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No 11 de setembro, Hillary foi-se abaixo. Que efeitos na campanha?

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BRIAN SNYDER / REUTERS

Numa altura em que Hillary já tinha perdido boa parte da vantagem sobre Trump nas sondagens, um problema de saúde complica ainda mais a situação

Luís M. Faria

Jornalista

O vídeo, de um desconhecido, não é nada tranquilizador para os apoiantes de Hillary Clinton. Filmada por trás, a candidata democrata encontra-se imóvel num passeio à beira de uma rua. Seguranças e assessores rodeiam-na, e a pessoa imediatamente à sua esquerda parece segurá-la pelo braço. Chega uma carrinha preta, a porta de trás abre-se. Hillary começa a dirigir-se para lá, cambaleando. De repente cai, e só não tomba no chão porque a seguram. As últimas imagens mostram que entra na viatura com os pés a arrastar.

Aconteceu na zona sul de Manhattan (Nova Iorque), por volta das 9h30 no passado domingo. A ocasião eram as comemorações dos 15 anos do 11 de setembro, um evento que gerou toda uma indústria de teorias da conspiração. Também existem muitas sobre o estado de saúde de Hillary Clinton, mas essa questão agora saiu do universo dos lunáticos para se tornar um handicap realda sua campanha. E não só. No dia seguinte, os mercados internacionais deram claros sinais de inquietação. O problema deles não é só – ou principalmente – a saúde de Hillary, mas a alternativa que ficaria se a campanha dela fosse ao fundo.

O candidato republicano, Donald Trump, mostrou-se incaracteristicamente discreto. Durante dois dias não disse nada. Limitou-se a desejar melhoras a Hillary e a anunciar que fez um exame médico, cujos resultados anunciará ainda esta semana. Entretanto, Hillary assumiu que estava com um problema de saúde e suspendeu a sua campanha por uns dias. Os debates entre os candidatos começam daqui a duas semanas. Com as eleições a menos de dois meses de distância, todas as reservas de energia são poucas.

Uma pneumonia diagnosticada dias antes

Inicialmente, a campanha de Hillary tentou minimizar o caso. A primeira declaração emitida após a partida dela dizia: “A Secretária Clinton participou na cerimónia de comemoração durante uma hora e trinta minutos esta manhã para prestar os seus respeitos e cumprimentar algumas das famílias das vítimas. Durante a cerimónia, teve um acesso de calor e foi para o apartamento da filha. Sente-se bastante melhor”. Horas depois, Clinton saía do apartamento da filha e saudava as pessoas na rua. “Sinto-me ótima. Está um dia lindo em Nova Iorque”. Uma menina pequena que se encontrava na rua ainda teve direito a uns segundos de atenção antes de a candidata voltar a desaparecer de vista.

Na tarde do mesmo dia, a médica da candidata, Lisa Bardack, examinou-a e deu uma opinião mais franca: “A Secretária Clinton estava com uma tosse relacionada com alergias. Na sexta-feira, após uma avaliação de seguimento da sua tosse prolongada, foi diagnosticada com pneumonia. Começou a tomar antibióticos e foi aconselhada a descansar e a modificar a sua agenda. Durante o evento desta manhã, teve um acesso de calor e ficou desidratada. Acabei de a examinar, e já está reidratada e a recuperar bem”.

Pneumonia é um termo que assusta, mas a versão da doença que Hillary tem é bastante comum e fácil de tratar. Porém, já basta para afetar a sua campanha. Há meses que aliados de Trump andam a espalhar rumores sobre a saúde dela. Hillary teve um problema de saúde grave em 2012, quando caiu em casa e bateu com a cabeça. A recuperação completa levou meses, e há quem diga que os efeitos não desapareceram. Dois coágulos apareceram-lhe posteriormente na cabeça, obrigando-a a tomar medicação até hoje.

Tudo são ataques… de qualquer coisa

Nessas circunstâncias, não admira que vários autoproclamados especialistas em encontrar verdades ocultas a tenham diagnosticado com uma série de condições debilitantes, desde disfasia (um transtorno de linguagem caracterizado por dificuldade para falar ou compreender a fala alheia) até insuficiência cardíaca, epilepsia e até instabilidade mental. Essas teorias baseiam-se normalmente em interpretações abusivas ou absurdas de imagens públicas. Por exemplo, se Hillary atira a cabeça para trás num gesto de rejeição a algo que lhe dizem, alguém verá nisso uma prova inequívoca de que ela teve um ataque qualquer.

O seu relatório de saúde oficial, elaborado por Bardack há meses, deu-a como saudável. Pressão arterial, ritmo cardíaco, níveis de colesterol, normais. Nem cancro nem problemas de coração. “Em excelente condição física e apta a servir como Presidente dos Estados Unidos”, resumiu Bardack, uma médica de clínica geral suficientemente reputada para presidir a um departamento de Medicina de uma instituição em Nova Iorque onde trabalham 500 médicos.

Ao longo dos meses, Trump foi-se referindo à alegada fraca saúde de Hillary, sugerindo que lhe faltou energia para se levantar da cama quando o embaixador americano foi morto na Líbia (na verdade, o ataque ao consulado americano ocorreu quando era dia nos Estados Unidos) e noutras ocasiões decisivas. Desta vez, porém, deve calcular que o contraste entre a sua saúde e a fragilidade da rival devem ser suficientes.

Mesmo assim, não resistiu a fazer uma insinuação tipicamente sua: “Passa-se alguma coisa”. Logo a seguir acrescentou esperar que Hillary fique bem e regresse depressa à campanha.