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A polémica central nuclear de Hinkley Point: um projeto “obsoleto, com falhas e muito caro”

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Matt Cardy

Políticos e ativistas avisam que planos para construir a primeira central nuclear do Reino Unido em 20 anos, com investimento de empresas da China e França, pode vir a custar aos contribuintes britânicos mais de 35 mil milhões de euros, para além dos potenciais custos ambientais e de segurança nacional para já incalculáveis

Theresa May está a apostar todo o futuro energético do Reino Unido num projeto baseado em tecnologia que ainda não foi testada e com um custo de eletricidade que se prevê massivo para os cidadãos britânicos no médio e longo prazo. É assim que vários políticos e ativistas descrevem os planos para a central nuclear de Hinkley Point, a primeira a ser construída no Reino Unido em 20 anos, que obteve luz verde do novo governo britânico na quinta-feira.

Depois de semanas de especulação, após May ter adiado a decisão final sobre Hinkley Point em julho para analisar as informações disponíveis sobre o projeto que foram recolhidas pelo antecessor, David Cameron, ontem a primeira-ministra britânica informou a estatal elétrica chinesa CGN e a francesa EDF que os planos de construção são para avançar.

A China vai cobrir um terço do investimento, avaliado em 18 mil milhões de libras (cerca de 21,2 mil milhões de euros), e a empresa energética francesa o restante valor. É o que os críticos dizem ser um "mau negócio" para o Reino Unido e para os contribuintes, que deverão ver as faturas de eletricidade subir 3,9% e que, ao todo, poderão vir a desembolsar 30 mil milhões de libras (mais de 35 mil milhões de euros).

Ativistas, empresas com forte vertente de proteção ambiental e políticos da oposição e do próprio Partido Conservador de May estão contra o projeto e questionam inclusivamente se irá realmente avançar dadas as dúvidas em torno dos seus custos, do desenho da própria central e respetivos reatores e dadas as preocupações com a segurança nacional do Reino Unido.

A China está envolvida no projeto sob a condição de, mais tarde, ficar a cargo da construção de outros dois projetos energéticos no Reino Unido — um plano já confirmado por Greg Clark, responsável pela pasta dos negócios no governo de May, que ontem declarou na Câmara dos Comuns que Pequim já recebeu autorização para avançar com a construção de dois novos reatores nucleares na central de Somerset, com um investimento de 6 mil milhões de libras, para garantir o que o político classifica de "retomada" da indústria nuclear britânica.

"O investimento irá assegurar 7% das necessidades elétricas do Reino Unido a 60 anos e ajudará a substituir a capacidade nuclear existente, cujo desmantelamento estava previsto para a próxima década", explicou o secretário de Estado aos deputados na quinta-feira. "A eletricidade gerada será de confiança e completamente compatível com as nossas obrigações face às alterações climáticas", garantiu. "Hinkley Point vai inaugurar uma nova era do poder nuclear do Reino Unido, com empresas baseadas no país a beneficiarem de quase dois terços do valor total do projeto e de 26 mil novos postos de trabalho que serão criados." Atualmente, o Reino Unido tem 15 reatores funcionais em sete centrais nucleares.

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BEN STANSALL

A GMB, a central sindical britânica que representa os trabalhadores do sector nuclear, e deputados eleitos por municípios que vão beneficiar financeiramente do projeto apoiam a visão positiva de Clark, mas de igual forma há muitas vozes que se lhe opõem, no parlamento e fora dele.

Lord Lawson, ex-chanceler do Tesouro e ex-ministro da Energia, aponta que todos os especialistas independentes que analisaram o projeto Hinkley Point são unânimes em declará-lo "um muito mau negócio", em parte porque os dois reatores semelhantes que a EDF está a construir em França "estão muito atrasados e enfrentam profundos problemas". O exemplo apontado é o de Flamanville, onde os custos com um reator igual aos que estão planeados para Hinkley Point mais do que triplicaram e cuja construção está seis anos atrasada; o mesmo está a acontecer com um projeto semelhante da EDF na Finlândia.

Entre as outras críticas conta-se o facto de a EDF ter prometido vender os megawatts/hora produzidos na nova central do canal de Bristol, no sudoeste de Inglaterra, por mais do dobro do atual preço médio de mercado. Sob os termos do esquema alcançado por Londres com a empresa francesa e com a estatal chinesa, os consumidores britânicos terão de compensar a EDF sempre que os preços da eletricidade sofrerem quedas, algo que se tem registado por causa da baixa dos preços dos combustíveis fósseis.

No início deste ano, o Gabinete Nacional de Auditorias estimou que os contribuintes britânicos poderão vir a ter de dispender 30 mil milhões de libras neste tipo de "pagamentos complementares" por causa das flutuações nos mercados.

"Mesmo que a EDF garanta que a tecnologia funciona, o Reino Unido irá pagar o preço de estar a prender-se a tecnologia cara, com falhas e obsoleta até 2060", aponta John Sauven, diretor-executivo da Greenpeace. Um grupo que se opõem à central de Hinkley Point e que integra a organização ambiental entregou ontem em Downing Street uma petição com 300 mil assinaturas para tentar que o projeto seja anulado.

Ao "The Independent", Michael Grubb, especialista em questões energéticas e alterações climáticas da Universidade College London, diz que o contrato firmado entre o Governo britânico e a China e França pode vir a ter custos ainda mais altos, a rondar as dezenas de milhares de milhões para os contribuintes. "Por esta quantia podíamos obter atualmente o dobro da eletricidade até de fontes renováveis mais caras como a energia eólica offshore", garante.

A par disto e das preocupações óbvias com os perigos inerentes a centrais de produção de energia nuclear, muitos apontam ainda como problemático o facto de se estar a dar à China acesso a infraestruturas de importância extrema para a segurança nacional. Entre os críticos conta-se até um dos principais conselheiros de Theresa May, Nick Timothy, que tem avisado contra esta ingerência de Pequim nos planos de centrais nucleares.

"Estações energéticas futuras seriam muito mais bem financiadas pelo setor privado britânico ou até, ocasionalmente, por investimentos do Tesouro britânico em vez de investidores estrangeiros que agora poderão tirar enormes somas de dinheiro do nosso país", acrescenta o deputado conservador e ex-ministro John Redwood.