num site, aplicações e eventos para consumidores mas também em workshops e seminários para empresas, não é novidade para quem segue a carreira de Arianna de perto. A “obsessão” que a própria confessa ter pela saúde e bem-estar – e pela produtividade que os bons hábitos podem trazer aos trabalhadores, quando incentivados pelas empresas – começou em 2007, quando Arianna sofreu um desmaio - fruto da exaustão e da falta de sono - no escritório de casa.

“Consultei médicos atrás de médicos para saber se havia outros problemas médicos além da exaustão. Não havia. Era uma dolorosa chamada de atenção”, explica, citada pelo “Canadian Business”. “A glamourização da privação de sono está profundamente enraizada na nossa cultura – e isso é particularmente evidente no mundo dos negócios.”

UMA MULHER INFLUENTE. Arianna Huffington com uma das principais figuras do Brexit, o antigo mayor de Londres Boris Johnson FOTO ANDREW BURTON / GETTY

UMA MULHER INFLUENTE. Arianna Huffington com uma das principais figuras do Brexit, o antigo mayor de Londres Boris Johnson FOTO ANDREW BURTON / GETTY

ANDREW BURTON / GETTY

A epifania que inspirou um novo negócio

Depois da epifania, o que é que Arianna decidiu fazer? O que se esperaria dela: criar, planear, traçar novos planos surgidos da nova inspiração. A fundadora do “Huffington Post” escreveu dois livros sobre a importância de dormir e descansar bem – “Thrive”, de 2014, e “The Sleep Revolution”, de 2016 -, instalou “salas de sestas” nos escritórios da empresa em Nova Iorque e focou-se em dar palestras, falar sobre o assunto e, agora, fundar um novo projeto de raiz – “porque não podia criar algo completamente novo em part-time”.

“Construir algo do zero não se torna mais fácil ou menos desafiante porque já o fizemos antes. Só há uma forma de o fazer: com toda a nossa atenção e todo o nosso coração”, explicou em comunicado aos trabalhadores do “Huffington Post”, que pensava ser o seu “último ato”. Mas isso seria difícil, porque Arianna já viveu muitas vidas e mostra sempre uma incrível capacidade de se reinventar – o que lhe vale tantos elogios quanto críticas ferozes.

O início do “Huffington Post”, o site que tantos nomes da indústria dos media garantem ter sido determinante para os modelos de negócio dos jornais atuais, mostrou bem a importância do nome de Arianna no panorama político e social norte-americano. A ideia era simples: partindo de um design moderno e refrescante, o site aliava publicações alheias (nem sempre com a concordância dos respetivos autores), textos de cronistas bem conhecidos e reportagens exclusivas e oferecia gratuitamente o produto final ao público online.

“Os donos dos jornais tradicionais podem tê-lo odiado, mas o mesmo não se pode dizer dos leitores”, sublinha o “Financial Times”. A verdade é que mesmo com as controvérsias que rodearam o facto de o “Huffington Post” não pagar a muitos dos seus colaboradores – os nomes mais conhecidos, como John Cusack ou Gwyneth Paltrow, eram amigos de Arianna que, garante a “Vanity Fair”, “a adoravam, lhe deviam um favor ou não conseguiram resistir-lhe”; os nomes anónimos queriam a oportunidade de assinar ao lado dos pesos pesados – o site atingiu uma popularidade quase instantânea e atualmente emprega 850 trabalhadores em escritórios espalhados por 15 países diferentes, garantindo que recebe a visita de “200 milhões de leitores únicos todos os meses”.

JACOPO RAULE / GETTY

“Muda de políticas como Jennifer Lopez de maridos”

A “Vanity Fair” sublinha que em 2005 “o protótipo de blogger era uma voz isolada num computador, uma num milhão inserida numa conversa vasta e poderosa” e que o “Huffington Post” veio acrescentar importância ao papel dos bloggers e do conteúdo online. Mas não foram só os bloggers que beneficiaram: da equipa que fundou o site, além de Arianna, também Andrew Breitbart se tornou célebre ao fundar o site de extrema-direita Breitbart.com e Jonah Peretti alcançou o sucesso com o superpopular Buzzfeed.

Mas se agora todos reconhecem a importância do “Huffington Post”, que veio redefinir o significado de distribuir notícias e conteúdos na internet, na altura as críticas foram muitas – nem tanto dirigidas ao conteúdo da nova plataforma, mas sobretudo ao percurso da fundadora. “A mulher que muda de políticas como Jennifer Lopez muda de maridos”, escrevia na altura do lançamento o “Boston Herald”. A crítica não era nova: a carreira de Arianna deixava dúvidas sobre os seus valores, convicções e, sobretudo, objetivos.

Nascida Ariadne-Anna Stanissnopoulos em Atenas, em 1950, Arianna estudou Economia em Cambridge e acabou por se tornar um nome sonante nos Estados Unidos com um perfil bem diferente do que lhe conhecemos hoje. Foi em 1986 que decidiu casar com Michael Huffington, um político conservador, e assumir-se republicana convicta, ganhando fama enquanto comentadora de rádio e de televisão conservadora.

Sobre a relação com o marido, dir-se-ia que foi Arianna o cérebro que organizou a campanha de 1994 de Michael para o senado, altura em que ganhou os cognomes “bonita mas maléfica” e “Lady MacBeth da direita” atribuídos pelo estratega de campanha do marido. A separação de Michael, seguida da revelação deste da sua homossexualidade, trouxeram uma nova vida a Arianna: de Washington para Los Angeles, de comentadora republicana a ativista liberal.

Em Los Angeles, no final dos anos 1990, a agora fundadora do “Huffington Post” e diretora do Huffington Post Media Group concentrou-se na renovação da sua imagem, organizando angariações de fundos para causas ambientais ou contra a pobreza e tornando-se amiga, segundo um perfil da “Vanity Fair”, “de toda a gente que fosse alguém”. Em 2003, concorreu como independente ao lugar de governadora de Califórnia, na tal campanha em que se esforçou para aparecer ao lado de Schwarzenegger.

MUDANÇA NO JORNALISMO. Em 2005, Arianna lançou o Huffington Post e mudou a forma como consumimos os media

MUDANÇA NO JORNALISMO. Em 2005, Arianna lançou o Huffington Post e mudou a forma como consumimos os media

KAZUHIRO NOGI / AFP / GETTY

Publicidade, drama e amigos famosos

Foi depois da incursão frustrada na arena política que Arianna assumiu as novas convicções liberais e de esquerda, apoiando John Kerry para a Casa Branca e criticando ferozmente as posições do então presidente George W. Bush e a guerra no Iraque. Foi neste contexto que o “Huffington Post”, provavelmente a mais importante aposta da sua carreira, surgiu: enquanto resposta de esquerda para as ações do presidente, enquanto plataforma para expressar as suas opiniões políticas.

É por esta razão que muitos questionam agora a sua saída do panorama político a escassos meses das eleições presidenciais – os rumores garantem que pode ter que ver com a compra da Yahoo pela Verizon, que detém o “Huffington Post”, e as mudanças na hierarquia que daí advirão, mas Arianna só tem elogios para fazer ao projeto, que poderá representar uma expansão nas formas de distribuição do “Huffington Post”. De resto, a empresária mantém as ferozes opiniões sobre Trump e orgulha-se de o seu site ter sido “dos primeiros a ver Trump como aquilo que verdadeiramente é”, passando a publicar as notícias sobre o candidato para a secção de entretenimento no verão passado e acompanhando-as com uma nota em que se esclarece que o multimilionário é “racista, misógino e mentiroso compulsivo”.

A nova aventura de Arianna ainda parece ter contornos por definir – se a “Thrive” garante que “a mulher que mudou a forma como consumimos media está agora a mudar a forma como trabalhamos e vivemos”, críticos como Amanda Hess, do site Slate, dizem que o seu sistema de saúde e bem-estar “não quer mudar o sistema capitalista que nos obriga a trabalhar sem parar, mas ensinar-nos a ser uma parte mais integrada nesta máquina”.

A julgar pelos projetos anteriores de Arianna, mediatismo, “publicidade e algum drama”, como refere a “Vanity Fair”, não deverão faltar à mulher que aos 66 anos já é “socialite, autora de dez livros (sobre Picasso, Maria Callas, política ou espiritualidade), comentadora, cronista, ativista e candidata política”. O que é que falta a Arianna, qual será o seu último ato? “Já toda a gente sabe que ela é ambiciosa, mas o que é que a motiva? Poder? Dinheiro? Fama? Ideias? Ideais? Quando uma mulher se casa com um multimilionário gay, concorre a um cargo político e passa de conservadora de Washington a ativista liberal de Los Angeles, a resposta não é simples”, reconhece o mesmo artigo. Com uma carreira tão variada, é impossível adivinhar os próximos passos de Arianna – só podemos imaginar que dificilmente deixaremos de ouvir falar no nome dela.