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Internacional

Cameron acusado de abrir caminho ao Daesh na Líbia

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Franck Prevel

Comissão de inquérito de Westminster acusa o ex-primeiro-ministro britânico de não ter assumido responsabilidade moral quando decidiu bombardear a Líbia, apoiado por França, com o alegado objetivo de proteger os civis de Bengazi das tropas de Muammar Kadhafi

David Cameron é alvo de duras críticas num novo relatório elaborado pela Comissão de Assuntos Externos do Parlamento britânico, onde o ex-primeiro-ministro do Reino Unido é acusado não ter delineado uma "estratégia coerente" para a campanha de bombardeamentos aéreos que levou a cabo na Líbia com o apoio do então Presidente francês, Nicolas Sarkozy, e que em última instância conduziria à deposição em 2011 do coronel Muammar Kadhafi, que esteve no poder naquele país durante 42 anos.

No relatório, a comissão de inquérito diz que a intervenção "não teve por base informações cuidadosas" das secretas e que, em última instância, levou ao colapso do país e consequentemente ao aparecimento do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) no norte de África. Enquanto chefe do Governo britânico, Cameron defendeu sempre que foi uma decisão internacional intervir na Líbia durante a chamada Primavera Árabe, pedida a partida pela Liga Árabe e mais tarde autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU.

Essa coligação internacional acabaria por ser liderada pelo Reino Unido e França, que em março de 2011 lançaram uma campanha de bombardeamentos aéreos e ataques com mísseis contra as forças leais a Kadhafi após o regime ter ameaçado atacar Bengazi, então sob controlo dos rebeldes que queriam depôr o Presidente líbio.

Após ter sido deposto, a Líbia mergulhou num estado de profundo caos interno e violência generalizada que opôs governos rivais e que levou à formação de centenas de diferentes milícias armadas, chão fértil para o aparecimento e instalação do Daesh no país.

Em janeiro deste ano, numa audiência com a comissão de inquérito, Cameron voltou a defender as suas ações e decisões, dizendo aos deputados que era necessário intervir na Líbia porque Kadhafi "estava a reprimir pessoas em Bengazi e a ameaçar matar o seu próprio povo como ratos". O Comité de Assuntos Externos, pelo contrário, diz que o Governo de Cameron "falhou em identificar que essa ameaça aos civis era um exagero", acusando-o de "escolher seletivamente elementos da retórica de Kadhafi pelo seu valor potencial" para uma intervenção como a que viria a acontecer.

O anterior Executivo britânico falhou ainda em identificar "os elementos militantes do extremismo islâmico na rebelião" contra Kadhafi, acusam os membros da comissão. "A possibilidade de grupos de militantes extremistas tentarem beneficiar da revolta não devia ter sido guardada para uma retrospetiva. A estratégia do Reino Unido foi fundada em premissas erradas e num compreendimento incompleto das provas existentes."

À BBC, o líder da comissão, Crispin Blunt, disse que o Reino Unido "foi arrastado por um entusiasmo de França em intervir" e que "a missão acabou por ser redirecionada para a proteção de pessoas em Bengazi, que indiscutivelmente não estavam à data sob a ameaça que foi alegada". Na verdade, continua o deputado do Partido Conservador, "com base nas provas que recolhemos, a ameaça à população de Bengazi foi grosseiramente exagerada".

Ao leme de Blunt, o comité diz que o Governo conservador de Cameron tinha "opções políticas" à disposição para evitar intervir, entre elas contactar Kadhafi através do antigo primeiro-ministro britânico, Tony Blair, mas que tal nem sequer foi considerado pelo facto de o Executivo estar "exclusivamente focado numa intervenção militar".

No verão de 2011, o caráter dessa intervenção, que no papel tinha como objetivo primeiro e último proteger civis alegadamente sob ameaça pelas forças de Kadhafi, foi alterado, tornando-se numa estratégia oportunista para forçar a alteração do regime na Líbia.

"Estas políticas não tiveram por base uma estratégia para apoiar e formar uma Líbia pós-Kadhafi", lê-se no relatório. "O resultado foi o colapso político e económico do país, uma guerra intermilícias e entre tribos, uma crise humanitária e de migrantes, violações generalizadas dos direitos humanos, a propagação de armas do regime Kadhafi por toda a região e o crescimento do ISIL [Daesh] no norte de África. Através das decisões tomadas pelo Conselho de Segurança Nacional [CSN], o ex-primeiro-ministro David Cameron foi em última instância responsável pelo falhanço no desenvolvimento de uma estratégia coerente para a Líbia".

Aquele país, apontam os deputados, foi "o primeiro teste" do CSN que foi criado em 2010 para coordenar respostas a ameaças de segurança e o trabalho de vários departamentos do Governo. A Comissão de Assuntos Externos pede agora que seja feita uma investigação independente à operacionalidade do CSN, que é presidido pelo primeiro-ministro, para perceber que melhorias foram ou não alcançadas nos processos de tomada de decisão do Governo com base nos erros cometidos na invasão do Iraque, ordenada por Blair em 2003 em apoio aos EUA e fortemente criticada desde então.

O grande erro apontado a Cameron pela comissão é o mesmo que o Presidente norte-americano assumiu em abril, numa entrevista de carreira ao canal Fox News, quando aproveitando a aproximação do fim do seu mandato, Barack Obama admitiu que devia ter pensado no futuro da Líbia antes de os aliados decidirem intervir no país.