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Ao quarto dia de cessar-fogo, Alepo continua sem ajuda

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AMEER ALHALBI

ONU exige que o regime sírio permita “imediatamente” a distribuição de ajuda humanitária no leste da cidade, sob controlo de grupos rebeldes, onde mais de 300 mil pessoas vivem sitiadas há vários meses

O representante especial da ONU para a Síria exigiu na quinta-feira ao regime sírio que autorize “imediatamente” a distribuição de ajuda humanitária no leste de Alepo, onde mais de 300 mil pessoas vivem sitiadas há vários meses, com necessidades urgentes de comida, água potável e medicamentos. O pedido surgiu ao quarto dia de um acordo de cessar-fogo alcançado pelos EUA e pela Rússia em Genebra, naquela que é a 18.ª iniciativa de paz entre os arquirrivais desde o início da guerra na Síria em março de 2011.

Também em Genebra, Staffan de Mistura disse ontem que a ONU tem 20 camiões com bens essenciais estacionados na fronteira da Turquia com a Síria, à espera de luz verde para distribuírem essa ajuda pela população do leste de Aleppo, que está sob controlo de grupos rebeldes que combatem o regime de Assad. “O Governo sírio prometeu autorizações para a ONU antes do cessar-fogo que ainda não foram recebidas”, acusou De Mistura. “Isto é algo que tem de acontecer imediatamente.”

O sueco Staffan de Mistura é o representante da ONU para as negociações de paz para a Síria

O sueco Staffan de Mistura é o representante da ONU para as negociações de paz para a Síria

Jan Egeland, secretário-geral do Conselho Norueguês para os Refugiados e conselheiro especial do representante da ONU para a Síria, lamentou ontem a ineficácia de todas as partes envolvidas na trégua alcançada, sublinhando que a ajuda humanitária pronta a distribuir pode chegar a Alepo já esta sexta-feira, se houver vontade. “Será que homens adultos podem parar de criar obstáculos burocráticos para impedir funcionários humanitários de fazerem o seu trabalho de ajudar civis, mulheres e crianças feridas?”

De acordo com a correspondente da Al-Jazeera em Gaziantep, cidade turca na fronteira com a Síria, já foram alcançados alguns progressos, mas pode levar vários dias até que os camiões da ONU consigam chegar a Alepo. “Uma das questões-chave é o acesso”, explica Stefanie Dekker. “Uma das grandes artérias até Alepo precisa de se tornar uma zona desmilitarizada para que isso possa acontecer. As tropas do Governo sírio e as forças da oposição teriam de abandonar os três quilómetros ao redor da estrada Castello com a sua artilharia pesada. O acordo prevê que os dois lados façam isso ao mesmo tempo, por causa da desconfiança mútua.”

Sendo a única rota de abastecimento até à zona mais sensível da maior cidade da Síria, a retirada da estrada Castello é crucial para garantir que os residentes de Alepo, totalmente dependentes de ajuda exterior, possam receber comida, medicamentos e outros bens essenciais.

Os camiões da ONU estão à espera de autorização de entrada no território sírio desde quarta-feira, dia em que Ban Ki-moon pediu à Rússia e aos EUA que arranjem forma de garantir o acesso a Alepo. “Pedi ao Governo russo que exerça influência junto do Governo sírio e pedi ao lado americano que garanta também a cooperação dos grupos armados” que combatem as forças leais a Assad, explicou o secretário-geral da ONU.

O cessar-fogo de sete dias foi implementado na madrugada de segunda para terça-feira e, desde então, têm sido registados bombardeamentos e ataques em várias zonas da Síria, ainda que, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos, não tenha havido mortes de civis.

Se a trégua for respeitada por todos os lados do conflito envolvidos nas negociações de paz em Genebra, os EUA e a Rússia comprometem-se a avançar com uma aliança inédita para destronar os jiadistas instalados na Síria, entre eles o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).