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EVARISTO SA/AFP/GETTY IMAGES

Novo Presidente brasileiro, Michel Temer acredita no poder de cartas com citações em latim e em amor nascido a partir de um fac-símile

Plínio Fraga, no Rio de Janeiro

Em 129 anos de regime republicano, os brasileiros participaram de 22 eleições diretas para a presidência. No mesmo período, o país assistiu a 30 disputas presidenciais, sendo que oito foram por meio de eleições indiretas. Desde 31 de agosto, no entanto, o Brasil conheceu o seu 46º Presidente da República.

É um dos poucos países em que o número do total de presidentes depende do critério escolhido. Há quem mantenha a contagem em 30 presidentes, limitando-se àqueles que exerceram a presidência em carácter efetivo, por um ou mais mandatos.

É uma conta que não fecha porque integrantes de juntas militares e interinos estão contabilizados nessa história. Sete vice-presidentes já haviam assumido a presidência por impedimento do titular até 2016. Michel Miguel Elias Temer Lulia tornou-se o oitavo, o segundo a partir de um processo de impeachment.

Por muitos motivos, Michel Temer traz consigo símbolos da política tradicional brasileira. Um deles é sua formação como advogado. O país empossou um médico, um jornalista, um sociólogo, um torneiro mecânico e uma economista como Presidente. Foram 15 os generais ou marechais que tomaram para si o cargo. São os advogados os que mais ostentaram a faixa presidencial brasileira. Com Temer, por 23 vezes eles se tornaram mandatários supremos.

Temer é um homem formal, que tem apreço por falar um português muito distante da informalidade geral com a qual o brasileiro trata a língua.

No primeiro discurso que fez como presidente interino, Temer fez uso da mesóclise (“...sê-lo-ia pela minha formação...”) e algumas ênclises inusuais, com tropeço na concordância: “Olha aqui, vocês, que vão ocupar os poderes, exerçam-no com harmonia porque são órgãos...”. A forma adequada seria “exerçam-nos”, já que o pronome “os” retoma “poderes”. Esse “os” passa a “nos” para se adaptar fonologicamente à forma verbal “exerçam”, explicou o professor de português Pasquale Cipro Neto.

Percurso. Temer tornou-se o oitavo vice-presidente a assumir a presidência, o segundo a partir de um processo de impeachement

Percurso. Temer tornou-se o oitavo vice-presidente a assumir a presidência, o segundo a partir de um processo de impeachement

ANDRESSA ANHOLETE/AFP/GETTY IMAGES

Aos 75 anos, Temer é também o mais velho Presidente a iniciar o exercício da função. Pois, se há uma novidade em Michel Temer, é que é o primeiro Presidente a se declarar poeta.

Bons poetas e políticos ruins têm semelhanças entre si, como escreveu T.S. Eliot. Eles roubam. A referência política não necessita de explicação, mas a literária sim. O poeta norte-americano dizia que poetas imaturos imitam, e poetas maduros se apropriam das coisas para si.

No extremo oposto, estão os maus poetas que são bons políticos. Há exemplos vários. O Presidente norte-americano Barack Obama escreveu poesia. O ex-presidente Jimmy Carter é poeta publicado, assim como o francês Dominique de Villepin, o turco Saparmurat Niyazov, e o sul-africano Mongane Serote.

Haverá bons poetas que são bons políticos. O primeiro-ministro inglês Winston Churchill recebeu o prémio Nobel de Literatura. Mario Vargas Llosa também, mas foi derrotado na disputa presidencial da qual participou.

Talvez o símbolo maior de bom poeta e bom político, espécime rara, seja Vaclav Havel (1926-2011), poeta, ensaísta e político checo. Tornou-se o último Presidente da Checoslováquia e o primeiro Presidente da República Checa. Foi dissidente do movimento comunista e autor de peso contra o totalitarismo. Reuniu as raras qualidades de pensador e estratego.

Em 1999, instado a traçar diretrizes políticas, foi mais poeta do que político. “Não há diretrizes. Provavelmente não há nenhuma diretriz. A única coisa que recomendo é senso de humor, uma habilidade para ver as coisas em suas dimensões ridículas e absurdas, a rir dos outros e de nós mesmos, um senso de ironia a respeito de tudo que pede paródia neste mundo. Em outras palavras, só posso recomendar perspetiva e distanciamento. Atenção aos perigos maiores da vaidade e presunção, nos outros e em nós mesmos. Uma boa mente. Uma certeza modesta sobre o significado das coisas. Gratidão pela dádiva da vida e a coragem de assumir a responsabilidade por ela. Vigilância de espírito”, definiu Havel.

Antes de Temer, o Brasil teve grandes poetas que puderam escrever graças a empregos que mantinham no Estado. Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira trabalharam no Ministério da Educação. Vinícius de Moraes e João Cabral de Melo Neto, no Ministério das Relações Exteriores. Talvez sejam os quatro maiores poetas brasileiros, mas nenhum deles quis ser Presidente da República.

Quem mais se aproximou dos palácios foi Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), ghost-writer do Presidente Juscelino Kubitschek. Graças a Schmidt, frases soberbas são ainda hoje atribuídas a JK, sendo a mais famosa: “Deus poupou-me do sentimento do medo”, disse ao enfrentar a ruidosa crise política.

Schmidt era poeta fino. Capaz de obras-primas como “Vazio”:

“A poesia fugiu do mundo./ O amor fugiu do mundo —/ Restam somente as casas,/ Os bondes, os automóveis, as pessoas,/ Os fios telegráficos estendidos,/ No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo./ O amor fugiu do mundo —/ Restam somente os homens,/ Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.

Resta a vida que é preciso viver./ Resta a volúpia que é preciso matar./ Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.”

Contraposto a obras deste nível, é fácil perceber que Temer é mau poeta. Seu primeiro livro de poemas, “Anónima Intimidade”, foi publicado em 2013, e tem obras como “Vermelho”:

“De vermelho/ Flamejante./ Labaredas de fogo./ Olhos brilhantes/ Que sorriem/ Com lábios rubros./ Incêndios/ Tomam contam de mim./ Minha mente/ Minha alma./ Tudo meu/ Em brasas./ Meu corpo/ Incendiado/ Consumido/ Dissolvido./ Finalmente/ Restam cinzas/ Que espalho na cama/ Para dormir.”

Os seus poemas carregam em si cheiro de naftalina, como se tivessem por muito tempo sido mantidos numa gaveta, aberta por acidente. A forma, os versos e os temas são antigos, como poetiza em “Correio Elegante”:

“Hoje, torpedo./ Bom mesmo era o correio elegante/ Nas quermesses do interior./ O garçom levava a sua mensagem para alguém./ Ou trazia,/ Sempre anónimas,/ Palavras de amor./ Ou admiração./ Despertava a curiosidade./ Quem mandou?/ E a sua mente divagava./ Sonhava./ Fantasiava./ Desejava./ Será ela?/ Outra?/ Era uma intimidade aquele anonimato./ Depois, você caminhava para sua casa, para seu quarto./ E dormia inebriado pelas palavras e pelo perfume/ Que o correio elegante trazia.”

Temer começou na vida pública integrando a equipa do segundo mandato do ex-governador de São Paulo, Paulo Adhemar de Barros

Temer começou na vida pública integrando a equipa do segundo mandato do ex-governador de São Paulo, Paulo Adhemar de Barros

Leonard Mccombe/The LIFE Images Collection/Getty IMAGES

Dilma, que chegou a ser presa durante a ditadura, participou no plano de assalto à casa do irmão da amante de Adhemar de Barros

Dilma, que chegou a ser presa durante a ditadura, participou no plano de assalto à casa do irmão da amante de Adhemar de Barros

AFP/Departamento de Ordem Política e Social

O humorista e também poeta Gregório Duvivier arrebatou plateias ao introduzir um vocativo em um dos poemas de Temer (“Embarque”), tornando-o peça dedicada à ex-parceira Dilma Rousseff, Presidente destituída à qual substituiu. “Dilma, embarquei na tua nau sem rumo. Eu e tu. Tu, porque não sabias para onde querias ir. Eu, porque já tomei muitos rumos sem chegar a lugar nenhum.”

No poema “Por que não paro?”, Temer ameaça responder àqueles que torceram o nariz aos seus escritos, mas enumera 12 porquês sem resposta alguma.

Não é fácil obter respostas de Michel Temer. Entre os jornalistas costumava-se gracejar que ainda haveria de nascer o profissional que conseguisse tirar de Temer uma declaração que pudesse ser levada à primeira página. “Uma entrevista com Temer é como ter sua alegria sugada por um buraco negro. É como encarar o abismo da melancolia”, disse Gregório Duvivier, uma das vozes que por mais vezes se levantou contra Temer.

Um marqueteiro chamou Temer de “esfinge metálica” por causa do sorriso frio e da postura sempre escorregadia. A esfinge é a criatura mítica grega delineada como traiçoeira e impiedosa. Aqueles que não podem decifrar seu enigma são devorados. Dilma Rousseff cometeu muitos erros administrativos e políticos para ser afastada. Um deles foi não ter compreendido a esfinge Temer. Acabou tragada por ela.

Formando em Direito em 1963, Temer começou a trabalhar como advogado às vésperas do golpe militar de 1964. Afirma que não foi a favor nem contra o movimento que derrubou o Presidente constitucional João Goulart. Começou na vida pública integrando a equipa do segundo mandato do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, que administrou o Estado entre 1947-1951 e 1963-1966. Adhemar ficou famoso pelo slogan que os aliados espalhavam: “Rouba, mas faz.”

Com rara graça, Temer conta que conheceu Adhemar quando ainda integrava o movimento estudantil. O governador, ao saber que Temer era segundo tesoureiro do grupo de estudantes, puxou-o para perto de si. “Se é você quem cuida do dinheirinho, fica aqui do meu lado.”

Adhemar de Barros foi a primeira ligação na vida de Temer e Dilma. A ex-presidente, como liderança de grupo de resistência à ditadura militar, participou no planeamento do que ficaria conhecido como “o maior golpe da história do terrorismo mundial”, na definição do jornalista Elio Gaspari. Em 1969, um grupo de 13 guerrilheiros invadiu uma mansão em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Tratava-se da casa do irmão de Ana Capriglioni, amante de Adhemar de Barros. Parte do grupo substituiu os funcionários da casa e parte dirigiu-se ao quarto principal, no segundo andar da mansão, no qual localizaram um cofre. Pesava 350 quilos. Decidiram rolá-lo pela escada abaixo.

Depois de aberto, apurou-se que o cofre tinha quase 2,5 milhões de dólares. Parte do dinheiro foi enviado para a campanha guerrilheira na Argélia, parte financiou ações contra o regime militar brasileiro. Dilma não teve participação direta na ação, mas supervisionou a sua planificação. “Se tivesse tido, não teria nenhum problema em admitir”, disse ela.

Os destinos de Michel Temer e Dilma Rousseff só voltariam a cruzar-se em 2007. Dilma era ministra do Governo de Lula, e Temer acabara de ser conduzido a presidente do PMDB, o maior partido brasileiro desde a redemocratização.

Na maior crise do Governo de Lula, a do ‘Mensalão’ — o esquema de compra de votos de parlamentares em benefício do Planalto, que veio a se tornar público em 2005 —, o PMDB negociou o apoio ao Presidente e mais que dobrou a sua participação no Governo.

O PMDB é o grande partido brasileiro. Tem a maior bancada da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, com 68 deputados, e 18 senadores. Governa sete estados, que respondem por um terço da riqueza nacional.

Controla a administração de 996 municípios, inclusive duas capitais. Tem 7935 vereadores — as autoridades legislativas municipais — e soma 2,4 milhões de filiados. Não é à toa que é chamado “partido da máquina”. É um partido imenso, mas não representa nada. Exceto conveniências.

O PMDB completou 50 anos de existência este ano. Com história de resistência à ditadura militar, a redemocratização desnudou o partido. As duas direções do partido — José Sarney (1985-1990) e Itamar Franco (1993-94) — deram-se porque o primeiro herdou o cargo após a morte do titular, e o segundo após o impeachment do Presidente.

A partir de 1994, o PMDB descobriu que melhor do que ter candidato é estar com quem vencer. Não importa que lado vença. O PMDB apoiou FHC (PSDB) em 1994, em 1998 e em 2002. Com Lula eleito, bandeou-se para o governo antes mesmo da posse. Manteve-se na aliança em 2006, em 2010 e em 2014, quando exerceu a sua maior peculiaridade: dividir-se para reinar.

Nem Lula nem Dilma queriam aceitar Temer como vice, mas não tiveram alternativa

Nem Lula nem Dilma queriam aceitar Temer como vice, mas não tiveram alternativa

EVARISTO SA/AFP/Getty

Michel Temer no dia da tomada de posse como 46º Presidente do Brasil

Michel Temer no dia da tomada de posse como 46º Presidente do Brasil

ANDRESSA ANHOLETE/AFP/Getty

O PMDB não se define governo nem oposição. O PMDB não é orgânico nem transgénico. O PMDB não é capitalista nem socialista. O PMDB não é evangélico nem católico. Como o antigo PSD, entre a “Bíblia” e “O Capital”, o PMDB fica com o “Diário Oficial”.

Com força no interior, dividido pelo país como capitanias hereditárias, cada líder com o seu feudo político, o PMDB não é um partido, são vários. Forjado na dura oposição ao regime militar, operador principal da transição negociada para a democracia, o partido sucumbiu à governação sem princípios. Está no poder desde 1985, à exceção de brevíssimos dois anos com Fernando Collor na Presidência, entre 1990 e 1992.

Exemplo antigo de “partido-ônibus”, como definido pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso, o PMDB está mais virado hoje para partido-bónus, a render dividendos para as suas lideranças nos meandros do poder, sem que tenha uma cara política. Não é à toa que os financiadores de campanha correm para os seus braços. O PMDB é o amigo que todos querem manter por perto. Na frase do escritor Otto Lara Resende, “para abraçar ou apunhalar pelas costas é preciso estar próximo”.

Nem Lula nem Dilma queriam aceitar Temer como candidato a vice-presidente da candidatura petista em 2010. Consideravam-no ardiloso e voraz em demasia quando reivindicava posições para o partido, e uma nulidade em termos eleitorais.

Lula pediu que o PMDB lhe oferecesse uma lista de três nomes, dos quais ele selecionaria um para vice. Temer não aceitou. Indicou o seu próprio.

Em 2010, o historiador Luiz Felipe de Alencastro chamou a atenção para um problema que marcaria no futuro o potencial do consórcio PT-PMDB. “Uma presidenciável desprovida de voo próprio na esfera nacional, sem nunca ter tido um voto na vida, estará coligada a um vice que maneja todas as alavancas do Congresso e da máquina partidária peemedebista”, disse Alencastro. “É uma aliança de alguém que sabe tudo e tem sob seu comando a maior bancada do Congresso com alguém que vai começar a aprender.”

Alencastro previu os acontecimentos futuros com perfeição. Os profissionais da política afastaram Dilma e alçaram Temer à Presidência.

Político à moda antiga, Temer rompeu com Dilma por meio de uma carta, que tinha uma epígrafe em latim para justificá-la: “Verba volant, scripta manent” (“As palavras voam, os escritos permanecem”).

Um ano e oito meses após tomar posse em seu segundo mandato, Dilma Rousseff foi impedida, definitivamente, de ocupar a Presidência, depois de o Senado aprovar o impeachment, por 61 votos a 20, em 31 de agosto de 2016, por crime de responsabilidade. Eram necessários 54 votos. Dilma, porém, viu mantido o seu direito de exercer cargos na função pública. Temer assumiu de forma definitiva a Presidência.

Depois de imensos protestos de rua que pediram a saída de Dilma Rousseff da Presidência, as duas últimas semanas têm sido marcadas por vários protestos pedindo a saída de Temer e a convocação de novas eleições presidenciais.

Temer, como vice de Dilma, enfrenta um processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Delatores afirmam que dinheiro roubado de empresas estatais brasileiras foi drenado para a campanha de Dilma e Temer em 2010 e 2014.

O tribunal vai avaliar se o afastamento de Dilma pode sepultar o processo que pede a cassação da aliança Dilma-Temer por abuso do poder económico. Temer afirma que a sua responsabilidade deve ser separada da de Dilma. Culpa a antecessora pelas irregularidades na campanha. E tem minimizado os protestos realizados contra ele. “Vou insistir no discurso da pacificação. Na verdade, são pequenos grupos, parece que são grupos mínimos, né? Não são movimentos populares de muito peso. Não tenho numericamente, mas são 40, 50, 100 pessoas, nada mais do que isso. Agora, no conjunto de 204 milhões de brasileiros, acho que isso é inexpressivo.”

Temer condenou os que confundem direito de manifestação com depredação, que se tem espalhado por capitais brasileiras: “O que está se exercendo é um direito que não existe no nosso sistema, que é o direito à depredação. Manifestação democrática é aquela que pode eventualmente sair às ruas e pregar uma ideia. Quando se trata de depredação, não, isso daí não está previsto na ordem normativa. E o que está acontecendo são movimentos depredatórios”, reclamou.

Paixão. Marcela, a mulher, tem mais dois centímetros do que ele. O casal tem um filho de 7 anos. “O Michelzinho é a minha paixão”, disse Temer

Paixão. Marcela, a mulher, tem mais dois centímetros do que ele. O casal tem um filho de 7 anos. “O Michelzinho é a minha paixão”, disse Temer

Adriano Machado/REUTERS

Em sua primeira reunião ministerial, Temer criticou aqueles que o chamam de golpista. “Nós temos o hábito de apadrinhar certos rótulos e este é um rótulo, digamos assim, muito bem-sucedido, mas contrário ao texto constitucional. Na verdade, dá-se um golpe quando você tem uma rutura constitucional. Qual é o golpe? O golpe é destruir o sistema normativo. Quando você tem uma violação do texto constitucional, você pode falar em golpe, porque golpe tem um sentido jurídico, não tem um sentido político. E a palavra golpe foi usada no sentido político e não no sentido jurídico.”

Defendeu que o processo de afastamento de Dilma foi constitucional. “Quais são os golpistas? Os representantes do povo que numericamente, expressivamente, decretaram o impedimento e sob a presidência do presidente do Supremo Tribunal Federal. Serão todos golpistas no sentido jurídico? A palavra é uma palavra de natureza política, então é mais do que natural. Não me surpreende. Meu único desejo é que, em dois anos e quatro meses, possa entregar um país reunificado, pacificado e nos trilhos.”

Colocou na sua agenda como prioridade a reforma do sistema de aposentadorias e o que chama de simplificação das relações trabalhistas. “Não vamos mais falar em reforma trabalhista. Nós vamos falar em adequação da relação empregado-empregador, não é?”

Temer é um homem vaidoso. O cabelo está sempre penteado para trás e fixado com gel moderador, o que passa a impressão de que acabou de sair do banho a qualquer hora do dia. Ou de que está mumificado, como notou o humorista José Simão, que o apelidou de FranksTemer.

Há 35 anos, o Presidente frequenta o mesmo cabeleireiro. O salão do Jassa, em São Paulo, só tem um frequentador mais famoso que Temer: o apresentador de televisão Sílvio Santos.

Alguns anos atrás, Temer foi submetido a uma cirurgia para transplante de cabelos. Tirou fios das laterais e implantou na parte superior da cabeça. É magro e mede 1,70 metros. Tem o hábito de engatar a ponta dos dedos e puxar as mãos como se quisesse separá-las. Sua postura é sempre ereta, e parece não relaxar nem quando se senta numa poltrona.

“Você sabe, sou uma pessoa formal. Disseram que eu preciso mudar o meu jeito, que sou muito cerimonioso. Mas como? Tenho inveja de quem faz blague. Eu não sei fazer isso. Se fizer, vai ser um desastre. Não sou eu”, admitiu em entrevista.

“Você sabe, eu tinha um irmão que era muito formal e elegante no trato com as pessoas. Ele serviu um pouco de modelo. As pessoas gostavam dele. Eu acho que não se pode confundir cerimónia com antipatia.”

O deputado é o caçula de oito irmãos. Seus pais, os libaneses March e Miguel Elias migraram para o Brasil em 1930. O casal, com três filhos nascidos no Líbano, foi morar numa chácara, em Tietê, no interior de São Paulo, onde se cultivavam arroz e café.
Está casado há 13 anos com Marcela, mais jovem que ele 42 anos. Aos 33 anos, Marcela é mais nova que as três filhas do primeiro casamento de Temer. Com sua primeira mulher, Maria Célia, teve as filhas Luciana, de 46 anos; Maristela, 43; e Clarissa, 41. Em seguida, casou-se com Neuza e não teve filhos. Namorou ainda a jornalista Erica Ferraz, em Brasília, na época que era deputado federal, e teve Eduardo, de 17 anos.

Marcela é esbelta. Tem 1 metro e 72 de altura (dois centímetros a mais do que Temer) e pesa 66 quilos. Tatuou no pescoço o nome do marido.

O casal teve um filho que está com 7 anos. “O Michelzinho é a minha paixão”, disse. Conheceu Marcela, uma jovem loura e esguia, quando ela estava com 18 anos e ele 60. Disse que a viu no restaurante do tio dela, durante uma campanha eleitoral, e a achou muito bonita. Recebeu um e-mail dela, cumprimentando-o pela vitória. Temer ligou para a moça e convidou-a para sair. Quatro meses depois estavam casados.

“Era um contacto profissional que poderia me ajudar a dar um up na carreira [de modelo]. Eu o achei charmosão”, disse Marcela, numa entrevista em que afirmou que nunca se incomodou com a diferença de idade entre os dois.

Foi o pai que sugeriu a Marcela que escrevesse um e-mail parabenizando Temer pela eleição a deputado federal em 2002. “Escrevi: ‘Você se lembra, eu sou a Marcela, parabéns, meu telefone é tal, se quiser manter contacto...’ Uma coisa singela, quase fria”, lembrou ela. Três dias depois, ele ligou. “Quando falou: ‘É a Marcela?’, eu pensei: ‘Meu Deus, é o Michel Temer!’”

Na casa do Alto de Pinheiros, em São Paulo, está preservado numa mesa o aparelho de fac-símile pelo qual Temer leu aquele e-mail de Marcela, impresso e encaminhado pela sua assessoria. Durante meses, ela ouvia-o contar: “No dia em que chegou aquele fax, fiquei muito feliz.” Sem se dar conta de que havia escrito para o endereço profissional de e-mail, ela pensava: “Coitado, ele acha que e-mail é fax”, lembra, rindo.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 10 de setembro de 2016