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Negociações do Brexit não vão começar antes de 2018, vaticina ex-líder do Conselho Europeu

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Rompuy. Na hora da saída admite que a principal responsabilidade europeia na crise foi ter deixado apodrecer as coisas

Reuters

Em entrevista à BBC, Herman Van Rompuy diz que decisão de 52% dos britânicos no referendo de junho passado é “amputação política”

É muito improvável que "conversações substanciais" entre o Reino Unido e a União Europeia para dar início à saída britânica do bloco regional comecem antes do final de 2017. A opinião é de Herman Van Rompuy, ex-presidente do Conselho Europeu, que numa entrevista à BBC Rádio 4 esta quinta-feira de manhã disse que o Brexit é uma "amputação política" e que as negociações de saída não estão para breve porque é preciso esperar que um novo Governo alemão seja formado após as eleições legislativas de setembro do próximo ano.

Para Rompuy, o Reino Unido tem de "dar o primeiro passo" para ativar o artigo 50.º do Tratado de Lisboa e assim iniciar o processo de saída, que esse artigo prevê que esteja concluída no prazo máximo de dois anos. Recentemente, Theresa May, a nova chefe do Governo britânico, deu a entender que tal não vai acontecer antes do final de 2017.

A entrevista do ex-líder do Conselho, que ocupou o cargo entre 2009 e 2014, surge no mesmo dia em que os líderes dos Estados-membros da UE, à exceção do Reino Unido, vão dar início a uma cimeira em Bratislava, capital da Eslováquia, para discutir o futuro do bloco.

"Antes das eleições alemãs e antes de haver um novo Governo alemão, não penso que vá haver negociações sérias", disse o político belga à BBC, menos de um mês depois de o atual vice-chanceler alemão ter admitido a possibilidade de o Brexit vir a destruir a UE. "Podem sempre começar por assuntos mais técnicos, mas os tópicos difíceis e incondicionais só serão abordados depois da constituição de um novo governo alemão e isso só vai acontecer entre outubro e novembro [de 2017]."

Sobre os homens escolhidos por Bruxelas para discutirem a saída do Reino Unido com o Executivo britânico — o antigo primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt, e o ex-ministro francês Michel Barnier — Rompuy falou em negociadores "muito, muito duros" mas também "muito pragmáticos", recusando as acusações de alguns sobre os líderes europeus quererem "castigar" o Reino Unido por deixar a UE.

"Qualquer negociações será difícil, independentemente das personalidades envolvidas. Claro que queremos um acordo que represente algum tipo de benefício mútuo. Existem enormes interesses económicos, mas também há linhas vermelhas. É bem sabido que a liberdade de circulação [de nacionais da UE no Espaço Schengen] é uma dessas linhas vermelhas."

Na mesma entrevista, o belga rejeita ainda as responsabilidades atribuídas à UE por não ter cedido mais às exigências do anterior Governo britânico, de David Cameron, durante o período em que este tentou negociar um estatuto especial para o Reino Unido dentro da UE para tentar convencer a população a votar a favor da permanência no referendo de 23 de junho.

O resultado dessa consulta, defende Rompuy, "dependeu da Grã-Bretanha", que na sua opinião já tinha "um estatuto muito especial" no bloco, ao integrar o conjunto de países sem fazer parte da zona euro nem do Schengen — e sem ser "um membro de plenos direitos no que tocava à tomada de decisões difíceis".

"O Reino Unido já não tinha muitos amigos", sublinha o ex-líder do Conselho, referindo a eleição de Jean-Claude Juncker em 2014 para suceder a Durão Barroso à frente da Comissão Europeia como exemplo disso, uma altura em que o país ficou "isolado" na oposição ao luxemburguês.

Em última instância, segundo Rompuy, o Brexit veio contribuir para a destruição da imagem positiva do bloco europeu, representando uma "amputação política de primeiro grau". "Porque a Europa era ainda um modelo para muitos países de como alcançar a paz entre povos e Estados que estiveram em guerra durante séculos, era também um modelo de cooperação e integração. Essa imagem de uma Europa forte ficou muito manchada após o Brexit."